POV. PÉROLA
Entrego água para o Nicolas no copo do meu aniversário de quinze anos; ainda tem o meu nome e a minha idade escrita, quase se apagando. Foi meu único aniversário com decoração; depois disso, transformou-se no bom e velho bolo quadrado com todos os parentes presentes para fofocar da vida alheia. Não que na minha festa de quinze não tenha tido essas coisas, mas foi algo bem mais grandioso, com arcos de balões e música. Todo pobre faz festa para as meninas da família aos quinze anos, não importa quantos reais tenham na conta, o aniversário será carregado.
Nicolas começa a tatear a calça, com um pavor crescendo no rosto.
— Esqueci meu celular e a minha carteira também.
Pego o copo que ele deixou no sofá, sem nem me importar se iria cair ou não. Caso uma gota caísse no tecido, seriam duas horas de reclamações da minha mãe por causa disso.
— Seu pai está em casa? — Pergunta. — Ele vai ter que me levar em casa, não vou me arriscar a ir a pé.
— Ele viajou. Foi até a cidade vizinha comprar madeira para fazer uma mesa.
Nicolas passa a mão no cabelo, desinquieto na minha sala escura.
Eu havia acabado de tomar banho, estava saindo do banheiro quando alguma coisa se jogou contra a minha porta.
— Minha mãe me mataria se soubesse que você está aqui. Bem, ela não vai acreditar nessa história de perseguição de jeito nenhum. Você quer o meu celular para ligar para alguém da sua família?
— Como? Não sei o número de ninguém!
— É sério isso?
A minha mãe está na vizinha a ensinando a fazer um biscoito de aveia, demorará um pouco. Talvez o Nicolas consiga ficar escondido no meu quarto.
— Vem. — Pego ele pelo pulso, subindo escada acima.
Meu quarto é o último, é meio que o sótão. Não dá para escutarem barulhos, exceto se encostarem o ouvido na porta.
— O que está fazendo?
— Você pode dormir aqui, mas não podemos deixar a minha mãe saber. Amanhã de manhã estará de dia e você vai para a escola comigo. Eu até poderia te emprestar meu celular para pedir um carro pelo aplicativo, só que não tenho um real na conta.
Os olhos do Nicolas revistam todo o lugar. Não é nada como o quarto chique e enorme dele, não tem móveis clássicos e refinados, nem um aquário, nem mesmo TV ou decoração planejada. Meu quarto é repleto de pôsteres de atores tailandeses e coreanos que gosto, alguns pôsteres de bandas e jornais preenchendo as paredes. O vidro da janela está quebrado e o mofo crescendo no forro.
— Sem palavras? — Perguntei.
— É... — Ele toca o meu computador velho com as pontas dos dedos. — Isso aqui é um objeto antigo, bem difícil de conseguir.
— Era da minha mãe, mas agora é meu.
— Sério?
— Sim.
— Bela decoração.
— Funciona... — Falei. — É meu computador.
— Espera, isso aqui funciona? Não é decoração?
Balanço a cabeça concordando.
Ele não disse mais nada, apenas passou para outro canto do quarto.
Parece que o Nicolas está em um museu analisando artefatos. Seus olhos ficam curiosos com o meu radinho, depois com a minha prateleira de livros quase caindo. Ele não tem aquilo de fingir naturalidade por educação, realmente trata meu quarto como se fosse a coisa mais estranha já vista.
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Absolutely nothing
Romance(esse livro começou a ser editado, porém, não foi finalizado a correção) Pérola é livre, quando sua mãe permite, e gosta de viver cada minuto. Vem de uma família comum, semelhante à de quase todo mundo, sempre se metendo em confusões e tentando sair...
