Por Noah Cooper
O símbolo estampado no envelope fez o tempo parar.
Eu conhecia aquele emblema.
Não porque fizesse parte do meu mundo, mas por fazer parte do dela. Desde sempre.
— Médicos Sem Fronteiras... — murmurei, sem tirar os olhos da tela.
Nina baixou o olhar por um instante e sorriu daquele jeito tímido que sempre aparecia quando não sabia como esconder a própria emoção.
— É.
O silêncio se instalou entre nós. Curiosamente, não era um silêncio ruim. Era daqueles que carregam o peso de uma vida inteira.
— Eles responderam? — perguntei.
Ela assentiu.
— Passei para a próxima etapa do processo.
Fechei os olhos por um segundo. Meu peito apertou. Não de tristeza. De orgulho. Quando voltei a encará-la, vi a menina que, anos atrás, me contou que queria ser médica não para ter um consultório bonito, mas porque sonhava cuidar de pessoas que ninguém enxergava. Ela continuava exatamente a mesma. Só havia crescido.
— Você conseguiu, Pimentinha...
Ela balançou a cabeça.
— Ainda não. Ainda falta muito.
Sorri.
— Não. Você já conseguiu.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Permanecer fiel ao sonho daquela garota de quinze anos.
Os olhos dela começaram a marejar.
— Você lembra?
Soltei uma risada baixa.
— Eu lembro de tudo que diz respeito a você.
Ela abaixou a cabeça para esconder o sorriso. Por alguns segundos, apenas nos observamos através da tela. Como era injusto amar alguém daquele jeito e não poder diminuir a distância com um simples abraço.
— Confesso que fiquei com medo de te contar — disse ela.
— Medo de mim?
— Medo da sua reação.
Inclinei a cabeça.
— Por quê?
Ela respirou fundo.
— Porque, se tudo der certo... eu posso passar meses fora. Talvez mais.
Assenti devagar.
— Eu sei.
— E você não está bravo?
A pergunta me fez sorrir.
— Bravo?
— Achei que você pudesse pensar que eu estava escolhendo isso... em vez da nossa vida.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Nina, olha para mim.
Ela ergueu os olhos.
— Eu me apaixonei justamente porque você era essa mulher.
Ela permaneceu em silêncio.
— Você nunca sonhou pequeno. Nunca quis uma vida confortável só para dizer que venceu. Você queria fazer diferença.
Sorri com orgulho.
— E conseguiu.
Ela limpou discretamente uma lágrima.
— Ainda nem comecei.
— Começou no dia em que decidiu dedicar sua vida aos outros.
Passei a mão pelos cabelos.
— Eu passei anos aprendendo a proteger pessoas usando um fuzil.
Sorri.
— Você escolheu protegê-las usando um jaleco.
Ela riu entre as lágrimas.
— Acho que o seu trabalho é um pouquinho mais perigoso.
— Discordo.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Eu enfrento homens armados. Você enfrentará fome, guerras, epidemias e ainda precisará continuar acreditando na humanidade.
Fiquei alguns segundos observando seu rosto.
— Se existe alguém que nasceu para vestir aquele colete...
Apontei para o envelope.
— É você.
Ela levou a mão à boca.
— Noah...
— Eu nunca senti tanto orgulho de alguém.
Ela chorou em silêncio. E doeu não poder estar ali para enxugar cada lágrima.
— Promete uma coisa? — ela perguntou.
— Quantas você quiser.
— Se eu for...
— Quando você for.
Ela sorriu.
— Se eu for... não deixa a distância fazer a gente esquecer quem somos.
Balancei a cabeça.
— A distância já tentou separar a gente uma vez.
Sorri de canto.
— E falhou miseravelmente.
Ela riu.
Aquele riso...
Meu lugar favorito no mundo.
A conversa ficou mais leve.
Relembramos histórias da infância, as férias em Hamptons, as implicâncias da Olie, as broncas do tio Edu.
Em determinado momento, ela apoiou o queixo nas mãos e me encarou.
— Você lembra da promessa que fez quando éramos adolescentes?
Fingi pensar.
— Fiz várias.
— A principal.
Sorri.
— Lembro.
Ela esperou.
— Eu disse que, se um dia você fosse minha... viveria todas as emoções que a vida pudesse oferecer.
Ela assentiu lentamente.
— E continua querendo cumprir?
Olhei para ela como se a resposta fosse óbvia.
— Todos os dias.
Ela sorriu daquele jeito que fazia qualquer missão parecer pequena.
— Então acho que estamos indo muito bem.
— Estamos só começando, Pimentinha.
Ela aproximou o rosto da câmera.
— Boa noite, Noah.
— Boa noite, meu amor.
Nenhum de nós desligou.
Ficamos ali, apenas olhando um para o outro.
Como se mais alguns segundos fossem suficientes para diminuir um oceano inteiro.
Até que ela sorriu pela última vez.
E a tela escureceu.
Continuei segurando o celular por alguns instantes.
Sorri sozinho.
O mundo talvez ganhasse uma médica extraordinária.
E eu...
Eu tinha o privilégio de amar a mulher que ela estava se tornando.
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Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
