dont go...

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-Acabou! Foi isso que aconteceu- eu gritava chorando olhando aquele envelope maldito

-Não é tão ruim... Não exagera Elizabeth- Ele parecia não ligar pra gravidade da situação, como assim não exagera? Será que ele tem dimensão do que isso quer dizer?

Desde que eu vivo como modelo percebi que o meu corpo é minha fonte de renda, é minha ferramenta de trabalho, eu preciso deixar ele impecável sempre e uma gravidez ia destruir tudo. Eu estava perdida agora.

Fora isso eu não tenho a menor chance de cuidar disso agora, eu tenho 17 anos! Eu não posso e nem sei criar um filho, manter um ser humano vivo é coisa demais pra minha cabeça adolescente.

-Esse exame é o mesmo que declarar nossa falência! Falimos!- Eu continuava gritando e continuaria até que entrasse na cabeça dura dele.

-Você quis dizer a sua falência!- Falou com o indicador a frente do meu rosto

-Vai contar? É simples! "bem acabei engravidando uma garota... foi mal mídia..." Não vai destruir a minha carreira, vai destruir as nossas carreiras no mesmo nível!- Eu não conseguia parar de chorar enquanto o outro só revirava os olhos e ria.- Ir embora? é isso que vai fazer?

-Tanto faz...- como? tanto faz?

-É a única coisa que eu te imploro... Não vai embora, eu não só quero você aqui, eu preciso de você aqui...- eu repetia enquanto me agarrava ao seu corpo com todas as minhas forças.

-Lisa? Lisa!- Ouvi me chamando enquanto me balançava. Graças a Deus foi um pesadelo, estavamos juntos ainda, abraçados e sem uma gravidez...-Quem não quer que vá embora?- perguntou rindo

-Você...- murmurei enquanto o abraçava com mais força.

-Não vou embora... prometo- falou com as mãos em meus cabelos- Foi só um pesadelo, nada demais...

Não foi só mais um, certamente foi o pior. Por mais que seja horrível, consegui perceber como eu estou apegada a ele agora, eu nem sei dizer como seria a minha vida sem ele comigo e pra ser verdadeira eu nem quero pensar nisso, só a hipótese me assusta...

_________

Nessa manhã eu matei a saudade de algo que nem imaginei que faria tanta falta: o café de Rose. Ele era delicioso e nem sei como consegui viver sem ele por um mês.

Passamos o resto da manhã terminando de arrumar as malas, era nosso último dia em Ripley, decidimos passar a virada do ano em Londres com nossos amigos de lá, e com os amigos de cá...

Nós pensamos em chamar os meninos para ir pra Londres, eles iam amar com certeza e eu estava animadíssima pra que eles vissem nossa casa, queria que participassem o máximo possível da nossa vida juntos...

-Eu espero que não se incomodem com viagens de trem...- falei mexendo na mala e procurando os tickets

-Se eu tivesse pra onde ir não me importava mesmo...- Peter disse enquanto a sinuosa fumaça escapava por seus lábios

-Bem... vocês tem pra onde ir- falei entregando os papéis amarelados aos dois.

-Brincadeira não é?- Stuart dizia claramente animado

-Claro que não!- exclamei- A não ser que não queiram vir e eu tenha que dar um jeito de devolver o que gastei com eles...

É óbvio que eles aceitaram. Íamos pra Londres juntos!

_________

Era próximo das 22:00 horas e nossos "convidados" começaram a chegar, lotados de garrafas de vinho e cervejas.

Peter e Stu ajudaram bastante com a organização do nosso sempre muito bem arrumado (ou não) apartamento.

-Esses são Peter e Stuart- falei enquanto apontava para a dupla sentada no sofá- Bem, esses são Chris, Jim, Paul e Keith.

Não demorou muito até que todos parecessem melhores amigos de infância, talvez o álcool tenha ajudado um pouco com isso.

Keith e Chris riam tanto com Peter que eu acreditaria se falassem que se conheciam a anos, Paul e Stu conversavam sobre alguma coisa extremamente interessante (pra eles) e estavam se dando bem até além do que eu imaginei, e Jim? Por algum motivo estava muito esquisito pra falar a verdade, eu não sei se é coisa da minha cabeça ou se todas as minhas impressões de que ele me observava como um cão olha uma vitrine de açougue estavam certas.

Duas horas se passaram e enfim a contagem regressiva, 5, 4, 3, 2, 1 e...

Barulho total, luzes piscando, pessoas gritando e abraços e beijos por todos os lados, afinal, era 1964!

Nosso apartamento era tão barulhento que eu realmente temi que fôssemos expulsos na manhã seguinte. Por mais que a maioria dos vizinhos estivessem viajando e o prédio estivesse quase completamente vazio o rabugento do Philip, o síndico, não saiu de casa como um velho normal faria.

Bebemos além da conta e não pensamos no que podia acontecer...

-Pausa! As garrafas acabaram!- Chris gritou dramático

-E agora? A gente fica sem ou compra mais?- Stuart perguntou

-A gente nunca fica sem...

-Mas hoje vai ficar, o mercado da frente ja fechou a tempo e o único aberto a essa hora nessa data é no centro...- Eric falava enquanto se jogava no sofá

-Então vamos ao centro!- Peter e Keith falavam ao mesmo tempo.

E foram, todos menos Jim que preferiu ficar, assim como eu.

-Eu estou completamente esgotada...- Falei sem forças apoiando minha cabeça em seu ombro

-Beber só vinho por uma noite é mais cansativo que parece não é?-Disse rindo e me envolvendo em um abraço

-Com toda certeza...- Eu tinha aproveitado todo o vinho pra mim, eu detesto cerveja...- Talvez hoje eu tenha exagerado um pouco...

-Acho que não... só se enganou porque é doce e nem percebe que está bebendo no meio do caminho...

-Eric sempre diz que me aproveito da doçura do vinho pra dizer isso depois...

-As vezes eu me pergunto seriamente por quê alguém tão incrível como você está com ele...- pera aí, que?

-Onde quer chegar com isso?

-Lisa, você é bonita, é inteligente, talentosa...- Tinha uma placa sobre sua cabeça escrito "modo flerte"? Tinha, mas não ia funcionar, Jim era só um cabelo macio e um par de olhos bonitos.

Um par de olhos muito bonitos que se aproximavam cada vez mais do meu até que fugir deles fosse impossível e o amargo da cerveja se unisse com o adocicado do vinho em uma triste, lenta e infernal dança. Uma dança que por mais que sicronizada, tinha passos errados e que não deviam estar acontecendo.

Eu sei que errei, mas eu estava quase que comandada pelo álcool que corria em minhas veias, na manhã seguinte o arrependimento estaria batendo na minha porta e eu ia ter que atender, por mais doído que fosse.








It's going wrongOnde histórias criam vida. Descubra agora