10 - QUASE BEIJO

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POV. NICOLAS

   Os meus pais chegaram antecipados, o que é uma surpresa, já que eles sempre avisam quando vão aparecer. Eu peguei um carro no aplicativo na mesma hora e deixei a família da Pérola depois de me despedir. Não vejo os meus pais faz um tempo; não sei ao certo quantos meses faz desde a última vez que eles estiveram em casa.   

Puxo a porta, contando com a sorte de estar destrancada, e ela se abre para o lado de dentro, revelando o meu pai parado no centro da sala, conversando com a Grace, enquanto a Gih, em seus onze anos de idade, está pendurada nele, mas não é preciso muita força para segurar uma pré-adolescente leve como ela. A minha irmã facilmente se passaria por alguém de oito anos.

— Boa tarde, Nicolas. — Minha mãe revela estar na sala também, sentada em uma das poltronas.    

Quanto tempo não vejo esse rosto na minha frente; quase parece que a estou vendo pela primeira vez. Está em um vestido estampado como se fosse pele de cobra, justo até os joelhos. Botas brancas de bico fino, um estilo de sapato que está diariamente usando, mesmo nos verões quentes. E o cabelo liso mantido sempre em um rabo no alto da cabeça. A mesma de sempre, a minha mãe.

— E aí, rapaz. — Meu pai coloca a Gih no chão para pegar na minha mão, tipo quando vai cumprimentar um sócio.

— Vocês chegaram... — Falo, soltando o ar dos pulmões. Sabe quando deixa para expirar tudo de uma vez e aí sai alto demais?   

Às vezes é frustrante não ter notícias deles. Muitas vezes estão ocupados demais ou os fusos horários são diferentes para poderem responder às minhas mensagens. A última vez que conversei com a minha mãe, porque o meu pai nunca retorna as ligações, foi mês passado no natal que eu liguei utilizando o telefone do Everton.

— Onde está o seu irmão?

— Não tenho ideia.   

Ela olha para o marido com aquela sua expressão de mãe preocupada, as sobrancelhas um pouco enrugadas e umedecendo os lábios pintados.

— Cansei de avisar para ele que tem que tomar cuidado — Meu pai a responde. — Conversei com ele por vídeo chamada semana passada e, com aquele jeito arrogante, disse que estava quieto em casa.

— Ele ligou para vocês?

— Não, nós ligamos. Queríamos saber se estava tudo bem. — Explica casualmente.    

Grace surge carregando uma bandeja nas mãos com café e biscoitos, que provavelmente ela assou na parte da manhã sem saber que teríamos os meus pais aqui.   A minha irmã é a primeira que avança na comida.

— O seu irmão tem saído muito?

— Como sempre, mãe.

— Ele por acaso decidiu se quer fazer faculdade?

— Ele estava com algumas ideias, mas é melhor ele mesmo dizer para vocês.

— Eu disse para ele deixar essa história de lado, porque vai ser uma perda de tempo, mas a sua mãe não acha o mesmo. Adivinha com quem o Everton vai preferir concordar? — Meu pai pega o biscoito da mão da minha irmã e o come, deixando a pergunta no ar para não ser respondida; ele está esperando engolir a comida para continuar seu raciocínio. — Aquele garoto devia vir logo trabalhar com a gente.    

O meu irmão e eu temos diferença de cinco anos, mesmo assim ele é quem dá mais trabalho. Ano passado ele comprou um jatinho apenas para passar as férias, mas perdeu a porcaria do negócio no aeroporto. Bebeu tanto com o piloto nos hotéis, indo de cidade em cidade de carro, que quando chegou no dia de voltar para casa, simplesmente não sabia onde deixou. E no mesmo ano, ele brigou com o meu pai por um motivo bobo, então comprou uma casa em Porto Rico e passou cinco meses confinado lá. Até precisar de mais dinheiro e voltar.

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