Capítulo 23 - Terra de Ninguém

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"Há guerras que acontecem no campo de batalha. Outras começam no instante em que percebemos que podemos voltar para casa tarde demais."

Por Noah Cooper

Existe uma falsa sensação de segurança quando se veste um uniforme.
As pessoas olham para homens como eu e enxergam coragem. Disciplina. Frieza. Imaginam que o medo desaparece no instante em que o tecido camuflado toca a pele, que o treinamento substitui a emoção e que, depois de tantos anos, aprendemos a conviver com a morte como quem aprende a dirigir ou andar de bicicleta.
Se elas soubessem...
O medo nunca vai embora.
Ele apenas muda de lugar.
Passei quase uma década da minha vida me preparando para o imprevisível.
Aprendi a desmontar um fuzil de olhos fechados.
A reconhecer o som de um disparo antes mesmo de identificar sua direção.
A diferenciar, pelo cheiro, um prédio abandonado de um que havia sido ocupado poucas horas antes.
Descobri que uma fração de segundo separa um homem vivo de um nome gravado em uma placa de metal.
Também aprendi que nenhuma missão é igual à outra.
Você pode estudar mapas durante dias.
Decorar rotas de fuga.
Conhecer cada integrante da equipe.
Ainda assim...
A guerra sempre encontra uma maneira de surpreender.
O curioso é que, por mais que eu tenha me preparado para enfrentar o desconhecido, nunca encontrei um treinamento que ensinasse a viver.
Não existe manual para voltar para casa.
Não existe protocolo para olhar nos olhos da mulher que você abandonou acreditando estar fazendo a coisa certa.
Não existe estratégia capaz de diminuir o peso de oito anos de silêncio.
Passei tempo demais acreditando que era um homem preparado para qualquer missão.
Hoje sei que estava errado.
Porque sobreviver a tiros, explosões e emboscadas era infinitamente mais simples do que enfrentar a possibilidade de Nina Carvalho não encontrar mais espaço para mim em sua vida.
A sirene cortou a madrugada às duas e quarenta e sete.
Abri os olhos antes mesmo que o segundo toque terminasse.
Meu corpo já não precisava de despertadores.
O treinamento transformara qualquer ruído fora do comum em ordem.
Cinco minutos depois, minhas botas já batiam contra o piso de concreto do alojamento.
Peguei o colete.
As placas balísticas.
Capacete.
Rádio.
Fuzil.
Cada movimento era automático.
Preciso.
Quase mecânico.
Enquanto ajustava as tiras do colete diante do armário metálico, encontrei meu reflexo.
Por um instante, fiquei encarando aquele homem.
A barba escondia parte das cicatrizes.
Os olhos pareciam mais velhos do que realmente eram.
As rugas discretas nos cantos denunciavam noites mal dormidas.
O garoto que um dia atravessava Nova York de moto para implicar com Nina havia desaparecido.
No lugar dele existia alguém que aprendera a sobreviver.
Mas sobreviver...
...não era o mesmo que viver.
Alex apareceu ao meu lado terminando de prender o coldre na cintura.
- Dormiu?
Sorri de lado.
- Você ainda faz esse tipo de pergunta?
Ele riu pelo nariz.
- Costume.
- Você?
- Acho que desaprendi.
Assenti.
Nenhum de nós precisava explicar.
Antes de fechar a mochila, meus dedos encontraram uma fotografia escondida entre roupas dobradas.
As bordas estavam gastas.
Um dos cantos começava a rasgar.
Nina sorria para a câmera usando um vestido amarelo de verão.
Hamptons.
Ela devia ter dezessete anos.
O vento bagunçava seus cabelos enquanto ela ria de alguma coisa que eu já nem lembrava.
Passei o polegar sobre o rosto dela.
Era um gesto automático.
Um ritual silencioso que repetia antes de toda missão.
Nunca contei isso a ninguém.
Nem ao Alex.
Aquela fotografia atravessara fronteiras comigo.
Desertos.
Montanhas.
Neve.
Tempestades.
Sobreviveu a explosões, infiltrações e tiroteios.
Porque ela me lembrava de quem eu era antes da guerra.
Antes de aprender que alguns silêncios machucam mais do que qualquer bala.
Antes de escolher partir sem perceber que estava deixando para trás a única pessoa que realmente conhecia todas as versões de mim.
Guardei a fotografia.
Respirei fundo.
Mas, dessa vez...
Meu peito pesava diferente.
Um incômodo difícil de explicar.
Como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer.
Peguei o celular.
Hesitei por alguns segundos.
Depois procurei um número que eu sabia de cor, embora nunca tivesse coragem de ligar.
Nina.
O telefone chamou uma vez.
Duas.
Três.
Quatro.
Caixa postal.
Fechei os olhos.
Sorri sem humor.
- Claro... você deve estar salvando o mundo, doutora.
Passei a mão pelo rosto.
Poderia guardar o celular e seguir.
Mas havia outra pessoa.
A única que ainda servia de ponte entre nós.
Procurei outro contato.
Olie.
A ligação foi atendida no segundo toque.
- Noah? - a voz sonolenta dela veio do outro lado. - Aconteceu alguma coisa?
- Ainda não.
Silêncio.
Ela conhecia aquele tom.
- Você vai sair em missão.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
- Daqui a pouco.
- E resolveu lembrar que tem irmã?
Sorri pela primeira vez naquela madrugada.
- Você continua brigando comigo até do outro lado do mundo.
- Alguém precisa.
Ela respirou fundo.
- Está tudo bem?
Olhei para o céu escuro pela janela do alojamento.
- Não sei...
Só precisava saber dela.
Do outro lado da linha, o silêncio mudou de peso.
Olie entendeu de quem eu falava sem que eu precisasse dizer o nome.
Ela demorou alguns segundos para responder.
- A Nina está terminando a residência.
Quase não dorme.
Faz mais plantões do que deveria.
Vive com um café na mão.
Sorri sozinho.
Era exatamente a cara dela.
- E...
Ela está feliz?
Olie soltou uma risadinha.
- Essa pergunta é difícil.
Meu coração apertou.
- Por quê?
- Porque felicidade nunca foi uma coisa simples para a Nina.
Ela fez uma pausa antes de continuar.
- Mas tem alguém tentando tornar os dias dela mais leves.
Engoli em seco.
- Alguém, como?
- O nome dele é Gabriel, ele parece ser um cara legal, tio Edu disse ter gostado dele.
Ela sorriu do outro lado da linha. Eu podia ouvir.
- Você ia odiar conhecer esse cara.
As palavras da Olie ficaram suspensas entre nós.

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