Subi as escadas com um sorriso nos lábios.
Peguei o meu celular do bolso, mas resolvi não ligar para a Dandara. Esperaria um pouco para lhe contar a novidade.
Tranquei a porta e peguei o baú. Tirei a carta de folha branca de lá e comecei à lê-la:
PESSOA MISTERIOSA
Pois é.
Meu nome é Alexandre, tenho 16 anos e sou um ano adiantado na escola. Não tenho amigos lá, mas fora do colégio é tudo diferente.
Sou tímido à primeira vista. À segunda, tagarelo. Minha cor favorita é amarela e adoro girassóis.
Ler é o meu hobbie favorito e o gênero que eu mais gosto é terror.
Faço aulas de dança, karatê, curso de francês e aula de violão. Eu não havia mencionado essa última parte, não é?
Vou a livraria todo dia, para ler e avistar a menina que eu gosto.
Meus pais são divorciados, sofro bullying desde os 12 anos de idade e vou à um grupo de apoio toda semana.
Meus cabelos são cacheados e sempre ando carregando Orgulho e Preconceito comigo.
Dandara Barbosa, futura maquiadora, roubou o meu coração e o fez de refém com o seu sorriso e o seu jeito doce de ser.
Bom, não sou mais a Pessoa Misteriosa, porque agora você me conhece.
Mas, se quiser me ver, basta ir à livraria da travessa de Ipanema depois do meio-dia. Provavelmente eu estarei lá.
Quando me avistar, basta me chamar de Pessoa Misteriosa, porque eu vou saber o motivo de você estar ali.
Espero lhe ver em breve!
Até!
Atenciosamente, Pessoa Não Tão Misteriosa Assim.
Terminei de ler e sorri ao ter minha teoria confirmada: ele gostava da Dandara.
E o garoto que o irritava... será que era o Marcus?
Ele era a tal pessoa que eu vi na pista de corrida?
Só tinha um jeito de descobrir.
[...]
No dia seguinte...
Dia 15, terça-feira.
Eu e Dand estamos andando na frente da escola, pois o sinal está prestes a tocar.
Olhei de um lado para o outro, procurando por Alexandre.
― Você está tão distante, o que houve? ― perguntou a garota ao meu lado e eu virei o rosto para fitá-la.
― Como assim? ― voltei a olhar para frente.
― Você está no mundo da lua.
― É a prova de hoje, você sabe. ― inventei qualquer desculpa, fazendo um gesto com a mão.
― Eu sei que álgebra é um bicho de sete cabeças para você, mas relaxa. Vai ficar tudo bem.
Avistei mais ao longe um garoto de cabelos cacheados entrando na escola. Na sua mão direita, tinha um exemplar de Orgulho e Preconceito.
― Alguma novidade sobre a Pessoa Misteriosa? ― perguntou a loira, mas eu já não prestava atenção nela.
― O quê? Não.
Dandara abriu a boca para falar algo, mas eu a interrompi:
― Espere um pouco. ― pedi saindo e a minha amiga encolheu os ombros.
Comecei a andar em direção ao garoto de cabelos cacheados, mas o sinal logo tocou e uma multidão de estudantes entrou na escola, assim me fazendo perder o rapaz.
― Qual é o seu problema, Mill? ― falou Dandara, se aproximando e eu parei de andar. ― Eu estava falando com você e sendo ignorada! ― parou ao meu lado e cruzou os braços, indignada.
― Desculpe! Eu estou meio avoado hoje.
― Só não me ignore! Você sabe que eu não gosto disso.
― Ok, me desculpe. ― falei e a loira segurou a minha mão.
― Tudo bem. ― sorriu e eu retribui o gesto. ― Vamos entrar? ― perguntou e só aí eu percebi que estávamos sozinhos.
A puxei para dentro da escola e corremos até as nossas salas.
[...]
Entrei na livraria e comecei à andar entre as mesas.
Avistei Dandara ao longe, mas ela não me viu. Estava ocupada demais olhando os livros nas estantes.
Olhei ao redor e vi um garoto de costas, sentado em uma mesa vazia. Seus cabelos eram cacheados e ele usava um casaco amarelo.
Era ele.
Meu coração começou a bater mais rápido e eu me aproximei do menino.
― Pessoa Misteriosa? ― perguntei ao seu ouvido e ele deu um salto da cadeira.
Fiquei a sua frente e Alexandre arregalou os olhos.
― E-eric Müller?! ― ele exclamou, deixando os seus livros caírem no chão, enquanto ajeitava os seus óculos.
Ele era lindo, tinha de admitir. Seus cachos caiam sobre a testa, quase tampando sua armação dos óculos, que eram levemente arredondados e pretos. Seus olhos castanhos feito chocolate me encaravam com uma mistura de surpresa e vergonha. Sua pele era um pouco mais clara que a de sua mãe. Ele certamente havia puxado a parte materna da família.
Como eu nunca reparei nele?
― Deixe-me te ajudar. ― me abaixei e ele também.
― Merda! Merda, eu disse "merda"! ― se repreendeu e tampou a boca com a mão.
Ri da situação e me abaixei para pegar o seu material que estava no chão.
― Eu disse para você não me ajudar! ― reclamou agachado à minha frente, enquanto pegava alguns livros do chão.
― É, mas eu não te obedeço. ― respondi e ele revirou os olhos.
Depois que terminamos de pegar os seus cadernos e livros, nos levantamos e Alexandre guardou tudo na sua mochila.
― Gostaria de falar sobre a última carta, onde você fala que gosta da Dandara Barbosa. ― pedi e ele levantou as sobrancelhas.
― Fale baixo! ― ordenou. ― Droga, já estou atrasado para a aula de violão. ― disse, olhando o celular e logo o enfiando no bolso da calça.
― Eu tenho tantas perguntas! ― choraminguei e Alexandre começou a se afastar com a sua capa do violão.
― Se eu soubesse que você seria o leitor das cartas, nem teria escondido o baú pela cidade. ― afirmou quando eu o alcancei, ficando ao seu lado.
Aquilo me acertou no peito, mas continuei sorrindo.
Só faltava eu saltitar de tanta alegria.
― Então por que fez esse jogo de caça-às-chaves?
― Se eu soubesse onde tinha as escondido, talvez você não estivesse aqui me perturbando.
― Espere um pouco. ― falei. ― Então você escondeu as chaves e se esqueceu de onde as enfiou?
― Eu fiz esse jogo em um momento não muito legal, na época achei uma boa ideia fazer isso.
― E você se arrepende disso?
Ele não me respondeu.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Trancado a Sete Chaves
Teen FictionEm pausa/em andamento/em revisão *** +16 Um garoto descolado, com uma caixa de madeira e à procura de sete chaves. Essa é a vida divertida do estudante Eric Müller. *** Pode ter gatilhos como: ansiedade, depressão, bullying, violência, gordofobia e...
