Pensamentos Equivocados

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Ninguém se moveu.

Emília estava completamente surpresa. Olhando a pessoa diante dela, sem reação. 

O tempo parecia ter congelado. Estagnado por um momento,  esperando pacientemente que todos ali digerissem a inesperada presença.

Os olhos escuros do homem parado na porta exibiam um brilho divertido. A atenção dele alternava entre uma garota e outra, tentando conter uma risada. Ele balançou os braços animados para trazê-las de volta à realidade.

Emília foi a primeira a demonstrar alguma reação.

-Ai meu Deus - ela largou a porta e se jogou contra ele, envolvendo-o com os braços - Eu não acredito que você está aqui, Ramiro.

Ele abriu um largo sorriso e retribuiu o aperto.

-Nem me fale, rainha do rock!

Emília riu do antigo apelido e se afastou dele apenas o suficiente para analisá-lo dos pés a cabeça. O sorriso de orelha a orelha não deixava o rosto dele nem por um minuto.

-Você está um gato!

-Miau.

Ramiro deu um passo para trás, agarrou cada lado da jaqueta extravagante que usava e girou o corpo sobre os calcanhares pomposamente. Quem via de longe, percebia que ele agia como um famoso modelo com o rosto estampado em comerciais publicitários por outdoors  a cada esquina quando queria, mas era na verdade um talentoso estilista. O que não o impedia de modelar. No lançamento da primeira coleção de Ramiro, ele optou por estrelar na divulgação, dando cara a coleção Shark ao lado de Ámbar.

Depois dessa coleção Ámbar já perdeu as contas de quantas roupas, desenhadas por ele, ela vestira. Por muito tempo, nem mesmo com os números inúmeros quilômetros terrestres os separando ou,  muitas vezes, um gigante oceano como obstáculo os afastavam. Os desenhos de Ramiro se superavam em cada detalhe e ultrapassando todas as expectativas em qualidade e pontualidade de entrega. Ela era e sempre seria profundamente grata a ele.  

No decorrer da carreira dela  as roupas de Ramiro tornaram-se mais presentes durante o dia a dia dela. Porém, diante de imperdíveis contratos para ambos os envolvidos, o contato entre eles converteu-se em uma relação  mais escassa. Festividades eram exceções pontuais, em especial os aniversários, em que eram enviados presentes anualmente, acompanhados de um cartão, o que diminuiu a incidência  de peças exclusivas. Mas nada a impediu de usar as roupas da coleções antigas com orgulho. 

Ámbar ainda recordava as piadas maldosas das colegas que insistiam em perguntar, com uma falsa preocupação, se ela estava vivenciando um periodo difícil com dificuldades financeiras. Era até detestável pensar que, para as colegas de Ámbar, essa seria a única explicação para reusar roupas fora de moda. Elas diziam ser cafona. Mas, Ámbar, honestamente, acreditava ser uma completa besteira. As peças eram atemporais e evidenciadas por alguns por ser vintage. 

O estilo extravagante de Ramiro não compreendia totalmente as coleções e Ámbar agradecia por isso. Ela tinha uma grande queda pelas peças mais clássicas. Eram encantadoras.

Ramiro focou sua atenção na loira sentada próximo a bancada.

-Eu não acredito no que os meus lindos olhos veem - ele abriu um sorriso - Ámbar Smith, minha modelo favorita.

-Deixa de ser galanteador, seu estilista metido - disse ela, inpulsionando o corpo para cima e levantando-se do banco. Quando a pouca distância foi suficiente,  ela o puxou para um abraço - Sei que você fala isso para todas. 

Ele riu e deu de ombros

-Falar eu até falo, mas você sabe que é a minha favorita.

-Seu idiota!

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