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Anna Estrella:

Acordei com a luz do sol batendo no meu rosto. Continuei paralisada, olhando pro teto, sentindo as meninas deitadas ao meu lado.

Depois de tudo que aconteceu de madrugada, só tô tentando esquecer. O que tá sendo bem difícil.

As imagens vinham à minha cabeça, e a dúvida se aquele animal tinha feito algo a mais comigo me irritava. Eu lembrava de poucas coisas.

Amanda: Bom dia, amor.

Escutei a voz doce dela, mas continuei olhando pra cima. Sua mão passou pelos meus cabelos, e fechei os olhos, tentando não chorar.

Fernanda: Bom dia.

Abri os olhos de novo e forcei um sorriso.

Anna: Bom dia.

Me levantei. Uma dor na barriga me fez fazer careta.

Fernanda: Tá bem?

Concordei com a cabeça. Levantei a blusa masculina branca e vi um hematoma roxo. As meninas encararam aquilo em silêncio. Abaixei a blusa.

Anna: Preciso de um banho e de roupas limpas.

Elas concordaram, e eu entrei no banheiro que tinha no quarto. Pelo que me disseram, dormimos na casa do tal Ret.

Foi ele que me salvou. E eu precisava falar com ele. Deixei a água cair sobre meu corpo, e as lágrimas vieram junto. Meu corpo ficou mole, e caí de joelhos no chão, chorando. A dor estalava no peito. Ódio, culpa, angústia. Tudo ali, presente. Senti as mãos dele de novo, e comecei a chorar mais forte. As imagens voltaram. Eu me sentia suja. Só queria me limpar, arrancar aquela dor de mim. Enfiei as mãos no cabelo, abaixei a cabeça. Puxei os fios e gritei, chorando ainda mais. Senti a porta abrir e braços me envolverem.

Fernanda: Calma...

A água caía sobre nós. O medo tava ali. A culpa também. E aquela sensação horrível de sujeira.

Amanda: Tá tudo bem, meu amor...

A voz dela vinha chorada. Deitei no colo dela e senti a mão da Fernanda sobre a minha.

(...)

Vesti a roupa que a Fernanda tinha separado pra mim.

Amanda: Onde você achou essas roupas?

Fernanda olhou pra ela.

Fernanda: O Paiva me levou pra comprar aqui no morro mesmo.

Amanda: Ele tá aqui?

Fernanda concordou.

Fernanda: Os três.

Penteava meu cabelo.

Fernanda: Lá embaixo, sentados, tomando café na maior tranquilidade. Nem parecem traficantes.

Ri fraco.

Anna: Pelo menos o café eles têm que tomar em paz, né?

Amanda: Tem certeza que quer conversar com o Ret? Ele é... muito sério. Frio. Sei lá.

Fez uma pausa.

Amanda: Ele me dá medo.

Fernanda gargalhou.

Amanda: Ri mesmo, otária!

Falou irritada, cruzando os braços.

Fernanda: Ele não é tudo isso, não.

Olhamos pra ela.

Amanda: Já viu o jeito que ele encara? Parece que tá lendo a alma da pessoa. Como se soubesse todos os pecados que eu já cometi. Deus me livre!

Primeira dama Onde histórias criam vida. Descubra agora