Party

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Dividimos uma única toalha grande que estava na mochila que preparou para nossa primeira noite na casa quase que vazia.

-Por que uma toalha só se somos dois?- Perguntei revirando a bolsa preta me negando a acreditar que fez aquilo.

-Precisava de uma bolsa pequena, se você visse malas ia desconfiar...- Respondeu baixo e pescando uma escova de dentes no meio da bagunça- Então eu peguei a mochila com o básico e necessário.

-O básico necessário seriam duas toalhas e pelo menos uma peça de roupa que seja minha!- Falei percebendo que nada ali dentro era meu.

-Como pelo menos uma? Tem várias...- Disse me olhando através do espelho.

-Essa calça não é minha, essa camisa também não, essa meia? Não, outra calça que não é minha...- Eu estava rindo de desespero, não tinha nenhuma roupa que eu pudesse vestir e era tarde demais pra ir lá buscar.

-Pode dormir com isso...- Falou abrindo uma camisa laranja muito maior que eu, ia ser confortável...

-And?- Perguntei pensando no fato de que nenhuma daquelas calças iam servir em mim, e mesmo que servissem iam ser extremamente desconfortáveis.

-Panties?- Respondeu erguendo as sobrancelhas como se aquela fosse a resposta mais óbvia a ser dada- Are you blushing? Why are you so shy with me?- Completou rindo e beijando minha bochecha avermelhada.

Era uma boa pergunta, aquilo não era nada de anormal, mas por algum motivo eu não me sentia em casa o suficiente, aquela casa gigantesca e vazia não parecia ser minha, era como se eu estivesse visitando uma tia milionária, e eu não me vestiria assim na casa de uma tia milionária...

Bem, eu não tinha outra escolha, e não era tão ruim de qualquer modo.

-Meu Deus!- Gritei assim que abrimos a porta do quarto e vi o outro correndo e pulando na cama gigantesca, fiz o mesmo pouco depois, era tão maior que a nossa antiga e tão macia...

Ficamos nessa brincadeira extremamente infantil de bagunçar os lençóis e pular no colchão por uns bons minutos, quando parei onde sempre acabo parando: Sobre o corpo do mais velho, olhando seus olhos brilhantes e sorrindo como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, podíamos fazer isso por horas, sem dizer uma única palavra, nos comunicavamos sem emitir nenhum som, era mágico.

Demorei tanto a dormir que nem sei ao certo quantos minutos fiquei nessa angústia de tentar e mesmo assim não conseguir, um certo cenário agarrou meus olhos e eu não conseguia parar de observar e imaginar, a grande janela que mostrava a imensidão da noite estrelada ao mesmo tempo refletia a luz suave do abajur aceso ao meu lado, naquele vidro reluzente estava perfeitamente pintada nossa imagem, de como a vida realmente é, e eu espero que não pare de ser, juntos, abraçados, com as mãos unidas e só, era uma visão encantadora...

_________

Eu estava sentada sobre o balcão frio da cozinha gigantesca, coçando os olhos e bocejando terrívelmente, acordamos cedo até demais porque alguém (podem ter certeza que não fui eu) decidiu que uma 'festa' seria uma boa idéia, a casa estava vazia o que ia facilitar em lotar ela de pessoas.

-Richards, Jagger, talvez Pete...- Dizia colocando o café fervendo nas canecas.

-Qual Pete?- Perguntei já assustada depois dos nomes que me foram citados.

-Townshend, achei que fosse óbvio...- É claro que é óbvio, vou receber dois dos Stones e um do The Who na minha casa, acontece todos os dias não é?- Ah Brian Jones, Hendrix também não é uma má idéia, e precisamos chamar os quatro? George e John pra mim são o suficiente mas se quiser...

-Quer convidar todo tipo de celebridade pra nossa casa? Esse é o plano?- Eu estava tremendo só com a idéia de lidar com essas pessoas- Que tal algo mais simples? Eu, você, Jack, Ginger...

-Se acalma Lizzie... São nossos amigos de qualquer modo...- Tentou me tranquilizar enquanto abraçava meu corpo.

Ia ser um dia comprido, mas não tinha mais como contestar, os convites já tinham sido feitos...

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-Lisa se acalma! São pessoas normais, eles não vão te morder eu prometo...- Pattie dizia rindo enquanto amarrava as costas do vestido que eu peguei correndo no apartamento.

-Pessoas normais que são os Stones! Se pra você é normal receber celebridades em casa saiba que pra mim que não é!- Eu gritava andando de um lado para o outro como louca.

-Mas devia ser, mora com uma Lisa- Falou sorrindo e me puxando em um abraço- Eu te prometo que não precisa de pânico, eles são pessoas maravilhosas Elisabeth, são talentosos, são divertidos e extremamente simpáticos, vai amar eles e sei que eles vão te amar.

-Acontece que eu não sei como receber pessoas, eu estou fritando de vergonha e sabe que eu gaguejo quando fico nervosa...-Eu murmurava quase chorando com o rosto enfiado nos cabelos loiros da mais alta que apenas ria da minha desgraça.

-Lisa, tenho certeza que vai ser uma anfitriã ótima, está linda com esse vestido, e o resto é só ser você, sem desespero...- Respondeu deixando um beijo em minha bochecha e me puxando pela porta.

Descemos as escadas como se eu fosse uma criança assustada, eu apertava tanto a mão de Pattie que não sei como seus dedos não ficaram roxos por falta de circulação, eu estava descontando todo o meu nervosismo nela, e eu não sei como ela conseguia ser tão doce e calma comigo.

A primeira coisa quando chegamos na ampla sala de estar foi algo que eu nunca imaginei em ver: John Lennon e Keith Richards riam sentados no sofá de couro, Brian Jones estava por lá também, falando com todo mundo e rindo alto. Meus olhos tentaram encontrar alguém mais próximo, talvez Jim ou Ginger já estivessem por lá, mas infelizmente não encontrei nenhum dos dois, talvez chegassem mais tarde.

Ondas de arrepios passavam pelo meu corpo, meu coração batia rápido e era como se fosse escapar pela boca a qualquer momento, eu sentia as minhas bochechas queimarem e só queria voltar correndo para o andar de cima, entrar no closet e não sair nunca mais.

Enquanto eu morria desviando o olhar, Pattie estava mais que à vontade ali, acenava, sorria e em algum momento me arrastou até George e Paul em um canto da sala.

-Oh hi dear!- Geo dizia passando o braço direito pela minha cintura- Are you with the drum heart again?

-Eu acho que ele não vai embora nem tão cedo...-Falei encostando em seu ombro, me sentia muito melhor com eles do que com o resto das pessoas naquele lugar.

Daí pra frente as coisas seguiram um pouco melhores, não porquê eu fiquei calma sozinha, mas eu fico muito mais simpática quando tem uma quantidade considerável de álcool correndo nas minhas veias.

Como deve imaginar no meio da noite todos naquele lugar já estavam completamente loucos, de qualquer tipo de coisa que possa imaginar, esse 'evento' se estendeu por horas e horas, entrando pela madrugada e começando a sair pela manhã, minha maquiagem escorrida, meus cabelos embolados e minhas olheiras gritando, mas nem uma gota de cansaço, eu tive ajuda nisso mas melhor não comentar sobre, afinal todo mundo ali teve a mesma fonte de energia...

It's going wrongOnde histórias criam vida. Descubra agora