POV. NICOLAS
Fiquei frustrado no meio daquela briga familiar. Eles já costumam falar alto no dia a dia, mas durante aquele momento, as vozes duplicaram. Acredito que meus ouvidos sejam sensíveis, pois continuo ouvindo o eco dos gritos ao meu redor, como se ainda estivesse em um ambiente barulhento. Nunca vi a mãe da Pérola daquela forma, e nem mesmo consegui entender tudo o que ela falava, pois era rápido e entrecortado pela raiva, tornando meu cérebro lento para traduzir.
Tive que buscar o meu carro enquanto a mala do Jake era feita. Depois, o peguei em sua casa com mais duas mochilas, e desde então, o garoto está bem à vontade com minhas coisas. Ele apertou cada botão existente no painel, descontrolando todo o sistema e quase nos fazendo morrer de calor ao acionar o aquecedor. Também se jogou preguiçosamente na cama de hóspedes com os sapatos, à vontade mesmo, seguindo à risca as minhas palavras.
— Arrume suas coisas no closet. Qualquer coisa, meu quarto está logo ao lado.
— Nossa, mas quantas portas...
— Aquela leva ao closet, essa da esquerda ao banheiro, a larga te leva para a sua sacada, e a pequenininha fica com toalhas e roupas de cama.
Isso será uma ajuda para a Pérola, porque, segundo ela, o avô não é a melhor pessoa para se dividir a casa. Além disso, aqui é o mesmo bairro da casa do Ravid. Fiquei feliz por algum motivo pelo namoro dos dois e quis facilitar o acesso deles.
— Valeu, cara. Prometo não ficar muito tempo.
— Sem pressa.
— É só até minha mãe se acalmar. Sabe como são as mães...
— Sei.
No outro dia, apresentei o Jake para os meus pais e minha irmã durante o café da manhã. Logo, eles tiveram que sair para visitar meu irmão no hospital, então deixei o Jake sozinho em casa com a Grace, pois eu tinha que ir à escola. A Pérola parecia distante durante as aulas, foi com as amigas no intervalo, algo que não fazia há alguns dias. Ficávamos juntos na sala resolvendo exercícios, mas hoje, como ela não ficou comigo, resolvi perambular por aí, até porque, aparentemente, o pessoal da escola esqueceu as polêmicas da minha família. E os repórteres pararam de me procurar após meu pai dar uma entrevista pública.
Alcanço a garota com o uniforme todo amarrotado e a camisa para fora da saia no fim da aula. Ela ia indo embora a pé com seus fones de ouvido, distraída em pensamentos.
— Ei!
— Oi, Nic.
— Tudo bem na sua casa?
— "Bem" é uma palavra forte. Depois que vocês saíram ontem, minha mãe entrou no quarto do meu irmão e revirou tudo atrás de sei lá o que. Eu tentei impedir, mas não deu certo — ela olha para o chão e depois para mim — e ele? Passou bem a noite na sua casa?
— Acho que sim. Eu escutei a TV ligada no quarto dele a noite toda.
— Sinto muito, ele gosta de aproveitar as oportunidades. Vou ligar e brigar com ele para não fazer isso.
— Tudo bem, deixa ele.
Eu quase não consegui dormir. Além dessa família falar alto, também aparentam complicações em escutar, como pude ouvir a altura da TV na noite passada. Por que é que eu disse "tudo bem" quando não está nada bem.
— Até amanhã, Nic — ela começa a andar, e eu estranho o fato de não ter pedido carona.
— Pérola, não quer que eu a leve?
Ela balança a cabeça negando.
— Vou me encontrar com as minhas amigas na estação de metro.
Antes dela virar novamente, eu falo:
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Absolutely nothing
Romantizm(esse livro começou a ser editado, porém, não foi finalizado a correção) Pérola é livre, quando sua mãe permite, e gosta de viver cada minuto. Vem de uma família comum, semelhante à de quase todo mundo, sempre se metendo em confusões e tentando sair...
