Por Noah Cooper
Eu tinha nove anos quando minha vida mudou para sempre.
Até então, minhas maiores preocupações eram terminar os deveres da escola para poder jogar videogame e impedir que minha irmã transformasse a sala de casa em um palco de show particular.
Olie era uma pequena tempestade.
Cantava alto, corria pela casa e tinha energia suficiente para cansar qualquer adulto em poucos minutos. Meu pai dizia que eu precisava aprender a ter mais paciência com ela.
— Filho, lembre-se sempre de uma coisa — ele costumava dizer. — Sua mãe e sua irmã são as nossas garotas. Nosso trabalho é cuidar delas.
Na época, eu revirava os olhos toda vez que ele falava aquilo.
Hoje daria qualquer coisa para ouvi-lo repetir mais uma vez.
Depois do acidente, muita coisa ficou confusa.
Lembro dos corredores do hospital, dos médicos entrando e saindo dos quartos e do tio Edu aparecendo todos os dias com um sorriso cansado no rosto.
Mas, acima de tudo, lembro do dia em que ele nos levou para a casa dele.
Era uma manhã silenciosa.
Olie segurava minha mão com força enquanto observava a enorme casa pela janela do carro.
— Nós vamos morar aqui agora? — ela perguntou baixinho.
Olhei para o tio Edu no banco da frente.
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Enquanto vocês precisarem.
Não era a nossa casa.
Não era o nosso quarto.
Não era a nossa vida.
Mas, naquele momento, era tudo o que tínhamos.
Nos primeiros meses, nenhum de nós soube exatamente como agir.
Olie passou a dormir com a luz acesa.
Eu acordava durante a madrugada para verificar se ela estava bem.
E tio Edu...
Bem, tio Edu estava aprendendo a ser pai sem nunca ter planejado ser um.
Mesmo assim, ele tentava.
Tentava quando queimava o café da manhã.
Tentava quando esquecia reuniões da escola.
Tentava quando aparecia em apresentações com meias diferentes.
E, aos poucos, aquela casa começou a parecer menos estranha.
Mais tarde, o processo de adoção que ele havia iniciado foi concluído.
Foi assim que Alex entrou em nossas vidas.
Ele tinha a minha idade e a expressão permanente de quem preferia estar em qualquer outro lugar do mundo.
Na primeira semana, quase não falou com ninguém.
Na segunda, começou a responder com monossílabos.
Na terceira, já estava discutindo videogame comigo como se nos conhecêssemos havia anos.
— Você joga mal demais — ele anunciou certa vez.
— E você fala demais.
— Pelo menos eu ganho.
— Uma vez.
— Três.
— Duas.
— Três.
Olie apareceu no meio da discussão.
— Vocês dois são ridículos.
Foi a primeira vez que ouvi os três rindo juntos.
E talvez tenha sido naquele momento que percebi.
Nenhum de nós havia escolhido estar ali.
Nenhum de nós havia escolhido as perdas que carregava.
Mas, de alguma forma, estávamos construindo algo novo.
Algo que não substituía o que tínhamos perdido.
Mas que nos ajudava a continuar.
Cinco anos depois, a casa do tio Edu já era simplesmente nossa casa.
E, embora ainda existissem dias difíceis, a verdade era que eu não conseguia imaginar minha vida sem aquelas pessoas.
Nem mesmo sem Alex, por mais irritante que ele fosse.
— Olie, você já terminou essa mala ou pretende levar o quarto inteiro? — gritei da porta.
— Cuida da sua vida, Noah!
Sorri.
Talvez as coisas nunca voltassem a ser como antes.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, isso não parecia tão assustador.
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Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
