what lies beneath

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Dayane Limins, Londres — 04 de dezembro de 2021

Ainda sob tensão.

A única coisa que desejei fazer quando cheguei ao meu quarto foi tomar um banho quente e demorado. Esfreguei a pele por longos minutos, como se pudesse apagar dali tudo o que havia acontecido naquele dia. Foi inútil. A água levou o suor, o cheiro, a sensação do toque, mas não levou a memória. Eu ainda me lembrava de cada segundo.

Não dá para voltar atrás. Não mais.

Eu sabia disso. Sabia, principalmente, que poderia ter evitado tudo muito antes, quando os olhos daquela mulher se voltaram para mim e eu fingi não perceber. Aquilo acontecia com frequência. Em baladas, bares, festas... mulheres de todas as idades me olhavam daquele jeito, e eu costumava ignorar. Não porque não sentisse vontade, mas porque conhecia bem o que vinha depois.

A ressaca pós-transa, como Bruno gostava de chamar.

Eu me entregava ao desejo acumulado, deixava honestidade e moralidade de lado por algumas horas e, depois, voltava a ser a mesma pessoa entediada de sempre. A perceber que, no fim, todos pareciam insignificantes. Não importava o quanto alguém me oferecesse aquilo que todo mundo parecia querer: sexo sem compromisso, atenção, companhia.

Nada conseguia me prender.

— Será que você nunca vai enxergar? — falei para o meu reflexo no espelho. — O problema não está nelas. Está em você.

Talvez eu realmente precisasse procurar um profissional qualificado para ouvir todas as merdas que se passavam na minha cabeça.

Mas quais eram os meus problemas?

Um trabalho horrível? Todos que trabalham pensam isso em algum momento.

Alcoolismo? Eu estava aprendendo a lidar com aquilo.

Pais controladores? Que se fodessem.

Uma fortuna que eu provavelmente doaria para alguma instituição caso um dia herdasse? Ótimo. Eu faria isso.

Eu vivia o famoso white girl problem. Problemas superficiais, pequenos, quase ridículos quando comparados aos de outras pessoas.

Exceto por um.

Lisboa.

O acontecimento em Lisboa realmente havia mexido comigo. E, dessa vez, eu tinha motivos para estar destruída. Eu tinha fodido com todo mundo e comigo mesma de uma maneira que ainda não conseguia perdoar. Algumas noites, perdia o sono apenas porque as imagens voltavam. Sempre as mesmas. Sempre com detalhes diferentes.

Antes daquilo, eu não estava tão mal.

Ou talvez apenas ainda não tivesse percebido o quanto já estava quebrada.

Eram seis e meia quando fui encontrar Caroline no trabalho.

Passei tempo demais escolhendo o que vestir, o que era ridículo, considerando que eu já tinha passado boa parte da tarde dizendo a mim mesma que aquilo não significava nada.

Calça preta, camiseta branca, casaco preto e coturnos. Nada muito formal.

Passei perfume também, embora minha loção pós-banho normalmente fosse suficiente para mim.

Quando estava dirigindo em direção à estrada principal, meu celular tocou.

Eu realmente precisava de um carro atual que permitisse conectar as ligações ao sistema. Só tinha paciência com carros velhos quando se tratava do meu Impala, que, infelizmente, continuava na Califórnia.

The Lake House (Dayrol)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora