Gatilho

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POV: Sarah

Minha respiração estava pesada. O ar parecia faltar, como se meus pulmões não dessem conta do que eu estava sentindo. Meu coração martelava no peito, descompassado, como uma corrida de cavalos soltos, sem direção. Estávamos tão próximas, tão absurdamente próximas... O calor entre nossos corpos suados criava um campo magnético do qual eu não conseguia escapar.

Senti sua mão mergulhar entre meus fios e apertar com firmeza, como se quisesse me prender ali pra sempre — ou se prender em mim. Minhas pernas vacilaram, como se algo dentro de mim tivesse derretido. Afasto um pouco o rosto, com esforço, só pra encontrar seus olhos... Estavam escuros, intensos, famintos, e mesmo sem saber explicar por quê, eu desejei. Desejei como se o mundo inteiro tivesse se reduzido àquela boca entreaberta.
Então umideci meus lábios. E ela se aproximou.

Era como se o tempo tivesse se rendido a nós — até o estalo da realidade arrombar a porta.

O barulho da porta abrindo foi como um balde de água fria jogado com violência. Num sobressalto, desvencilhei nossos corpos, o coração agora batendo por outros motivos.
Meu Deus... eu ia beijar ela?

POV: Juliette

Meus limites... onde eles estavam mesmo? Eu não sei. Porque ultrapassei todos.
Não consegui manter o profissionalismo. Me rendi. Foi instinto. Desejo. Fraqueza. Chamem como quiserem, mas aquele corpo colado ao meu era uma tentação silenciosa e perigosa. Eu tentei me conter. Fui sutil. Eu juro que fui. Só queria sentir o gosto da sua boca e saber, de alguma forma, se ela também queria aquilo.
Estava tão perto... tão perto.
Até o maldito barulho da porta me arrancar da vertigem.

— Ei, gatinha, não quer ir pra casa hoje não? — disse Bill, entrando sem bater, com aquele sorriso cínico de sempre.

Por que ele? Por que agora?
Antes mesmo de conseguir formular uma resposta, olhei para o relógio na parede.
Meus olhos se arregalaram. Já era aquela hora?

— Eita, mulinga! Já é essa hora? — murmurei, tentando disfarçar o desespero por trás do espanto.

Sarah, que até então só observava em silêncio, seguiu meu olhar. Também se assustou.
— Sim, meu amor! Já são essas horas! — respondeu Bill, todo animado.
Nem tive tempo de rebater aquele “meu amor” irritante.

— Nossa, cara... o tempo voou real — disse ela, num tom seco e rápido, como quem queria sair dali antes que o coração explodisse. — Meu namorado já deve estar me esperando. Vou indo. Tchau.

E saiu. Sem olhar pra trás.
Sem se despedir direito.
Sem me dar tempo de dizer qualquer coisa.

Fiquei ali, paralisada, com o som da porta ecoando na sala como um fim abrupto.
Só percebi que meus olhos estavam marejados quando senti uma lágrima cair e escorrer pelo rosto.

POV: Juliette

Ouvir da boca dela que o namorado a esperava lá fora... foi como levar um soco no estômago. Me tirou de órbita, me arremessou pra um lugar da minha mente onde eu não voltava fazia tempo — sombrio, abafado, onde antigas feridas ainda latejam. Senti o ar sumir dos meus pulmões, as pernas vacilarem, e, de repente, tudo escureceu.

— Ju? Juliette, acorda! — A voz de Bill parecia distante no início, mas foi se aproximando aos poucos, puxando-me de volta como se eu estivesse emergindo debaixo d’água.

Abri os olhos devagar. Ele me segurava nos braços, preocupado. Eu ainda estava sem força, o corpo mole como se não me pertencesse. Bill, sem dizer mais nada, me carregou até a minha sala e me acomodou no sofá com cuidado.

Eu era apenas euHistórias para pegar e não largar. Descubra agora