Acordamos em uma situação deplorável e, diga se de passagem, digna de pena para qualquer um que não soubesse do contexto desses dois descabelados, lotados de olheiras e marcas no corpo (proveniente do veludo lavrado do tapete áspero) jogados no jardim como bêbados indigentes.
E por mais que fosse até dolorido o longo contato com a superfície nada sutil, sair dali tão cedo não fazia parte dos meus planos.
Começávamos a desfrutar do sol que aparecia no céu, depois de uma noite de sono inteira com o frio da noite inglesa nos golpeando, qualquer fonte de calor era bem-vinda.
-Lizzie, time to wake...- O outro anunciava com a voz lenta.
-Just five minutes, mom- Murmurei me aninhando em seus braços sem ao menos abrir os olhos.
-Lisa, não, são oito da manhã- Explicou, se sentando e puxando meu corpo junto do seu.
-Quis dizer que ainda são oito da manhã?- Perguntei bocejando, não queria mesmo ter que sair daquele estranho conforto, estávamos no quintal dos fundos, não atrapalhávamos ninguém estando lá.
-Quis dizer que já são oito da manhã- Disse estalando um beijo em minha testa- Não está em Chelsea, mocinha.
-Nem moramos mais em Chelsea!- Reclamei puxando o cobertor de volta para meu corpo- E não pode dizer que não estamos em Surrey...
-Mas posso dizer que não estamos em casa- Dizia enquanto me tirava dali à força, me carregando casa adentro e me largando em uma das cadeiras da cozinha.
Com essa tragédia, percebi duas coisas que não tinha notado até então, a primeira delas é que ainda não acostumei com a ideia de que Ripley não é minha casa, tem algum tipo de energia que me conecta a essa vila minuscula, algo quase mágico eu diria, não é o tipo de lugar que eu escolheria para viver a minha vida, mas amo a ideia de ter esse lugar como "lar", a segunda coisa que notei é como nossa vida em Hurtwood tem me lotado de maus hábitos, sejam eles em relação à rotina ou alimentares, estar lá é como deixar uma criança sozinha, fazemos o que queremos na hora que queremos, até porquê não estamos sob nenhum tipo de supervisão, primeiro tínhamos Rose ao redor para nos guiar, depois tivemos Margareth que nos aconselhava em tudo necessário, e agora temos árvores, nada além delas.
Voltei ao mundo quando ouvi o estalar da câmera em minha frente, sem nenhum contexto.
-Achei bonita a forma que toma café, valeu à pena- O mais alto explicou, como se lesse minha mente.
-Acho que é quase impossível que alguém 'tome café de uma forma bonita'- Respondi com uma risada nada animada, meu cérebro ainda não despertou por completo.
-Certamente não quando a pessoa em questão é minha digníssima futura esposa- Disse sorrindo, jogando os braços por cima dos meus ombros- Termine este café, Lizzie! Eu tenho um lugar para te mostrar!
-Da última vez que disse isso aqui caímos do pedalinho...- Certamente eu não vou esquecer do frio que passei nesse dia.
-Nada de pedalinhos dessa vez, só por garantia- Murmurou saindo da cozinha.
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Depois de um bom tempo enrolando para finalmente vestir algo decente, conseguimos sair de casa.
Caminhávamos por aí com a maior tranquilidade do mundo, não tínhamos que nos preocupar com nada, afinal estamos em uma cidade minúscula onde poucas pessoas atrapalhariam nosso 'passeio'.
Seguimos por poucos minutos até chegarmos em algo que acredito eu que seja um bosque, tínhamos árvores enormemente altas com copas lotadas de folhas verdes que caíam sem parar, a grama escura com pequenas flores delicadas espalhadas por toda a superfície davam um ar de magia encantador, era como se tivesse acabado de entrar em um conto de fadas, podia praticamente sentir a presença de fadas, duendes ou de qualquer outro ser místico, era lindo.
-Que lindo, Ric! - digo colocando minhas mãos sobre as dele que estão na minha cintura- Por que você nunca me trouxe aqui antes?
-É um lugar muito bonito para eu mostrar a qualquer um ...- Sussurrou, beijando minha bochecha e me abraçando cada vez com mais força.
-E desde quando eu sou "qualquer um '? - eu questiono voltando-me para olhar em seus olhos, e oh Deus aqueles olhos, eles são tão brilhantes, de alguma forma tão profundos, eu amo a olhar neles- Eu pensei que eu sempre fui especial.
-Sem drama, Lizzie, quando te conheci, você era a garota esquisita que eu encontrei caída na calçada- Riu, e eu revirei os olhos, a primeira impressão que teve sobre mim foi "a garota esquisita caída na calçada"?- I used to play a lot here...
-Like?
-Hide and seek, anything with balls, or run like a stupid- Disse se sentando perto de uma árvore-And often, when we got older, put some of the girls into our games just to try to get a kiss.
-How you did it?- Eu pergunto, deitando minha cabeça em seu colo e sentindo suas mãos andando pelo meu cabelo.
-Normally with hide and seek, the girls hide, the boys seek, when they find each other they win a kiss- Explicou, apertando minhas bochechas e selando rapidamente meus lábios.
-E o que você está esperando? - digo, levantando-me e puxando seu corpo- Counting to ten, boy!- Eu digo, correndo em seguida para uma das árvores, com o tamanho daqueles troncos era quase impossível ser vista.
Passei poucos minutos esperando ali até que o som dos galhos quebrando e folhas amassando se tornava mais e mais alto.
-1 2 3, Lizzie!- Gritou correndo de volta até a árvore em que estávamos inicialmente, e fiz o mesmo na tentativa de alcançar o mais velho.
-Isso não é justo!Suas pernas são maiores que as minhas! - Reclamei como uma criança de 7 anos faria.
-Não importa! Eu te encontrei e quero meu prêmio!- Dizia pegando minha cintura e me puxando para perto de seu corpo, e então meu lado competitivo fez presença.
-Eu ganhei!- Berrei batendo na árvore que o outro devia ter feito o mesmo- Quis correr direto ao prêmio, senhor ganancioso, e esqueceu de mostrar que ganhou...
-As regras diziam que eu precisava encontrar você, e não que eu precisava chegar até a árvore e bater nela!- Contestou, fazendo beijos aparecerem em meu pescoço, óbvio que acabei cedendo, afinal, que mal faria?
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It's going wrong
RandomElisabeth é nada além de uma adolescente clássica, loucamente apaixonada pelos Beatles, com seus dezessete anos recém completos, enfrentando uma pandemia, Elisabeth se encontra com a oportunidade dos seus sonhos ao seu alcance, uma volta ao tempo lh...
