Atualizamos nossas Diretrizes de Conteúdo.
Consulte as diretrizes mais recentes para continuar compartilhando histórias com segurança.

Capítulo 28

75 20 3
                                        


Capítulo 28

Fred Toledo

Era uma quarta-feira cinzenta de setembro, o tempo em São Paulo nunca era dos melhores. Bruna havia tido uma hemorragia na noite passada e precisou ser entubada, para passar por uma cirurgia. Eu e Bruninho estávamos em um corredor qualquer do hospital, sentados no chão e em pânico. Minha ex-sogra quem conseguia segurar a barra por nós. Parecia conformada. E isso me deixava furioso. Não poderíamos nos entregar, nos conformar.

Marina chegou no hospital e conseguiu fazer Bruninho comer alguma coisa, mas estava difícil fazê-lo se alimentar direito. Ele estava quebrado emocionalmente.

Quando os médicos deram o caso como irreversível, eu só sabia chorar. Horas depois Jordana chegou com Eduardo, minha mãe, meu pai, o pai de Bruna e tia Nora. Jordana também chorava, como se estivesse revivendo o que passou com o pai, soube que o perdeu para essa doença desgraçada também.

Meu filho estava em choque, sem reação. Como se não tivesse entendido muito bem o que queria dizer quadro irreversível. Eu apertava Marina no abraço, tremia inteiro, em pânico. Era definitivamente o pior momento de toda a minha vida.

Perguntas rodavam minha cabeça, por que com ela? Por que tão rápido? A dor me dominava, se tornando física. O doutor perguntou se não queríamos vê-la, e eu não sabia se aguentaria. Mas Marina retrucou logo, eu iria me arrepender se não fosse. Tânia entrelaçou nossas mãos, do outro lado segurou a do meu filho, que não esboçava reação nenhuma. Estava em choque, era tão claro.

Ficamos horas ali, Bruna estava cansada, debilitada demais. A doença se espalhou mais rápido do que os médicos esperavam, foi muito agressiva e ela não respondeu a nenhum dos tratamentos. Insistir agora, seria apenas fazê-la sofrer ainda mais.

Ela deu algumas instruções para nosso filho, ordens para mim, como pai. Me deixava em desespero. E pedia para que eu não chorasse. Eu não conseguia. Ela falou que nós dois falhamos como casal, porque nunca deveríamos ter sido um. Funcionamos tão bem como amigos nesses últimos meses, que foi uma pena termos perdido tantos anos em pé de guerra.

— Mas pelo menos fizemos o Bruninho — eu falei, soluçando — valeu a pena.

— Valeu, sim — ela falou devagarinho — não fica assim, Fred... Por incrível que pareça, eu estou em paz.

— Não é justo, Bruna, não é justo — eu falei indignado. Ficamos muito tempo com ela ali, uma enfermeira vinha sempre para monitorar a dose da morfina.

Passamos a noite no hospital. Bruna conseguiu dormir, meu filho também. Ficou com ela no quarto, com ela e a avó. Eu fiquei na sala de espera, com Marina. Não dormimos, eu não consegui. Mari ainda deitou a cabeça no meu colo e cochilou um pouco.

Foram dias tortuosos, dilacerantes, amargos, intensivos. O tempo cinzento combinava com nosso sentimento de perda, de luto.

Na sexta-feira, quase nove horas da manhã, ela se foi. Eu não estava no quarto, não conseguiria. Meu filho ficou com ela, segurando sua mão e rezando até o fim. Precisei do colo de minha mãe, que me abraçava apertado, tentando me dar um pouco de conforto.

Bruninho parecia ter entendido tudo isso melhor do que eu, era bizarro. Ele saiu do quarto meio desnorteado, mas não chorou. Estava com o olhar vago, disse estar muito triste. Mas a mãe dele vinha explicando que insistir no tratamento estava sendo muito doloroso, e não estava resolvendo. Se estivesse, se ela estivesse melhorando, lutaria até o fim.

O pai dela cuidou de toda a papelada, tudo que precisaria ser resolvido, a transferência do corpo para o Rio. Eu tomei alguns calmantes, não soube lidar com tudo que estava acontecendo. Mari ficou comigo o tempo todo, estava muito sentida também.

