It's blues!

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Tinha se passado meia hora desde que entramos por aquela porta, e eu nunca me arrependi tanto na vida.

Aquele disco insuportável estava rodando sobre a vitrola ainda, todas pareciam ser a mesma música, poucas risadas foram sinceras até agora, o cheiro de bebida e maconha no ar era quase insuportável e me faziam querer sumir, eu fui tantas vezes até aquela janela que já decorei a posição das flores no jardim.

-Que foi? Não gostou?- Eric perguntava como se a resposta não fosse óbvia.

-É só cansaço, nada que uma bebida estupidamente gelada não resolva- Respondi forçando um sorriso e me levantando do sofá em que estávamos.

-Tem certeza?- Falou deixando a fumaça sair por meio de seus lábios.

-Claro que sim!- Exclamei deixando um beijo em sua bochecha e correndo até o balcão com as bebidas, ele estava se divertindo demais pra eu estragar tudo com meu mal humor.

Chegando lá, copo em mãos, várias pedras de gelo dentro e meus olhos tentaram avistar alguma garrafa que eu conhecesse, mas infelizmente não encontraram nada além de vodkas baratas e outras coisas que eram puro álcool sem sabor nenhum.

Joguei os cotovelos sobre a banca e deixei minha cabeça encontrar meus dedos frios, longos bocejos ainda insistiam em sair da minha boca, meus olhos lacrimejavam sem parar pelo cansaço e com isso meu humor só piorava, tentei respirar fundo e erguer a cabeça diversas vezes, mas algo dentro de mim me fazia querer chorar, eu me sentia completamente alheia, era como se meu corpo fosse uma sacola vazia sem conteúdo algum para mantê-la de pé, eu provavelmente vou desmaiar de sono nas próximas horas.

-Cansada garota de programa?- Eu não vou nem lutar contra, eu não tenho mais forças pra isso.

-Isso importa pra você?- Perguntei sem olhar em seu rosto e pegando a primeira garrafa que eu visse pela frente, eu só queria ir embora dali.

-Eu só estou te oferecendo ajuda...- Falou abrindo uma das gavetas, dentro dela alguns pequenos pacotes estavam misturados no resto das coisas- Te ajuda em dois minutos e fim desse problema.

-Tem alguma coisa dentro da sua cabeça agora?- Não era possível que estivesse me dando aquela sugestão estúpida- Eu não vou usar isso...

-Por que não? Prefere sofrer com isso aí?- Disse erguendo a sobrancelha e apontando para mim.

-Sim, se não tem nenhuma idéia melhor que cocaína eu prefiro sofrer uma vez do que entrar em alguma coisa que não sei se vou sair depois- Ainda tem neurônios dentro dessa cabeça.

-Cocaína é um nome forte demais, melhor chamar de 'alívio quase instantânea'- Ele ria como se eu ter negado fosse a coisa mais estúpida possível- E se não gostar é só não repetir.

-Quem te garante que esse não é o momento em que eu prefiro não repetir?- Era? Não, mas ele não sabe de qualquer maneira.

-É de se esperar, vindo de alguém que trabalha tanto...- Respondeu rolando os olhos.

Essa era minha deixa para ir embora, ele realmente acredita na própria idéia idiota de que eu ganho dinheiro com isso? De qualquer forma, o único lugar que eu quero ouvir sua voz é quando canta, fora disso cada coisa que saí daquela boca é pura estupidez.

Saí calmamente daquele lugar, sem ao menos olhar para trás, passar um tempo na varanda sozinha seria a melhor coisa agora.

Seria caso alguém não tivesse pensado nisso antes, Ginger provavelmente teve o mesmo pensamento, só que mais cedo.

-Jack é insuportável!- Gritei assim que abri a porta enquanto me jogava ao seu lado no pequeno banco de madeira um tanto úmido pelo sereno.

-Diz isso e só está com ele a uma hora, tive que aguentar isso por duas semanas- Ele ria trincando os olhos e tragando seu cigarro com um prazer inexplicável- Que ele te fez agora?

