Ana Estrella:
Fernanda: Bora pegar bebida.
Ela me puxou, e eu puxei a Amanda, que riu do meu desespero. Nunca vim pra um baile. Meu cu trancou quando fomos barradas no meio do morro por dois caras com fuzil na mão. Agora chego aqui e já tem um monte de gente loucão, tudo junto e apertado. E, pra piorar, tem vários caras andando por aqui de fuzil.
Que isso?
São bonitos? São. Mas, pô... pra que aquilo tudo, irmão? Peguei uma mistura que a Fernanda me deu. Bebi, senti a garganta queimar e fiz careta.
Gostei.
Fernanda: Isso é só pra começar!
Ela tava super animada.
Amanda: Tá assim só porque vai dar pra macho no final do baile.
Olhei pra ela. Ah é... tinha esquecido esse detalhe. O bofe que a Fernanda vai pegar é traficante. Digo nada. Logo puxei as duas pra dança e comecei a rebolar no ritmo da música, sincronizada com as meninas.
Filipe Ret:
Paiva: Não vejo a hora da morena chegar, irmão.
Esfregou uma mão na outra. Eu observava o povo lá embaixo, algumas meninas dançando.
Th: Vai trazer alguma amiga pelo menos?
Olhei de lado pra ele, que riu.
Otário.
Th: Sabe como é, né, filhão — botou a mão no meu ombro. — Chefe precisa desencalhar.
Filho da puta não perde uma.
Ret: E tu tá doidinho pra perder a mão, né, lindão?
Debochei, me virando de frente pra ele. Ele riu.
Th: Otário. — Se encostou na parede e ficou olhando o movimento.
Th: Olha lá, vê se não é a morena do Pavão.
Nessa hora, o Paiva pulou de onde tava e brotou do nosso lado. Meu olhar caiu em três meninas. Bonitas até. Tudo patricinha, ideia. Duas morenas, cabelo cacheado preto. E uma de cabelo liso... foi essa que chamou atenção. Uma delas puxou o bonde, que passou por todo mundo ali no meio. Perdi de vista e virei de costas, cruzando os braços e encarando o Th e o Paiva.
Paiva: Aí, Silva!
Gritou pro vapor.
Paiva: Chega aqui, meu consagrado.
Silva chegou com o fuzil na mão e fez o toque com nóis. Paiva passou o braço pelo pescoço dele e apontou pro meio do povo.
Paiva: Tá vendo aquelas minas ali, ó?
Silva concordou. Revirei os olhos.
Paiva: Chama pra subir. Diz que é o Rodrigo que tá mandando.
Rodrigo? Sério?
Silva saiu pra cumprir a ordem do gerente da boca.
Th: Rodrigo? Sério, Davi?
Perguntou, olhando pra ele.
Paiva: É porque vocês ainda não viram o de vocês.
Riu e acenou pra baixo. Olhei de relance e vi uma das meninas me encarar enquanto bebia algo no corpo. Voltei o olhar pra frente e encarei o Paiva.
Ret: Não quero problema no morro, Paiva...
Ele me olhou e concordou. Me afastei deles e fui fumar no meu canto. Vou contar um pouco sobre mim e meus irmãos. Nasci aqui mesmo, no Morro da Penha. No meio do crime, das drogas e do dinheiro. Meu pai era o dono. Sempre dizia que eu herdaria esse morro todo. Que um dia tudo isso seria meu.
E ele tava certo, pô. Minha mãe morreu no parto, quando teve o Davi. Ele ainda não consegue lidar muito bem com esse assunto, por isso a gente nunca fala o nome da nossa mãe.
Nosso pai foi preso um ano depois da morte dela. Uma tia nossa passou a cuidar da gente. Mas logo ele fugiu da cadeia. Quando completei 17 anos, o velho morreu. Overdose. Sabe como é. Tive que assumir o morro e cuidar dos meus irmãos. Pelo menos o Thiago colabora. O Davi dá mais trabalho. Não julgo, pô. Sei como é.
Todos nós sofremos com a perda da mãe. Até porque nós três mal lembramos dela. A morte da coroa foi cedo demais, e o Davi sente culpa por isso. Mas ele não é culpado. Minha tia dizia que ela não podia engravidar depois que teve o Th.
Mas meu pai queria mais um homem e tava pouco se fodendo. Gravidez de risco. Se não me engano, ela tinha pressão alta e pouco líquido no útero. Meu pai era um pau no cu do caralho com ela. Com todos nós, na real. Não vou negar que, quando ele morreu, me senti aliviado.
Th: Isso aí eu não sei não, hein.
Olhei pra ele, que chegou do meu lado.
Ret: Que foi?
Soltei a fumaça.
Th: Nada não, pô.
Fechou a cara.
Suspirei e joguei o baseado longe.
Ret: Pronto?
Levantei as mãos. Ele me encarou.
Th: Baseadinho de leve... foi o que tu dizia, Filipe.
Encarei ele e desviei o olhar.
Th: Mas tu sabe muito bem que sempre tem recaída quando fuma teu "baseadinho".
Não respondi. Olhei pra pista lá embaixo e meu olhar caiu na mina de cabelo preto. Ela tava de short e uma blusa que cobria só o peito. Era bonita. Ela me olhava, mas desviou o olhar pra falar com a outra menina, que também me encarou. Como sempre, chamando atenção. Olhei no relógio. Duas horas da manhã.
Tava sentado ali com os caras, escutando o que eles tinham pra dizer. Só merda. Mas a gente finge que gosta.
"Olha como ela dança... olha como ela desce. Será que tá com alguém? Se não tiver, esquece..."
Observava ela descendo até o chão como se não houvesse amanhã. Era como se a bunda tivesse vida própria. O cabelo voava a cada movimento do corpo.
Surreal.
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Primeira dama
FanficCom ela a vida tem momentos incríveis Com ela todos meus sonhos são mais possíveis Lucros invisíveis são melhores Separados somos fortes, juntos, imbatíveis...
