Capítulo 18
Marina Marques
Eu estava no quarto de Helena, jogada no tapete enquanto brincava com ela, num piano barulhento e desafinado. Havia notado que nossa relação evoluía muito quando eu não tinha a pressão de Fred querendo um bebê.
Eu poderia interagir, brincar e dar amor para a pequena que ninguém falaria o quanto eu estava apta a ser mãe. Me manter afastada da Helena foi como uma defesa instintiva. Se eu não levasse jeito e não gostasse de crianças, ninguém acharia possível que eu tivesse uma.
Mas eu amava a garota. Tão esperta, divertida e inteligente. Jordana e Eduardo tinham feito um verdadeiro triunfo, Helena era perfeita e eu a amava cada vez mais intensamente. A ensinei a dizer tia Ma. Que ela não falava direito ainda, mas seria questão de tempo.
Quando Jordana saiu do banho, desci com a pequena no colo, ela agarrada ao meu pescoço, apegada que estava ficando a mim. Fomos para a sala de jantar, onde Noêmia preparava um lanche delicioso para nós três, mas infelizmente, Fred e Edu chegaram.
Por um segundo eu quis parar de dar as frutinhas para Helena, eu tinha jeito, qualquer coisa que se faz com amor, se pega o jeito. Mas não parei, acenei para os dois e voltei minha atenção a Helena. Jordana comia enquanto fazia um trabalho no notebook em sua frente.
Eu não havia contado para ninguém sobre minhas transas escondidas com Fred, seja no meio do dia ou à noite. Seria dar esperança de volta e eu não achava que conseguiríamos voltar. Ainda mais agora, que ele se envenenava fácil com o que minha mãe ou irmã diziam sobre mim.
Ele e Edu foram para o escritório de Eduardo e Jordana me olhou pesarosa, por ser tão fria. Ela se rendeu fácil ao drama de Fred, mas não me comovia. Era o melhor para nós dois. Um dia, ele encontraria uma mulher que daria para ele exatamente o que ele queria.
— Tá falando sério, Mari? — perguntei perguntou, porque não acreditava e eu fiz uma careta. Eu falava da boca pra fora, nem conseguia imaginar se ele encontrasse outra e se apaixonasse loucamente, como me amava.
— Não posso obrigá-lo a ficar comigo e todos os meus bloqueios emocionais — eu resmunguei. Helena colocou a mão no prato e a encheu com morangos, amassando e levou para a boca. Não me importei, Jordana fez uma careta pela bagunça e a pequena ainda me ofereceu um pouco.
— Ele está louco pra voltar — ela falou mais baixo, se escorando na cadeira — Edu me fez prometer que vamos ter outro bebê, se você e Fred se casarem esse ano.
— Sério? — perguntei, me divertindo com isso deles dois — e se acontece uma coisa, eu fico louca e caso com Fred, você vai ter um filho por agora?
— Claro que não — ela falou o óbvio, quase incrédula — preciso terminar a faculdade, quero trabalhar também. Essa vida de dondoca não é pra mim.
Quando cheguei em casa, no começo da noite e sem planos de sair, fui pega de surpresa com minha mãe, que veio furiosa para cima de mim. Quando o primeiro tapa acertou forte no meu rosto, eu tentei raciocinar. Mas logo ela me segurou pelos cabelos e veio outro tapa e gritos furiosos.
Tudo pareceu virar um borrão, os gritos sobre eu ser capaz de qualquer coisa por ter feito um aborto, ficaram impregnados na minha cabeça. Ela berrava que eu era uma ameaça, me puxava pelo cabelo e me dava tapas, ninguém a afastou de mim, não vi se meu pai estava na sala. Quando viu que eu não ia reagir, eu nem forças tinha pra isso, só tremia e tentava assimilar, ela me empurrou para o chão. Me afastei, humilhada e me levantei.
— Eu quero essa vagabunda fora da minha casa! — ela falou, olhando para o meu pai, que ficou quieto sem dizer nada, como sempre.
— Eu saio — falei baixo, trêmula.
— Você é uma aberração, Marina! Uma aberração! — ela voltou a berrar e vinha para cima de mim de novo, mas meu pai a segurou.
