Capítulo 36 - Promessas que atravessam oceanos

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Por Noah Cooper

O símbolo estampado no envelope fez o tempo parar.

Eu conhecia aquele emblema.

Não porque fizesse parte do meu mundo, mas por fazer parte do dela. Desde sempre.

— Médicos Sem Fronteiras... — murmurei, sem tirar os olhos da tela.

Nina baixou o olhar por um instante e sorriu daquele jeito tímido que sempre aparecia quando não sabia como esconder a própria emoção.

— É.

O silêncio se instalou entre nós. Curiosamente, não era um silêncio ruim. Era daqueles que carregam o peso de uma vida inteira.

— Eles responderam? — perguntei.

Ela assentiu.

— Passei para a próxima etapa do processo.

Fechei os olhos por um segundo. Meu peito apertou. Não de tristeza. De orgulho. Quando voltei a encará-la, vi a menina que, anos atrás, me contou que queria ser médica não para ter um consultório bonito, mas porque sonhava cuidar de pessoas que ninguém enxergava. Ela continuava exatamente a mesma. Só havia crescido.

— Você conseguiu, Pimentinha...

Ela balançou a cabeça.

— Ainda não. Ainda falta muito.

Sorri.

— Não. Você já conseguiu.

Ela franziu a testa.

— O quê?

— Permanecer fiel ao sonho daquela garota de quinze anos.

Os olhos dela começaram a marejar.

— Você lembra?

Soltei uma risada baixa.

— Eu lembro de tudo que diz respeito a você.

Ela abaixou a cabeça para esconder o sorriso. Por alguns segundos, apenas nos observamos através da tela. Como era injusto amar alguém daquele jeito e não poder diminuir a distância com um simples abraço.

— Confesso que fiquei com medo de te contar — disse ela.

— Medo de mim?

— Medo da sua reação.

Inclinei a cabeça.

— Por quê?

Ela respirou fundo.

— Porque, se tudo der certo... eu posso passar meses fora. Talvez mais.

Assenti devagar.

— Eu sei.

— E você não está bravo?

A pergunta me fez sorrir.

— Bravo?

— Achei que você pudesse pensar que eu estava escolhendo isso... em vez da nossa vida.

Balancei a cabeça imediatamente.

— Nina, olha para mim.

Ela ergueu os olhos.

— Eu me apaixonei justamente porque você era essa mulher.

Ela permaneceu em silêncio.

— Você nunca sonhou pequeno. Nunca quis uma vida confortável só para dizer que venceu. Você queria fazer diferença.

Sorri com orgulho.

— E conseguiu.

Ela limpou discretamente uma lágrima.

— Ainda nem comecei.

— Começou no dia em que decidiu dedicar sua vida aos outros.

Passei a mão pelos cabelos.

— Eu passei anos aprendendo a proteger pessoas usando um fuzil.

Sorri.

— Você escolheu protegê-las usando um jaleco.

Ela riu entre as lágrimas.

— Acho que o seu trabalho é um pouquinho mais perigoso.

— Discordo.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Eu enfrento homens armados. Você enfrentará fome, guerras, epidemias e ainda precisará continuar acreditando na humanidade.

Fiquei alguns segundos observando seu rosto.

— Se existe alguém que nasceu para vestir aquele colete...

Apontei para o envelope.

— É você.

Ela levou a mão à boca.

— Noah...

— Eu nunca senti tanto orgulho de alguém.

Ela chorou em silêncio. E doeu não poder estar ali para enxugar cada lágrima.

— Promete uma coisa? — ela perguntou.

— Quantas você quiser.

— Se eu for...

— Quando você for.

Ela sorriu.

— Se eu for... não deixa a distância fazer a gente esquecer quem somos.

Balancei a cabeça.

— A distância já tentou separar a gente uma vez.

Sorri de canto.

— E falhou miseravelmente.

Ela riu.

Aquele riso...

Meu lugar favorito no mundo.

A conversa ficou mais leve.

Relembramos histórias da infância, as férias em Hamptons, as implicâncias da Olie, as broncas do tio Edu.

Em determinado momento, ela apoiou o queixo nas mãos e me encarou.

— Você lembra da promessa que fez quando éramos adolescentes?

Fingi pensar.

— Fiz várias.

— A principal.

Sorri.

— Lembro.

Ela esperou.

— Eu disse que, se um dia você fosse minha... viveria todas as emoções que a vida pudesse oferecer.

Ela assentiu lentamente.

— E continua querendo cumprir?

Olhei para ela como se a resposta fosse óbvia.

— Todos os dias.

Ela sorriu daquele jeito que fazia qualquer missão parecer pequena.

— Então acho que estamos indo muito bem.

— Estamos só começando, Pimentinha.

Ela aproximou o rosto da câmera.

— Boa noite, Noah.

— Boa noite, meu amor.

Nenhum de nós desligou.

Ficamos ali, apenas olhando um para o outro.

Como se mais alguns segundos fossem suficientes para diminuir um oceano inteiro.

Até que ela sorriu pela última vez.

E a tela escureceu.

Continuei segurando o celular por alguns instantes.

Sorri sozinho.

O mundo talvez ganhasse uma médica extraordinária.

E eu...

Eu tinha o privilégio de amar a mulher que ela estava se tornando.

Meu lugar ao SolHistórias para pegar e não largar. Descubra agora