Por Nina Carvalho
Os Hamptons cheiravam a maresia, protetor solar e liberdade. Talvez por isso eu amasse tanto aquele lugar.
Ali ninguém me olhava como a menina que havia sido.
Ninguém enxergava o passado. Ninguém enxergava as cicatrizes. Ali eu era apenas Nina. E naquele verão eu tinha quinze anos.
Quinze.
Parecia impossível.
Às vezes ainda me sentia como a garotinha assustada que chegou à casa dos Cooper sem saber onde colocar as mãos ou como responder quando alguém era gentil comigo.
Mas naquele verão, alguma coisa estava mudando. E eu ainda não sabia que tudo começaria numa manhã comum.
— Todo mundo vestido em cinco minutos! — tio Edu anunciou.
— Isso nunca termina bem — Alex reclamou.
— Concordo — Noah respondeu.
— Vocês dois reclamam de tudo.
— Porque você apronta tudo.
Olivia já ria antes mesmo de descobrir o motivo.
— O que você fez dessa vez?
Tio Edu abriu um sorriso enorme.
O sorriso de quem estava escondendo alguma coisa.
— Tenho uma surpresa.
— Eu sabia — Alex resmungou.
— Pode entrar!
Todos olharam para a entrada da casa.
A porta de um carro preto se abriu. Por um segundo eu não consegui acreditar.
Então meu coração disparou.
— Celeste?
Ela sorriu.
O mesmo sorriso.
Os mesmos olhos.
A mesma voz.
— Oi, pequena.
Eu nem pensei.
Corri.
E a abracei tão forte que quase a derrubei.
— Você voltou!
— Voltei.
— Meu Deus!
— Você cresceu.
— Você também!
— Eu senti sua falta.
— Eu senti mais.
Quando nos afastamos, percebi que Olivia estava sorrindo.
Alex também.
E Noah observava tudo encostado na varanda. Foi então que notei uma coisa.
A mão de Celeste estava entrelaçada à de tio Edu.
Pisquei.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Espera.
Olivia começou a rir.
— Ela percebeu.
— Não...
Olhei para os dois novamente.
— Vocês estão...
— Estamos — respondeu Celeste.
— Namorando — completou tio Edu.
Meu queixo caiu.
— O QUÊ?
Alex gargalhou.
— Exatamente a reação que eu tive.
— Desde quando?
— Oito meses.
— OITO MESES?
— Queríamos contar pessoalmente.
— Eu vou precisar sentar.
— Já falei que ela é dramática? — Noah comentou.
— Cala a boca.
— Nunca.
Os dias seguintes passaram rápido demais.
Praia.
Passeios.
Sorvete.
Risadas.
Jogos.
Filmes.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia completamente feliz.
Foi também durante aquelas férias que Noah apareceu com uma novidade.
Uma namorada.
Amanda.
Bonita.
Muito bonita.
Cabelos dourados.
Sorriso perfeito.
Confiança de sobra.
Ela parecia ter saído de uma revista.
— Essa é Amanda — Noah apresentou.
Amanda sorriu para todos.
— Prazer.
Olivia ficou encarando os dois.
Depois olhou para mim.
Depois para Amanda.
Depois para mim novamente.
— Não.
— O quê? — Noah perguntou.
— Ela parece a Nina.
Eu quase engasguei com o refrigerante.
— Olie!
— O quê? Estou falando a verdade!
Alex começou a rir.
— Agora que você falou...
— Não ajuda! — Noah reclamou.
Amanda parecia divertida.
Eu não.
Porque uma parte de mim percebeu algo que não queria perceber.
Ela realmente parecia comigo.
Naquela mesma tarde, Celeste entrou no meu quarto carregando uma sacola.
— Tenho uma coisa para você.
— O quê?
Ela jogou o pacote na cama.
Dentro havia um biquíni azul-claro.
Meu coração quase parou.
— Nem pensar.
— Vai sim.
— Não vou.
— Vai.
— Celeste.
— Nina.
— Não.
— Sim.
— Não.
— Sim.
Eu odiava quando ela vencia. Porque ela sempre vencia. Demorei quase vinte minutos para criar coragem.
Vinte.
Quando finalmente saí do banheiro e me olhei no espelho...
Parei.
Completamente.
Não porque estivesse perfeita.
Porque ninguém está.
Mas pela primeira vez eu não procurei defeitos.
Não procurei marcas.
Não procurei motivos para me esconder.
Vi uma garota bonita.
Uma garota feliz.
Uma garota que estava crescendo.
E, pela primeira vez na vida...
Gostei do que vi.
Dois dias depois todos decidiram ir até a cidade.
Todos.
Menos Noah.
— Estou cansado.
— Você sempre está cansado — Olivia respondeu.
— Faz parte do meu charme.
— Não faz.
— Faz sim.
— Não.
— Sim.
— Crianças — Alex interrompeu.
Pouco depois a casa ficou vazia.
Silenciosa.
O som das ondas era a única coisa que quebrava o silêncio.
Eu voltava da praia quando o vi.
Noah estava dormindo numa rede na varanda.
O vento balançava lentamente o tecido.
Os cabelos escuros caíam sobre sua testa.
Ele parecia tranquilo.
Bonito.
Perigoso.
Meu coração acelerou.
Talvez porque eu estivesse olhando tempo demais.
Talvez porque fosse Noah.
Talvez pelas duas coisas.
Aproximei-me devagar.
Bem devagar.
E antes que pudesse desistir...
Inclinei-me.
E beijei sua bochecha.
Foi rápido.
Leve.
Mas aconteceu.
Meu coração imediatamente tentou fugir do peito.
Então Noah abriu os olhos.
— Nina?
— Ah!
Tentei correr.
Foi um erro.
Porque ele segurou meu pulso.
— Aonde pensa que vai?
— Embora.
— Depois de fazer isso?
— Não fiz nada.
— Fez sim.
— Não fiz.
— Mentira.
— Noah...
Ele sorriu.
Aquele sorriso.
O sorriso que sempre me fazia esquecer como respirar.
E então me puxou.
Antes que eu pudesse protestar, estava sentada ao lado dele na rede.
Perto demais.
Muito perto.
— Você me beijou.
— Foi na bochecha.
— Ainda conta.
— Não conta.
— Conta sim.
— Não.
— Sim.
— Não!
Ele continuou sorrindo.
Mas então seu sorriso mudou.
Ficou mais suave.
Mais sério.
Os olhos dele encontraram os meus.
E o mundo pareceu desacelerar.
O som do mar.
O vento.
O verão.
Tudo desapareceu.
Restaram apenas nós dois.
Noah ergueu uma das mãos.
Afastou uma mecha do meu cabelo.
E então me beijou.
Devagar.
Como se tivesse todo o tempo do mundo.
Como se aquele momento fosse precioso demais para ser apressado.
Meu primeiro beijo.
O beijo que eu jamais esqueceria.
O beijo que faria parte de mim para sempre.
Quando nos afastamos, permanecemos imóveis.
Sorrindo.
Sem conseguir dizer nada.
Sem precisar dizer.
Foi então que ouvimos o barulho de um carro entrando na garagem.
Nós nos afastamos tão rápido que quase caímos da rede.
— Meu Deus! — sussurrei.
— Meu Deus! — Noah repetiu.
A porta do carro abriu.
Alex apareceu primeiro.
Depois Olivia.
E logo atrás deles...
Amanda.
A namorada de Noah.
Meu sorriso desapareceu.
E o dele também.
Porque naquele instante nós dois entendemos exatamente a mesma coisa.
Aquele beijo tinha mudado tudo.
E o verão estava apenas começando.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
