4 • A fuga

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Tudo estava pronto.

Akaashi colocou no fundo da mala sobre a cama as pequenas roupas que havia comprado naquele dia, depois um pouco das suas, então seu notebook, alguns livros e por fim mais algumas roupas. Sabia que não teria como levar muita coisa. Depois de tudo organizado, abriu um saco preto de lixo, botou tudo lá dentro e amarrou.

Atravessou o pequeno apartamento pelo qual era tão afeiçoado, mesmo em pouco tempo. Havia momentos em que até tinha imaginado uma pequena criança engatinhando ao redor da mesa ou dando seus primeiros passinhos apoiando-se no sofá. Mas não aconteceria.

Abrindo a porta, deparou-se com Ryo encostado na parede contrária. Ele tinha os braços cruzados e pareceu despertar rapidamente de um cochilo com o barulho da porta. Aquele era um bom sinal.

— Onde pensa que está indo?

— Apenas jogar o lixo fora — respondeu calmamente.

— Eu faço isso — ele se prontificou a pegar o saco, mas Akaashi puxou-o levemente para trás.

— Não acha que posso ao menos fazer isso? — Sua expressão era completamente neutra. — Estou grávido, não doente.

— Terei que te acompanhar então.

— Nunca disse que não poderia.

Akaashi dirigiu-se para a escada, carregar aquele saco era um pouco desconfortável, mas esforçou-se para que isso não transpassasse. Chegando no primeiro andar, Ryo ficou parado na entrada, enquanto Akaashi deixava o saco no chão, ao lado da lixeira. Ao voltar para dentro, o homem o olhou desconfiado.

— O quê? Pensou que eu fugiria com um saco de lixo, usando essas roupas em um tempo como esse? Acabaria congelado na próxima esquina.

Akaashi balançou a cabeça e subiu as escadas novamente para então trancar-se em seu apartamento.

Não havia muita coisa que pudesse fazer além de esperar. Tudo já estava planejado e em algumas horas ele estaria longe dali.

Sentou-se no sofá e observou tudo ao redor. Não tinha uma televisão, mas em compensação tinha uma grande estante entupida de livros acadêmicos — pelo término recente da faculdade — e também comuns. Sua cozinha não era grande, tinha espaço para algumas bancadas e uma mesa de dois lugares. No corredor que levava para o quarto e o banheiro havia apenas alguns quadros genéricos e um vaso de planta. Era tudo tão simples, mas era seu e lhe partia o coração ter que abandonar tudo aquilo.

Ficou um tempo vagando pelas poucas lembranças que tinha naquele lugar e a hora de agir tinha enfim chegado.

No quarto, calçou seus tênis e vestiu um grande moletom preto que disfarçava perfeitamente sua barriga. Sobre a cômoda estava um boné azul escuro e uma máscara preta que também faziam parte do seu disfarce.

Voltou para a sala e olhou para a porta. Seria bom se certificar que Ryo estava cochilando, mas não poderia em hipótese alguma acordá-lo com o barulho da porta, então, apenas torceu para que a sorte estivesse a seu favor.

Levantou lentamente o vidro da janela e passou uma perna depois a outra, ficando de pé na plataforma por onde a escada de emergência passava. Atentou-se em fechar novamente a janela antes de cuidadosamente descer os três lances de escadas.

Tinha passado o dia observando a rua de trás e não poderia estar mais agradecido pelo fato dos Sato terem sido incompetentes o suficiente para esquecerem de vigiar aquela saída.

Quando chegou ao chão, um pouco mais para frente estavam as latas de lixo. Ele foi até lá e encontrou facilmente o saco que tinha deixado ali algumas horas atrás. Então, voltou-se para a rua pouco movimentada em que só tinha um carro parado e, pelas luzes estarem acesas, não foi difícil ver Kenma acenando de dentro.

