Capítulo 26 - Entre o coração e a razão

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Por Nina Carvalho

Meu coração parecia incapaz de voltar ao ritmo normal. As mãos de Noah ainda estavam em minha cintura. As minhas continuavam presas entre as dele.

Não havia beijo.

Não havia palavras.

Só existia aquele instante. Durante anos imaginei como seria encontrá-lo. Pensei que brigaria, que choraria ou fingiria indiferença. Jamais imaginei que esqueceria até como respirar. Os olhos dele continuavam presos aos meus.
Azuis.

Intensos.

Mas diferentes.

A guerra havia deixado marcas que nenhuma cicatriz seria capaz de contar.

Mesmo assim...

Ali estava o Noah.

Meu Noah.

Ou, pelo menos, aquele que um dia eu acreditei que fosse. Meu corpo inteiro gritava para diminuir a distância entre nós. Meu coração...
Esse já havia desistido de fingir que não o reconhecia.

- Nina?

A voz de Gabriel atravessou o silêncio como um balde de água fria. Meu corpo reagiu antes da minha consciência.
Afastei-me de Noah tão depressa que quase perdi o equilíbrio. Gabriel caminhava em nossa direção com a tranquilidade de sempre. Camisa social de mangas dobradas até os cotovelos.
O relógio impecavelmente alinhado ao pulso.
Os cabelos castanhos penteados com o mesmo cuidado de quem parecia nunca sair do lugar. Parecia ter saído de um catálogo inglês.

Elegante.

Educado.

Irretocável.

Sorriu primeiro para Noah. Depois para mim.

- Interrompi alguma coisa?

- Estávamos conversando. - Noah respondeu antes que eu encontrasse minha voz. Gabriel assentiu lentamente.

- Que bom.

Nenhuma ironia.

Nenhuma grosseria.

Apenas um sorriso educado.

- Amor... você pode vir comigo um instante?

Olhei para Noah. Depois para Gabriel.

- Claro.

Seguimos em silêncio até o corredor lateral da casa. Era um lugar discreto.
Longe das risadas. Longe da churrasqueira. Longe de todos.
Gabriel me encostou de leve na parede de madeira da varanda. Respirou fundo e
sorriu outra vez.

- Antes de qualquer coisa... eu quero pedir desculpas.

Franzi a testa.

- Desculpas?

- Talvez eu esteja exagerando.
Meu coração apertou.

- O que aconteceu?

Ele demorou alguns segundos para responder. Como se escolhesse cuidadosamente cada palavra.

- Ver vocês dois daquele jeito...
Baixou os olhos. Sorriu sem graça.

- Mexeu comigo.
Pisquei algumas vezes.

- Gabriel...

- Eu sei.

Levantou imediatamente uma das mãos.

- Eu sei que vocês cresceram juntos e sei que ele faz parte da sua vida. Sei de toda a história de vocês.

Respirei aliviada. Ele entendia. Sempre entendia.

- Mas...

A palavra ficou suspensa entre nós.

- Eu percebi que vocês ainda têm uma intimidade muito grande.

Meu peito apertou.

- Nós sempre fomos assim.

- Eu sei.

Outra vez. Sempre aquele "eu sei". Nunca uma acusação ou uma ordem. Só compreensão ou pelo menos era o que parecia.

- Talvez o problema seja comigo.
Sorriu de lado. - Nunca precisei dividir a mulher que amo com alguém que também já ocupou esse lugar.
Aquilo me desmontou. Ele acabou de falar que me ama? Porque ele não estava bravo?

Na verdade, parecia vulnerável ou era exatamente isso que eu acreditava. Aproximei-me um passo.

- Gabriel...

Ele segurou delicadamente minhas mãos.

- Eu não quero ser aquele namorado inseguro, nem o cara que diz com quem você pode ou não conversar. Isso não seria justo.

Assenti imediatamente. Era uma das coisas que eu mais admirava nele. Ele nunca tentou me controlar.

Nunca.

Então por que eu me sentia tão culpada?

- Só queria te pedir uma coisa.

Meu coração acelerou.

- O quê?

Ele respirou fundo.

- Evita ficar sozinha com ele.
Silêncio.

- Não porque eu não confie em você.
Sorriu. - Confio, mais do que em qualquer pessoa, mas vocês têm uma história. E eu...

Baixou os olhos por um instante.

- Eu só tenho medo de perder você.

Foi impossível não sentir o peito apertar.
Segurei seu rosto entre minhas mãos.

- Você não vai me perder.

Ele sorriu aliviado.

- Obrigado meu amor.

Depois beijou minha testa com delicadeza e carinho. Com aquele jeito protetor que sempre me fazia acreditar que estava segura. E, naquele momento...
Eu realmente acreditava. Quando voltamos para o quintal, as gargalhadas podiam ser ouvidas antes mesmo de enxergarmos as pessoas.

- Finalmente! - tio Edu gritou. - Achei que vocês tinham ido buscar a cerveja junto com esses dois.

Olhei para o portão, Alex e Olie estavam chegando ensopados. Sem cerveja.
Com um saco de gelo na mão. Os dois completamente despenteados.
O cabelo da Olie pingava.
A barra da camiseta de Alex estava encharcada. Thomas foi o primeiro a cair na risada.

- Vocês caíram dentro da lagoa?

- A culpa foi dele! - Olie respondeu imediatamente, apontando para Alex.

- Minha?

- Você resolveu lavar o carro!

- Tinha cocô de pombo!

- Alex!

- Eu achei que seria rápido!

- E esqueceu a cerveja!

Até Noah começou a rir. A casa inteira foi tomada por uma leveza que eu não sentia havia muito tempo.
Enquanto todos prestavam atenção na discussão dos dois...

Gabriel puxou discretamente meu prato.

- Deixa eu segurar.

Entregou outro guardanapo. Depois pegou meu copo.

- Você quase não tomou água.
Sorri.

- Verdade.

Peguei o copo sem pensar. Do outro lado da mesa...
Os olhos de Olie encontraram os meus.
Ela sorriu. Mas não era um sorriso qualquer. Era o sorriso de quem estava tentando entender alguma coisa.
Ela me conhecia melhor do que qualquer pessoa. Conhecia a menina que roubava carne da churrasqueira antes de ficar pronta.
A adolescente que repetia sobremesa escondida da Celeste. A mulher que sempre fez questão de decidir tudo sozinha.
E, pela primeira vez...

Vi uma pequena dúvida surgir em seu olhar.Tão discreta que talvez ninguém mais percebesse. Mas eu conhecia Olivia Cooper.

Quando ela começava a observar em silêncio...
Era porque alguma coisa dentro dela dizia que a história ainda não estava completa.

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