Por Nina Carvalho
Às vezes, a vida sussurra.
Em outras...
Ela chama pelo nosso nome.
Passei a semana inteira tentando fingir que aquela pasta não existia.
Ela permanecia guardada na última gaveta da minha escrivaninha, escondida sob livros de anatomia e artigos científicos, como se deixá-la fora da minha vista fosse suficiente para impedir que minha vida mudasse.
Não era.
Toda vez que entrava no quarto, eu sabia exatamente onde ela estava.
Esperando.
Assim como a decisão que eu insistia em adiar.
Os dias continuavam corridos.
Plantões.
Aulas.
Seminários.
Estudos.
E, no meio de tudo isso, Noah.
Nossa rotina à distância havia encontrado um equilíbrio que eu jamais imaginei ser possível. Não existiam cobranças. Não existiam desconfianças.
Existia confiança.
E isso era tão raro que, às vezes, ainda me emocionava.
Naquela manhã, enquanto caminhava pelo hospital, meu celular vibrou.
Uma mensagem.
Noah ❤️
"Bom dia, doutora. Espero que hoje você lembre de almoçar. Caso contrário, vou atravessar um oceano só para brigar com você."
Sorri sozinha no corredor.
"Prometo tentar, militar."
A resposta veio segundos depois.
"Tentativa não é resposta aceita."
Ri baixo.
Meu Deus...
Como alguém conseguia morar tão longe e, ainda assim, fazer parte de todos os meus dias?
Guardei o celular no bolso do jaleco.
Foi quando ouvi meu nome.
— Nina?
Era a doutora Emily Carter.
Coordenadora do programa de medicina humanitária da universidade.
— Pode vir comigo um instante?
Meu coração acelerou.
Sem dizer uma palavra, a acompanhei até sua sala.
Ela fechou a porta e me entregou um envelope.
Dessa vez, não era apenas o símbolo dos Médicos Sem Fronteiras.
Havia uma carta.
Meu nome estava escrito nela.
Com as mãos levemente trêmulas, comecei a ler.
"Prezada Dra. Nina Carvalho..."
Cada linha parecia um sonho tomando forma.
Eu havia sido oficialmente aprovada para a próxima etapa do processo seletivo.
Haveria treinamentos.
Entrevistas.
Avaliações psicológicas.
E, se tudo desse certo...
Minha primeira missão poderia acontecer em menos de um ano.
Um ano.
Meu peito se encheu de alegria.
E, ao mesmo tempo...
De medo.
Naquela noite, fui para o apartamento de Olivia.
Ela abriu a porta usando um moletom enorme, os cabelos presos de qualquer jeito e uma taça de vinho na mão.
— Pela sua cara, ou você matou alguém... ou ganhou um prêmio Nobel.
Não consegui responder.
Apenas entreguei o envelope.
Ela leu em silêncio.
Depois tornou a ler.
Quando levantou os olhos, eles estavam cheios de lágrimas.
— Você conseguiu...
Balancei a cabeça.
— Ainda não. É só a próxima etapa.
Ela me abraçou tão forte que quase perdi o ar.
— Não, Nina... você já conseguiu. Eu conheço esse olhar. É o mesmo que você tinha quando dizia, aos quinze anos, que queria cuidar de pessoas que ninguém mais queria cuidar.
Sorri entre as lágrimas.
— Eu estou com medo.
Ela segurou meu rosto entre as mãos.
— Da guerra?
Balancei a cabeça negativamente.
— Do Noah.
Olivia permaneceu em silêncio.
— Gabriel dizia que esse sonho era egoísmo. Que ninguém escolhia viver em lugares assim quando podia construir uma vida segura.
Minha voz falhou.
— E se o Noah pensar igual?
Ela riu.
Não uma risada de deboche.
Uma risada de quem tinha absoluta certeza da resposta.
— Nina... você realmente acha que o homem que atravessaria um campo minado por quem ama vai pedir que você desista de salvar vidas?
Baixei os olhos.
Ela continuou.
— Noah se apaixonou justamente pela menina que sonhava mudar o mundo. Se ele pedisse para você desistir... deixaria de amar a pessoa que fez ele se apaixonar.
As palavras dela aqueceram meu coração.
Mas o medo...
O medo ainda permanecia.
Porque algumas feridas cicatrizam.
Outras apenas aprendem a doer em silêncio.
Na volta para casa, parei diante da janela do meu apartamento.
Lá embaixo, Nova York seguia viva.
Caótica.
Linda.
Peguei o celular.
Abri a conversa com Noah.
Dessa vez, escrevi apenas três palavras.
"Você está acordado?"
Vi a mensagem ser entregue quase imediatamente.
E, poucos segundos depois...
O telefone começou a tocar.
Olhei para a tela iluminada.
Meu coração disparou.
Talvez...
Tivesse chegado a hora de confiar que o amor também pode ser o lugar onde os sonhos encontram coragem para existir.
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Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
