não me afasta

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POV: Sarah

Tem algo em Juliette que me inquieta... algo que grita em silêncio, que esconde nos olhos aquilo que a boca se recusa a dizer. Desde o primeiro instante, percebi que ela não é feita de metades. Tudo nela é profundo — até os silêncios.

Eu queria tanto entender o que se passa dentro dela. Porque por mais que ela se permita, por mais que tente dar um passo à frente, parece que algo invisível a puxa de volta. Como se houvesse um campo minado entre nós, e eu pisasse com cuidado, sem saber onde exatamente poderia machucá-la.

Lembro da nossa primeira conversa. Ela disse que eu era como um gatilho. Na hora, eu não entendi. Mas bastou irmos um pouco além de um beijo para ver sua expressão mudar, como se o passado tivesse voltado com força demais. E aquilo... doeu em mim. Como pode uma dor que não é minha me atravessar desse jeito?

Quando ela foi pro banho, a casa ficou em silêncio, e mesmo o silêncio parecia carregado. Eu queria respeitar o tempo dela, mas uma parte de mim também queria gritar que tava tudo bem, que eu tava aqui... que ela podia desabar se precisasse. Mas como dizer isso pra alguém que passou a vida aprendendo a se manter firme?

Foi então que vi o porta-retrato. Uma foto dela com uma senhora — que só podia ser sua mãe. O brilho nos olhos da Juliette naquela imagem era diferente de tudo que eu já tinha visto. Era como olhar pra uma versão dela antes da dor, antes das defesas. Aquele sorriso... era outro tempo, outra Juliette.

Quando ela saiu do banheiro, enxugando os cabelos, eu não consegui guardar a curiosidade. Não por invasão, mas por cuidado.

— Sua mãe? — perguntei, segurando o porta-retrato com delicadeza.

— Sim... — respondeu com um sorriso fraco, daqueles que parecem pedir desculpas por existirem.

— Você se parece com ela — falei, e vi seus olhos brilharem com uma saudade que falava mais que qualquer palavra.

— Eu sou ela. Eu sou tudo que ela me ensinou... — disse com a voz embargada, baixando a cabeça. — Sinto saudades...

Depois disso, mudou de assunto, se esquivando da conversa como quem foge do próprio reflexo. Disse que ia se trocar. E eu... fiquei ali, com um aperto no peito.

Como vou fazer ela se abrir comigo?

Eu queria segurar sua dor com as minhas mãos, queria conhecer a história por trás das sombras que às vezes vejo em seu olhar. Mas tinha medo. Medo de forçar algo. Medo de que ela se afastasse mais do que já se esconde.

Ela foi para o closet, e eu desci pra pegar a comida. Tentei me distrair arrumando a mesa, mas meu coração tava inquieto. Quando ela voltou, já vestida, eu tava terminando os últimos detalhes. Ela se sentou, e mesmo sorrindo, eu sentia que ela carregava um peso.

Durante o almoço, lutei contra o impulso de perguntar. Mas não consegui esconder o quanto eu queria entender.

Ela percebeu. E me incentivou a perguntar, ali eu vi espaço mesmo que cuidadoso.

Então eu perguntei. De novo.

— Por quê?... Por que não foi mais lá?

E naquele instante, vi seus olhos marejarem. O que quer que tivesse por trás daquela pergunta, era grande demais pra caber numa resposta simples.

Mas eu tava ali. E, de algum jeito, acho que ela sabia que podia falar. E se não soubesse ainda... eu faria questão de mostrar.

— Eu… eu não gosto de lembrar disso! É muito difícil… — ela disse com a voz baixa, mas firme o suficiente para me atingir em cheio.

Eu era apenas euHistórias para pegar e não largar. Descubra agora