Dand havia dormido no início do filme. Às vezes, ela acordava com os gritos que vinham da TV. Dandara só acordou de fato no final do filme, quando a trama toda já tinha passado.
Lorran ficou grudado na minha amiga. Ele disse que se a loira ficasse com medo, era para ela o abraçar. O garoto de cabelos castanhos acabou admirando a menina no sofá o filme todo.
Acho que só eu e Marcus vimos o filme direito.
Agora, estamos jogando sueca na sala de estar.
― Eu não sei jogar isso! ― reclamou a garota sentada ao meu lado.
Estamos sentados no chão, ao redor da mesinha de centro.
― Que triste. ― retrucou o loiro de um jeito sarcástico.
Não tínhamos sido justos na separação das duplas. Era eu e Marcus ― os melhores em sueca ― contra Lorran e Dandara ― os medianos.
Lorran colocou mais refrigerante no seu copo e acabou com a bebida.
― Eu falei pra você deixar um pouco pra mim, Carvalho! ― repreendi cruzando os braços.
― Shiu! ― pediu Dand, olhando o seu celular. ― Não grita, já são uma da manhã.
― Tive uma ideia. ― falou o menino de cabelos castanhos sentado na frente da garota loira.
Ele guardou o baralho de cartas e Marcus o xingou. Obviamente estávamos ganhando. Lorran e girou a garrafa de refrigerante vazia sobre a mesinha de centro.
― Verdade ou desafio? ― perguntou quando a garrafa parou com a tampa apontada para a Dandara.
― Verdade. ― ela respondeu, enfiando o celular no bolso do short jeans.
― É verdade que você ainda gosta do Eric? ― Lorran se inclinou para frente e a loira riu.
― Desde quando eu gosto do Eric? Nós somos como irmãos! Vocês não podem ver dois amigos juntos que já começam a fazer teorias. ― ela respondeu ― E, não sei se você lembra, mas nosso amigo Eric é gay.
Olhei para Lorran e ele arregalou os olhos.
― Bem, pra mim ele cortava pros dois lados.
― Pra todo mundo, no caso.
― Eu giro a garrafa! ― disse Dandara, mas logo ficou desanimada quando deu eu e Marcus, com a tampa virada para ele.
― Verdade ou desafio? ― perguntei ao loiro.
― Desafio. ― ele disse, passando as mãos pelo cabelo.
― Hm... ― fiquei pensativo. ― Eu desafio você deixar a Dandara te maquiar usando ingredientes da cozinha. ― falei e a loira sorriu.
― Criativo.
― Obrigado.
Marcus nos fitou com as sobrancelhas levantadas e Lorran riu.
― O quê?!
[...]
― Agora só falta o batom de molho de tomate.
Dand passou o ingrediente na boca do seu irmão e murmurou "lindo."
Nós três olhamos para o rosto de Marcus e eu e Lorran começamos a rir.
― Está tão ruim assim? ― o loiro perguntou, parecendo preocupado.
― Que nada! ― sua irmã lhe mostrou um pequeno espelho.
― Lindo. ― Marcus comentou, sarcástico.
Sua pele estava coberta por farinha e os seus lábios estavam dominados pelo molho de tomate.
― Posso tirar isso agora? ― o loiro implorou e a loira riu.
― Pode. ― sorriu de orelha-à-orelha, se retirando.
― Dandara Barbosa, eu vou te matar!
Eu e Carvalho rimos e voltamos para a sala.
Nos sentamos e esperamos pelo Marcus. Depois de alguns minutos, ele apareceu na sala de estar, com o rosto limpo, e se juntou à nós.
― Você me paga, Dandara Barbosa. ― ele disse se ajeitando no chão.
― Era o desafio, ué! ― ela rebateu, dando de ombros.
O loiro girou a garrafa e ela parou apontando para mim.
― Verdade ou desafio?
― Verdade. ― engoli em seco e ele deu um sorriso de canto.
― É verdade que você está afim do garoto da quadra? ― Marcus perguntou e eu franzi a testa, confuso.
― O quê? Que garoto?
― O motivo pelo qual você caiu na quadra na semana passada. ― ele explicou. ― Você tá afim dele?
― Eu nem conheço ele!
― Parecia que você conhecia. ― o loiro inclinou a cabeça e eu gelei.
― Acho que estou cansado demais para continuar jogando. ― mudei de assunto, me levantando.
― Parabéns, Marcus! Você tinha que estragar o clima com uma pergunta idiota! ― Dand repreendeu e o seu irmão revirou os olhos.
[...]
Marcus e Lorran arrumaram as suas coisas para dormir no chão.
Me deitei na minha cama e Dand se deitou ao meu lado, de costas para mim.
― Boa noite.
― Boa noite. ― eles responderam ao mesmo tempo.
Eu esperei um pouco, até que todos estivessem dormindo.
Depois de alguns minutos, me levantei e peguei o baú de dentro do armário. Fui até o banheiro e me tranquei lá.
Me sentei em cima da privada e deixei o objeto de madeira no meu colo.
Abri a caixa e peguei um envelope amarelado. Tirei a carta três de lá de dentro e comecei a lê-la:
CARTA TRÊS
Seja bem-vindo à carta três!
Bem, quando eu tinha 10 anos, minha mãe foi promovida como detetive da delegacia em que ela trabalhava há tanto tempo.
Meu pai não gostou nada disso. Ele achava que era perigoso demais.
Então eles começaram a brigar muito. Até enfim se divorciarem.
A igreja que você visitou para procurar pela chave três foi o local em que meus pais se casaram.
Minha mãe achou que o divórcio podia me traumatizar de alguma forma, então ela começou a me incentivar a ler livros para fugir da realidade.
Então a leitura se tornou o meu hobbie favorito.
E por causa disso, eu acabei me expressando melhor na escrita do que na fala.
Sou meio tímido, e quando falo em público, todos acabam rindo de mim.
Os bullyings começaram um pouco depois, quando eu já tinha 12 anos.
Voltando ao assunto, depois do divórcio dos meus pais, minha mãe começou a fazer várias coisas para me distrair.
E quando eu tinha 11 anos, ela me deu um coelho de estimação.
O nome dele é Lopez. Sim, o sobrenome da minha mãe. Eu queria, na época, fazer uma homenagem a ela.
Bom, acho que já falei demais!
Essa foi a carta três!
Tenho certeza que você me conhece bem mais que antes depois de ter lido essa carta imensa.
Até a carta 4!
Atenciosamente, Pessoa Misteriosa..
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Trancado a Sete Chaves
Novela JuvenilEm pausa/em andamento/em revisão *** +16 Um garoto descolado, com uma caixa de madeira e à procura de sete chaves. Essa é a vida divertida do estudante Eric Müller. *** Pode ter gatilhos como: ansiedade, depressão, bullying, violência, gordofobia e...
