26 - VOCÊ CHEIRA BEM

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POV. NICOLAS

A Pérola conseguiu um desconto de cinco reais na sorveteria apenas conversando com a mulher do balcão, em um nível de intimidade que não condiz com o tempo que se conhecem. O que mais me impressiona é a sua facilidade, a maneira como abre um sorriso simpático e desenvolve um diálogo natural com as pessoas. Apenas nos minutos em que fiquei preso no balcão, esperando, pude perceber que ela possui uma magia, como se fosse um feitiço, não sei explicar, mas é encantador. Quando a observamos de longe, conseguimos notar isso.

Após deixarmos o estabelecimento, a garota roubou o meu carro outra vez e dirigiu sem um pingo de responsabilidade pelas ruas até a sua própria casa.

Deixo escapar uma risada sozinho, esquecendo que isso pode fazer com que me comparem a alguém que enlouqueceu completamente. No entanto, rio de mim mesmo, da minha inocência, e também ao lembrar do que aconteceu na sorveteria.

Nós nos beijamos.

— Isso tudo foi para ganhar uma carona?

— Mais ou menos. — Ela sorri, e eu reparo que o canto dos seus lábios forma uma linha de cada lado, atravessando-os, como nos personagens de desenhos. — Sua casa deve estar uma confusão para entrar, então o trouxe para almoçar na minha.

Ainda não mencionei que deixamos nossas mochilas na escola. Para piorar, não avisamos ninguém sobre sair no meio da aula. Até que não estou me incomodando muito com isso. Acho que a minha cabeça estava realmente enlouquecendo, e eu precisava de um tempo.

O pai dela é quem está na cozinha quando entramos; ele me cumprimenta como sempre faz, daquele jeito amigável, mas sério ao mesmo tempo, e beija a testa da filha. Logo a mãe dela desce com um cesto de roupas nas mãos. Diferentemente do esposo, ela é bem assustadora, parece que a qualquer momento vai me acertar com o que tiver nas mãos.

— Já chegou, filha? — Me avista paradinho perto do sofá, quase como uma estátua, então franze as sobrancelhas de modo ranzinza, questionando a minha presença, no entanto, suaviza a expressão para sorrir sutilmente. — Oi, Nicolas.

— Olá, senhora.

As duas começam uma conversa, aparentemente sobre como a Pérola deixa as roupas espalhadas pelo quarto. Enquanto isso, me aproximo dos porta-retratos na parede. Vejo duas crianças sujas e abraçadas, uma maior que a outra, e por isso a menor parece sofrer durante o abraço. Na outra foto, parece ser apenas a Pérola com um barrigão enorme e a boca suja de chocolate. Ela está rindo, faltando alguns dentes na boca, mas continua adorável.

Sorrio, de braços para trás, apenas apreciando cada imagem maravilhosa proporcionada pela pessoa que as escolheu para expor. A foto seguinte é a Pérola segurando uma sombrinha; parece ter sido tirada em um estúdio, pois o fundo é branco e bastante iluminado. Ela está vestindo uma roupa vermelha, encarando seriamente a lente da câmera.

— Você tinha um buchão.

Ela fecha a cara e entra na frente das fotos.

— Toda criança tinha.

— Eu não.

— Conta outra, criança é criança, seja rica ou pobre.

— Sério, eu não tinha buchão.

Ela fica com a cara mais fechada e os braços cruzados na altura do peito.

— Aposto que tocava clarinete... — Fala em um tom de deboche.

— Sim, e violoncelo.

Ela solta uma risada prazerosa, virando o rosto para o lado e depois voltando lentamente para me encarar com os olhos fulminantes. Quase esqueço do que estávamos falando. Se não fosse pelo seu olhar assassino, me perderia completamente em seu sorriso. Confesso que fico todo bobo com essa imagem.

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