Os minutos pareciam não passar nunca, e nada de Jim entrar por aquela maldita porta.
Já tínhamos terminado com tudo, separamos garrafas de suco, sanduíches, biscoitos e qualquer coisa que estivesse no nosso armário, procuramos uma bolsa qualquer e então percebemos que não tínhamos uma toalha, quem tem toalhas de piquenique em casa?
E então batidas foram ouvidas, eu ainda estava morta de vergonha de falar com ele, mas estava com tanta saudade que é como se essa uma semana fosse um mês.
Saí correndo da cozinha até a porta de entrada, virando as chaves como se a coisa mais preciosa do universo me esperasse do outro lado da madeira escura.
-Jim!- Gritei enquanto pulava em um abraço que fez o outro cambalear- Senti saudade sabia?
-Eu também Liss...- Respondeu rindo e apoiando as sacolas no chão- Trouxe geléia de morango- Sussurrou em meu ouvido.
Eu amo geléia de morango, nem sei como ele se lembra disso, também não me lembro de ter falado...
Passamos mais algum tempo em casa terminando de montar incontáveis pãezinhos com geléia de todos os sabores possíveis e pensando em como levar os bolos sem que se destruíssem no caminho.
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-Não vai oferecer balinhas?- Perguntei sabendo que a resposta era não.
-Talvez elas tenham acabado...- Respondeu em tom baixo- Mas acabaram porque alguém pegou mais do que devia da última vez!
-Você não disse que tinha limite...
-Precisava levar todas?-Perguntou rindo
-São balas de hortelã! Elas são deliciosas...
Passamos o resto do caminho falando sobre as balas que sabíamos que não iam durar mais de um mês naquele carro, quem compra balas todo mês e deixa derretendo no porta luvas?
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-Consegue ver um pato naquela?- O mais velho perguntava apontando para uma das nuvens brancas e fofinhas no céu azul.
-Pra mim é uma chupeta...
-Nem parece uma chupeta Liss! Ali é a cabeça, o resto do corpo e o rabinho, claramente é um patinho de borracha.
-A cabeça do seu pato é o bico da minha chupeta, não consegue ver?- Perguntei apontando e tentando explicar o que eu via.
-Ainda não... Ali! Consegue ver uma boca?- Falou apontando para outra nuvem.
-Não... Mas do lado tem um urso!
Passamos algum tempo assim, deitados na grama olhando as nuvens e pensando em que formato elas tinham, objetos, animais, ou qualquer outra coisa que formassem... Era o momento perfeito, era como se uma bolha se formasse ao nosso redor e nada que estava fora dela importava, não importava que os outros estivessem olhando, não importava o barulho de crianças gritando, dentro da nossa cúpula tudo era maravilhoso.
-Então... Querem sorvete?- Pobre Jim, estávamos tão focados que quase esquecemos sua presença.
-Sim!- O outro respondeu por mim enquanto olhava para Jim como se implorasse para que fosse embora e nos deixasse ali sozinhos.
-Eu volto logo...- Falou se levantando e indo em direção ao carrinho de sorvete.
De volta sozinhos e nossa cúpula se fecha mais uma vez.
-Já disse que te amo hoje?- Perguntou deixando (mais um) beijo em minha bochecha.
-Algumas vezes- Respondi rindo- Só não reclamo porque também te amo...
-Que bonitinhos...- A voz de Chris surge por trás da grande árvore em que estávamos acomodados.
-Não estava 'atolado de coisas pra fazer hoje'?- Perguntei em uma tentativa falha de imitar sua voz.
-Falou certo: Eu estava, agora não estou mais e vim- Respondeu se sentando e pegando uma fatia de um dos bolos que levamos.
Jim estava levando muito mais tempo que o normal ou necessário pra se comprar três sorvetes, então eu decidi ir atrás e conseguir um por minha conta.
Vamos dizer que ele se perdeu no caminho e acabou sentado em um banco qualquer abraçado com uma menina ruiva que eu preferia não ter reconhecido: Daisy denovo.