Akaashi correu para lá o mais depressa que pôde, tentava evitar ao máximo ser visto por qualquer pessoa. Dentro do carro, Kenma apenas perguntou como ele estava e recebeu como resposta um "bem", mesmo que estivesse quase evidente que ele não estava tão bem assim.

Kenma instruiu o motorista a ir para um banco onde precisariam parar antes do destino real. Chegando lá, foram necessários por volta de trinta minutos para conseguirem sacar da conta de Akaashi o máximo de dinheiro possível para então voltarem para o carro.

O trajeto até o destino final levou mais dez minutos, durante os quais eles ficaram em completo silêncio.

Por conta do horário, a rodoviária estava praticamente vazia. Pegaram suas coisas — a mala de Akaashi e a mochila que Kenma havia trazido para colocarem o dinheiro — e dispensaram o táxi, pois a partida de Akaashi ainda demoraria um pouco. Antes de entrarem, descartaram o saco preto na lixeira e então seguiram para um dos vários balcões onde as passagens eram vendidas.

— Ida e volta, senhor? — A atendente perguntou?

— Só ida.

— Certo, tenha uma boa viagem — ela sorriu e Akaashi tentou retribuir.

Depois de pegar a passagem, ele e Kenma se dirigiram para um canto mais afastado e sentaram-se para esperar a chegada do ônibus.

Kenma, como sempre, carregava o seu fiel Switch e escolheu qualquer jogo para o tempo passar, já Akaashi se permitiu pensar.

Tantas coisas estavam acontecendo. O pouco tempo que tinha descoberto a gravidez mais se pareciam anos.

Depois de terminar a faculdade, planejava fazer um mestrado, mas agora estava fugindo para qualquer lugar onde poderia garantir a segurança de seu filho.

Era claro que nunca culparia alguém que ainda nem havia nascido por um descuido parcialmente seu. Também já tinha percebido que ficar se culpando ou remoendo aquilo não mudaria absolutamente nada. Tentava ao máximo pensar apenas no futuro.

Por mais que aquela criança estivesse vindo em um momento não tão favorável, ele faria de tudo por ela. Faria tudo que não fizeram por ele. Viraria o mundo de ponta cabeça como agora simplesmente para vê-la sorrir.

— Akaashi? — Kenma o sacudiu de leve. — O ônibus chegou, vamos?

— Claro.

Colocou a mochila nas costas e Kenma pendurou a mala em um dos ombros. Então, ambos caminharam pelos assentos de espera, desceram a rampa que levava até às plataformas e pararam ao lado do ônibus. Kenma entregou a mala para Akaashi e eles se encararam por alguns instantes sem saber direito o que dizer.

— Quase me esqueci — Kenma começou e procurou por alguma coisa nos bolsos. — É para você — estendeu um celular. — Não é o melhor do mundo, mas programei para que não seja rastreado. Me avisa quando encontrar um lugar.

Akaashi sorriu. Sentiria tanta falta de Kenma. Ainda se lembrava de quando o conheceu quatro anos atrás, era tão quieto e difícil de interagir, mas a amizade cresceu a um nível que Akaashi nunca imaginou que um dia estaria se despedindo dele. Kenma sempre esteve bem ali quando ele mais precisava.

— Obrigado, Kenma — pegou o celular. — Por tudo.

— É para isso que serve a família.

Família. Era isso que Kenma era, não mais o único, mas sempre seria o primeiro.

— Cuida bem do meu sobrinho — ele completou.

— Claro — sorriu e aproximou-se para abraçá-lo.

Depois de se separarem, Akaashi entrou no ônibus e se acomodou na terceira fileira, ficou sentado no assento da janela, enquanto suas malas estavam no banco ao lado.

Kenma não estava mais ao lado do ônibus, tinha voltado para onde ficavam as cadeiras de espera, mas ainda era possível vê-lo esperando que o veículo partisse.

Ao som do ronco dos motores, Akaashi ergueu a mão e deu um leve aceno para Kenma que retribuiu.

Aquilo não foi um "adeus", apenas um "até logo".

Refúgio - BokuAkaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora