Por Nina Carvalho
Dizem que o tempo cura tudo.
Mentira.
O tempo não cura. Ele ensina. Ensina a respirar quando o peito parece pequeno demais para tanta saudade. Ensina que algumas pessoas nunca serão nossas, por mais que o destino insista em cruzar nossos caminhos. E, principalmente, ensina que seguir em frente também é uma escolha.
Foi isso que aprendi.
Depois do casamento de Celeste e Edu, a vida simplesmente continuou.
Como sempre, continua.
Os dias passaram a ser medidos entre aulas, provas, plantões e cafés que invariavelmente esfriava sobre a mesa antes que eu me lembrasse de tomá-los. Columbia exigia tudo de mim. Cada segundo, cada gota de energia, cada pedaço da mulher que eu estava me tornando.
E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me assustava.
Pelo contrário.
Eu gostava da sensação de chegar ao fim do dia completamente exausta, sabendo que estava cada vez mais perto do sonho que carregava desde menina.
Queria fazer parte dos Médicos Sem Fronteiras.
Queria estar onde as pessoas mais precisassem.
Queria salvar vidas.
Talvez porque, durante muito tempo, eu tivesse esperado que alguém salvasse a minha.
...
Na primeira vez em que acompanhei uma cirurgia inteira, minhas pernas tremiam.
Não de medo.
De responsabilidade.
Segurei a mão de uma senhora na sala de preparo enquanto ela chorava baixinho.
- Vai dar tudo certo? - ela perguntou.
Sorri, mesmo sem ter todas as respostas.
- Vai ter uma equipe inteira cuidando da senhora. E eu prometo que vou estar aqui quando a senhora acordar.
Ela apertou minha mão com força.
Naquele instante, compreendi que Medicina nunca foi apenas sobre diagnósticos.
Era sobre pessoas.
Sobre esperança.
Sobre ser o ponto de apoio de alguém quando tudo parecia desmoronar.
Saí do hospital naquela noite completamente diferente da garota que havia entrado horas antes.
Eu estava crescendo.
Finalmente.
...
Enquanto minha vida ganhava novos contornos, a de Celeste e Edu parecia ter encontrado o capítulo mais bonito de todos.
A notícia da gravidez transformou a casa.
Edu entrou em estado permanente de ansiedade.
Comprava roupas que serviriam apenas meses depois.
Montava o berço três vezes porque dizia que sempre encontrava algum parafuso sobrando.
Dormia abraçado a um livro chamado Como sobreviver ao primeiro ano do bebê.
- Você sabe que ele ainda nem nasceu, né? - Alex debochava.
- Justamente por isso estou me preparando.
- Você parece mais desesperado que a Celeste.
- Claro que estou! Ela já nasce sabendo ser mãe. Eu nunca fui pai.
Celeste ria tanto que às vezes precisava sentar.
Nunca a vi tão feliz.
E nunca vi Edu amar alguém daquela maneira.
Quando Theo resolveu chegar ao mundo numa madrugada chuvosa de novembro, parecia que todos esqueceram como respirar.
Eu estava no hospital quando ouvi o primeiro choro.
Foi impossível conter as lágrimas.
Edu segurava o filho nos braços como quem carregava o universo inteiro.
Os olhos vermelhos denunciavam que ele havia chorado muito antes de qualquer um entrar no quarto.
- Ele é perfeito... - disse com a voz embargada.
Celeste sorriu, cansada.
- Parece com você.
- Ainda bem.
- Ainda bem nada. Espero que herde minha paciência.
- Então estamos perdidos.
O quarto explodiu em risadas.
Theo era pequeno.
Frágil.
Mas parecia ter chegado trazendo luz para todos nós.
...
O tempo acelerou.
Quando percebi, Theo já balbuciava as primeiras palavras, distribuía sorrisos sem economizar e fazia da casa seu grande parque de diversões.
Alex jurava que não gostava de crianças.
Até Theo agarrar seu dedo pela primeira vez.
Desde então, bastava o menino estender os bracinhos que Alex abandonava qualquer pose de durão.
Olivia não perdia uma oportunidade de mimá-lo.
Ethan dizia que ela seria uma mãe maravilhosa um dia.
Ela fingia não ouvir.
Mas o sorriso denunciava tudo.
Era bonito vê-los juntos.
Leves.
Felizes.
E eu descobri que também podia ser feliz observando a felicidade das pessoas que amava.
Mesmo que minha própria história ainda parecesse incompleta.
...
O primeiro aniversário de Theo chegou quase sem aviso.
Celeste organizou uma festa simples no jardim.
Balões azuis e brancos dançavam com o vento.
Havia música baixa, crianças correndo pelo gramado e o cheiro do churrasco que Edu insistia em comandar pessoalmente.
Era uma daquelas tardes que aqueciam a alma.
Eu estava sentada na grama tentando convencer Theo a caminhar até mim.
- Vem, meu amor... mais um passinho...
Ele riu.
Deu dois passos completamente tortos.
E caiu sentado.
Começou a bater palminhas como se tivesse acabado de vencer uma maratona.
Ri junto.
- Isso! Muito bem!
Peguei-o no colo e enchi seu rosto de beijos.
Ele gargalhava sem parar.
- Acho que ele gosta mais de você do que da própria madrinha - Olivia reclamou.
- Impossível. Ele tem bom gosto.
- Ah, então você admite?
- Sempre.
Todos riram.
Foi então que a campainha tocou.
- Devem ser eles. - comentou Celeste.
Edu caminhou até o portão.
Continuei brincando com Theo.
Nem me dei ao trabalho de olhar.
Até ouvir uma voz que meu coração reconheceria em qualquer lugar do mundo.
- Desculpem o atraso.
Meu sorriso desapareceu.
Levantei os olhos devagar.
Lá estava Noah.
Mais alto.
Mais maduro.
Ainda absurdamente bonito.
Mas não estava sozinho.
Uma mulher segurava sua mão.
Ela sorria para Celeste enquanto cumprimentava todos com naturalidade.
Meu peito apertou.
Por um instante.
Só por um instante.
Respirei fundo.
A dor ainda existia.
Mas já não me dominava.
Theo puxou meu cabelo, chamando minha atenção.
Olhei para ele e sorri novamente.
Quando voltei a encarar Noah...
Ele continuava olhando para mim.
Não para a festa.
Não para Theo.
Nem para ninguém.
Para mim.
Seu sorriso havia desaparecido.
Como se procurasse alguma coisa que já não encontrava.
Sustentei seu olhar por alguns segundos.
Depois sorri com gentileza.
Um sorriso tranquilo.
Sem expectativa.
Sem perguntas.
Sem a esperança que, durante tantos anos, eu carreguei comigo.
Desviei os olhos.
Voltei toda a minha atenção para Theo.
Porque, pela primeira vez desde que Noah Cooper entrou na minha vida...
Eu não estava esperando que ele me escolhesse.
E talvez tenha sido exatamente naquele instante...
Que ele percebeu o que estava prestes a perder.
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Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