Aquilo me chocou de uma forma muito estranha, eu diria que até exagerada, não era como se eu estivesse me sentindo traída, era como se eu visse meu irmão mais novo naquela situação.
Por alguma razão eu estava a ponto de explodir com aquilo, não era exatamente raiva, mas também não era tristeza ou decepção... Era mais complexo e dolorido que aquilo.
Voltei correndo ao nosso 'ponto de encontro' comecei a guardar nossas coisas em sacolas.
-Eu só preciso colocar isso no carro, se deixarmos aqui vão lotar de formigas e eu não acho que vai ser uma boa...- Essa foi a melhor desculpa que eu encontrei.
-Quer ajuda?- Chris perguntou enquanto fechava um dos potinhos de geléia.
-Não precisa... Eu consigo levar, só preciso conseguir a chave. Jim se perdeu no caminho até o carrinho de sorvete- Expliquei rolando os olhos e me virando.
"Agora se acalma, respira fundo, vai até lá e só pede a chave" pensei inúmeras vezes no curto caminho até o banco onde os dois estavam.
-Desculpa atrapalhar, eu preciso da chave do carro Jim- Falei tentando evitar contato visual com a demônia.
-Pra que?- Perguntou, parecia tão calmo e bem consigo mesmo.
-Guardar as coisas, se deixarmos lá vão ficar cheias de formigas em instantes.
-Estão juntos denovo?- A voz irritante de Daisy se faz presente, mas que garota chata com perguntas óbvias.
-Não importa...- Falei ficando levemente mais irritada.
-Se você diz- Falou dando de ombros e encostando sua cabeça no ombro do outro, óbvio que era de propósito.
-Quer que eu vá com você?- Jim perguntou se levantando
-Não precisa, eu só quero a chave, já volto pra devolver- Falei rápido- Não quero te atrapalhar.
-Sabe que não atrapalha..- Respondeu me seguindo e deixando para trás Daisy limpando o borrado de seu batom vermelho com um sorriso no rosto.
-O que aconteceu Liss?- Perguntou abrindo a porta e guardando a grande e pesada sacola no banco de trás.
-Nada, eu só vim guardar isso, eu já falei!- Eu ainda estava irritada com a situação.
-Sabe que não temos nada e que não devia estar assim não é?- Era a primeira vez que eu o via com o tom de voz irritado ou rude.
-Sei Jim, e não tem absolutamente nada a ver com aquela garota insuportável!
-Lisa, se você tem seus problemas com Daisy eu não posso fazer nada sobre- Falou segurando meus pulsos- Você só não pode, e não vai, ficar me fazendo sofrer quando já deixou mais que claro que nada vai acontecer entre nós. Não me pediu pra esquecer daquilo? Esqueci, e agora quando eu dou o menor passo possível você fica irritada?
-Não estou irritada com isso! E é ótimo que tenha esquecido, é melhor pra nós dois- Falei com a voz mais alta e segurando o choro- Se está feliz com ela, vai em frente, até porque eu estou mais que feliz onde estou e vou continuar aqui!- Concluí enquanto tentava desprender meus pulsos de suas mãos.
-Isso é um ponto final de algo que nem começou?- Me perguntou irritado e apertando meus pulsos com mais força.
-Sim, é um ponto final de algo que não começou. Agora se me dá licença eu vou voltar pra minha felicidade e você pode voltar pra sua- Eu dizia enquanto ia embora dali.
O que eu acabei de dizer? O que acabou de acontecer? Onde isso ia dar agora? Não importava, tudo que me importava agora era finalizar meu dia feliz como se nada tivesse ocorrido. E foi isso que eu fiz, por mais que esse evento tenha acontecido no meio do caminho, as nuvens em formatos engraçados, beijos e abraços intermináveis eram muito mais interessantes e prazerosos que aquilo.
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It's going wrong
RandomElisabeth é nada além de uma adolescente clássica, loucamente apaixonada pelos Beatles, com seus dezessete anos recém completos, enfrentando uma pandemia, Elisabeth se encontra com a oportunidade dos seus sonhos ao seu alcance, uma volta ao tempo lh...
