28 - NÃO OLHE PARA TRÁS

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POV. PÉROLA

Flagro o Nicolas me observando enquanto devoro todos os camarões que estão no prato. Não me importo muito, porque é a melhor comida que já experimentei. Não vou tentar fingir uma etiqueta agora. Estava com fome enquanto assistíamos àquele filme. Foi uma das melhores coisas ter sido chamada para jantar. E essa comida não é daquelas que faz pouca lambança.

— Parece que gostou. — O seu rosto está apoiado no dorso da mão e, por esse motivo, o relógio do pulso fica à mostra.

Tento engolir o mais rápido possível toda a comida da minha boca e comento:

— Gostei do relógio. É bonito. Combina com você. E olha que não sou fã de relógios, porque sempre me passam a energia de homem que não presta.

— Gostou? — Ele olha para o acessório com orgulho. — Foi presente da Grace, ela comprou quando morávamos lá. Disse que viu em uma feira de mercadão e achou a minha cara.

Já notei que o Nicolas gosta de elogios, ele fica todo pimpão quando ganha um. E ele gosta de explicar sobre algo que tem. Isso o deixa animada. O que eu não entendo é porque ele fica desconfortável em lugares com um grande público, mas gosta da atenção de outras maneiras. Como elogios, bajulação e quando demonstra interesse nele.

— E o que você mais gostou na Itália?

— A arquitetura...

— Imaginei. Seus pais também gostam das construções, não é? — Pego um guardanapo de pano e limpo meus dedos sujos. — Sua casa tem uma decoração meio europeia.

— É verdade, talvez porque somos da Dinamarca, acho que todos da família apreciam o modelo clássico.

— Você tem avós? Ou algum membro da família além de seus pais e irmãos?

— Meus avós são falecidos, mas eu tenho uns doze tios e tias.

Arregalo os olhos e bebo um gole de suco para me recuperar.

Doze.

Uau.

— Muitos tios, eu sei... — Ele sorri e encosta na cadeira depois de se lembrar de manter a postura reta. — Mas não mantemos contato com nenhum. Digamos que não somos muito apegados a parentes. Se perguntar ao meu pai, ele vai dizer que é filho único.

— A minha família não possui tantos assim, tenho no máximo cinco tios de cada lado e uns dez primos, meus avós e os que não são de sangue que vão entrando.

— Imagino que sejam bem espirituosos...

— Digamos que sim. Todo ano ocorre uma briga feia.

Nossa conversa correu como um rio, harmoniosa e divertida, um fluxo bastante bom. No fim da noite, já estávamos falando de animais de estimação, e o Nicolas disse que prefere gatos, mas que está sendo obrigado por uma pessoa a cuidar de um cachorro. Apenas pisquei, fingindo minha inocência.

— E ele tem uma mãe irresponsável que até hoje não apareceu para vê-lo — Me acusa — Acho que precisaremos de uma divisão de guarda, porque você está me deixando sozinho na criação.

— Quanto drama — Cruzo os braços, sentindo a minha bexiga prestes a estourar de tanto suco que eu bebi. — Eu só... fui comprar cigarro.

Ele ri, e abaixa os olhos para o prato vazio que antes tinha um pudim de chocolate.

— Vou te levar na justiça.

— Eu vou vê-lo, prometo, apenas preciso arrumar um tempo na minha agenda.

Absolutely nothingOnde histórias criam vida. Descubra agora