-Tirando o assunto da garota de programa? Acabou de tentar me fazer usar cocaína, mas nada demais...

-E conseguiu?- Perguntou com mais uma tragada.

-Claro que não! Eu ainda penso sabia?- Eu realmente não sei o que esse povo pensa que eu sou.

-Pode pensar e fazer isso ao mesmo tempo- Disse rindo deixando o final de um cigarro queimado desaparecer na grama alta- Pode ser sincera comigo Lisa, não queria vir não é?

-Não... Mas não queria negar- Eu não sei negar as coisas, não consigo simplesmente dizer não pra um convite, e se consigo fico me sentindo mal durante semanas e mais semanas...

-Eu também não- Respondeu com um sorriso- Pra ser verdadeiro, acho que ninguém queria. Mas estamos aqui agora, o que podemos fazer a não ser aproveitar a bebida de graça? 

-Esse é seu incrível conselho?- Um sorriso sincero apareceu em meus lábios depois de uma hora forçando vários.

-Exatamente- Falou me puxando pela mão e abrindo a porta. 

Aqueles cinco minutos com o vento em meu rosto e uma conversa tranquila fizeram minha noite, tudo parecia melhor agora.

-Onde foi?- Eric pergunta assim que me sento ao seu lado.

-Lá fora... E tem alguma coisa errada nessa gola- Respondi sem muita atenção tentando resolver o problema na jaqueta branca.

-Por quê?- Ótimo momento pra perguntar coisas idiotas.

-Eu só precisava de ar...- Falei selando nossos lábios, essa era minha tática pra não ter que responder mais nada.

-Já podemos trocar esse disco? Não aguento mais a mesma coisa...- O ruivo enfim disse o que eu queria falar a um bom tempo.

-Não aguenta mais porque é ruim...- Murmurei tentando fazer com que ninguém escutasse, aquilo ia me custar um rim.

-Ruim? Sério?- Jack ouviu, eu não devia ter falado coisa nenhuma.

-Sim- Respondemos juntos, eu tinha alguém do meu lado nessa história.

-Mas é blues!- E?

-Não importa o nome, é ruim e ponto- Puxei coragem do submundo pra dizer isso aqui, mas disse.

-Ainda concorda?- Perguntou olhando o mais alto e apontando para mim, para seu desprazer o outro concorda- Elisabeth ter mal gosto não me admira, mas você? Sério?

-Conseguiu lembrar meu nome?- Perguntei irônica me levantando e indo na direção daquela vitrola dos infernos, eu ia tirar aquele disco dali.

-Nem pensa nisso!- Gritou vendo o que eu estava prestes a fazer.

-Jack... É só música, não é o fim do mundo- Ric tentava acalma-lo vindo em minha direção, mais um na minha defesa.

-Ouviu a idiotice que saiu da boca dela? E ainda consegue defender? Elisabeth nem pense em tocar nesse vinil!- Tarde demais, ja tinha arrancado aquela porcaria do lugar.

Claramente estava com mais ódio que qualquer coisa, eu podia ler em seus olhos a frase 'vou te matar da forma mais lenta e dolorosa possível' escrita em fogo.

-Ótimo, já entendi que não tem intelecto o suficiente para compreender toda a grandeza que a simples e curta palavra 'blues' carrega Elisabeth...- Ele não ia sair desse assunto até me dizer de toda a história por trás e outras coisas que eu ia esquecer no dia seguinte, então eu disse o que qualquer pessoa normal faria...

-Que se foda o blues Jack!- Devia? Não.

Não teve mais tempo de pensar, nós três tivemos tempo o suficiente apenas para correr até o banheiro, onde ficamos trancados por uns bons minutos rindo como hienas dos gritos e ameaças feitas pelo baixista do outro lado da porta, até que desistisse sabendo que ganhamos a discussão e pudéssemos sair (ou melhor dizendo, fugir) pela porta dos fundos.

It's going wrongOnde histórias criam vida. Descubra agora