Me tranquei no quarto, não sabendo como ela soube disso depois de tanto tempo. Mas não importava, de qualquer modo. Consegui ouvir os gritos de que eu vivia a ameaçando, coisa que nunca aconteceu. Que ela sempre teve medo de mim, sempre soube que eu era perigosa. Minha vontade era de voltar lá, retrucar cada acusação falsa, se fosse em outro tempo, eu faria isso, iria lá gritar de volta e renderíamos uma briga que duraria horas de discussão.
Quando ela começou a querer ligar para a polícia, me denunciar por ameaçá-la, gritava mesmo, como se chorasse, eu me desesperei. Tremia muito, não sabia como reagir. Achei que talvez fosse melhor sair do quarto, mas a discussão se tornou dela e do meu pai e eu não sei o que houve, tudo pareceu virar borrão na minha mente.
[...]
Quando voltei ao meu estado normal, sentia um ardor que já não me era estranho. Liguei a luz e fui até o espelho, vendo os arranhões pelo pescoço, alguns na testa, bochecha e perto do lábio inferior. Grunhi de raiva, não fazia isso há anos. Associava esses episódios a quando a raiva e sensação de impotência ficavam maior que a minha capacidade de lidar com elas, com a dor emocional, eu descontava me causando dor.
Mas a última vez que aconteceu foi há muitos anos, antes de eu conhecer Fred, aliás. Eu ainda tremia, me sentindo apavorada. Para não ter que sair do quarto, peguei um algodão e limpei os arranhões. Depois passei uma pomada e torci para acalmar e conseguir cobrir com maquiagem na segunda-feira.
Fred ligou mais tarde, mas não atendi. Depois enviou uma mensagem, disse que só queria conversar, ouvir minha voz, poderia ser por telefone, por ele tudo bem. Comecei a chorar, não teria condição nenhuma de falar com ele. Os próximos dias seriam caóticos e eu não queria que ele quisesse me ver nem tão cedo.
Falei que estava com muita dor de cabeça e nos falaríamos depois. Comecei a me dar conta que mesmo que nossos planos de futuro fossem diferentes, que ele quisesse construir uma família grande e eu não quisesse ter filhos, eu não queria ficar longe dele. Quando estávamos juntos, eu não precisava ficar aqui, enfrentando tudo isso.
Jordana queria ir à praia com Helena no domingo de manhã e me convidou, reclamou que o pai da criança estava na sua doença da ressaca, porque bebeu todas com Fred ontem à noite. Eu neguei e ela não aceitou, então precisei contar, envergonhada, o que havia acontecido. Enviei fotos do meu estado físico, que não era tão mau quanto o emocional. Minha mãe seguia dizendo que eu a ameaçava, que tinha medo de mim. Externou toda a raiva que sentia pela minha existência, ao saber que interrompi uma gestação.
Desliguei o celular durante o resto do dia, não saí do quarto. Não comi nada e nem água bebi. Acordei fraca na segunda-feira, acordei bem cedo para não esbarrar com ninguém. Tomei um bom banho, lavei os cabelos, os arranhões estavam menos vermelhos e eu conseguiria disfarçar com uma boa maquiagem.
Coloquei uma blusa de gola alta, que não combinava nada com o clima do Rio de Janeiro. Mas não havia outra escolha. Passei maquiagem e tomei um café antes de sair. O desespero que me dominava era difícil de explicar, um tremor insuportável interno me sucumbia toda hora, eu sentia tanto medo.
Imaginava minha mãe me denunciando por ameaças que nunca existiram, fazendo todos ao seu redor acreditarem que eu era essa psicopata, que eu não era.
À noite, meu pai veio se desculpar por ela, incapaz de colocá-la como errada. Neguei o aborto, não dava para confirmar e deixá-los aumentando tanto essa história. Neguei e disse que quem falou isso, queria muito ferrar comigo. Mas só me fez parecer mais louca. Disseram logo que eu tinha síndrome de perseguição.
Desisti, me calei e voltei a me trancar no quarto.
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Minha Louca Tentação
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