Luísa apareceu no velório, mas sequer olhei na cara dela. Era muito cinismo vir, depois de ter ignorado Bruna por todos esses meses. Bruninho chorou ao ver a mãe ali, ao se dar conta de aconteceu mesmo, de que nós a perdemos.

Eu não sabia como lidaríamos com tudo isso de agora para frente, estava doendo demais. Bruninho quis ir para o apartamento em que morava com a mãe. Eu e Mari o levamos lá. Ele olhou as coisas todas, as fotos deles dois na sala, foi até o quarto dela, olhou o closet. Tanta coisa que ficaria aí.

— O que vamos fazer com tudo isso? — meu filho perguntou e eu embarguei, voltaria a chorar no momento em que dissesse uma palavra.

— Acho que a sua avó vai saber o que fazer — Mari respondeu — você quer ficar aqui?

— Não... não adianta nada — ele falou confuso e suspirou — vou pegar algo de lembrança, só. Aquele colar dela com uma fotinho nossa, vou procurar.

— Quer que eu te ajude? — Mari perguntou.

— Não precisa, podem me esperar aqui — ele falou, indo pelo corredor e eu me sentei, escondi os olhos com uma mão e desatei a chorar.

— Não fica assim, Fred — Mari falou condolente — ela já estava sofrendo muito, descansou...

— Era pra ela ter melhorado — eu solucei, inconformado — meu filho não merecia perdê-la.

— Ele vai guardar só boas lembranças da mãe, vai entender e aceitar. Você precisa ficar bem também.

— Dá raiva, sabe? — eu funguei — a pessoa tem um diagnostico horrível, se enche de esperança, começa um tratamento achando que vai se curar e acontece isso...

— É injusto — ela concordou — mas agora você precisa ser forte, sabe?

— Eu sei...

— Eu vou estar aqui pra você, você sabe — ela falou e eu assenti, me agarrando nela — vai ficar tudo bem — ela falou, afagando meu cabelo e deu um beijo na minha testa.

Bruninho pegou o colar que queria e os álbuns de foto com as últimas viagens dele com a mãe. Ficamos sentados vendo algumas. Ele não resistiu, pegou o álbum de casamento e mostrou para Marina, que não sentia ciúme, não havia nem motivo. Contou para ela a versão que sua avó Tânia contou, de que eu fui forçado, só porque nós o teríamos. Comecei a rir disso, casei literalmente forçado e Bruna pouco se importou. Falei diversas vezes na cara dela que não queria casar e ela fazia pouco caso, me irritava profundamente.

Mari começou a rir, porque em uma das fotos, Bruna desenhou chifres em mim e escreveu em um balão desenhado por ela também: corno. Dei um riso e neguei com a cabeça, éramos tão infantis.

Bruninho pegou o diploma da mãe também, emoldurado no escritório. Bruna se formou em biomedicina, quis se especializar em estética, mas preferiu a vida de madame e deixou pra lá.

Ficamos algum tempo ali, como se reviver lembranças e tirar o peso dos meus desentendimentos com ela, fosse amenizar alguma coisa.

Fomos embora e pedimos comida japonesa para o jantar. Bruninho colocou o escapulário com o pingente com a foto dele e da mãe no pescoço, disse que iria usar pra sempre.

Mari pensou que seria melhor ir embora, mas meu filho insistiu para ela ficar.

— Você não vai ficar com meu pai? — ele perguntou, segurando uma mão dela, que encarou e balançou a cabeça — então fica, a gente precisa de você.

Ela olhou para mim, como se não soubesse o que fazer. Havíamos prometido para Bruna que cuidaríamos de Bruninho juntos, que faríamos o melhor para ele. Que Mari cuidaria dele como se fosse filho dela. O que foi bizarro, Marina nem queria ser mãe. Mas acatou o pedido e prometeu dar o seu melhor.

Quando fomos dormir, Bruninho não queria ficar sozinho, então fomos todos para meu quarto. A cama era enorme, tinha espaço para nós três. E assim dormimos por semanas, até meu filho se sentir seguro para ficar sozinho. Eu entendia a necessidade de companhia, de se sentir acolhido.

O tempo foi amenizando a dor da perda, fomos aprendendo a lembrar com saudade, guardar só a parte boa e esquecer toda a guerra que travamos. Volta e meia eu olhava uma foto dela, desacreditado, havia acontecido essa tragédia mesmo... 

Minha Louca TentaçãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora