Desabafo

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ESTER MOLINA


Às vezes nem tudo que a gente planeja fazer, dá certo. Tem horas que a vida simplesmente acontece. Sonhava em viver um conto de fadas, com castelos, vestidos bonitos e um príncipe encantado.

Quando conheci meu primeiro namorado, acreditei estar a caminho do meu "felizes para sempre." Suas palavras doces e sensíveis me deixaram em êxtase. Ele conseguiu me encantar, e me seduzir. Na época, eu vivia um momento de grande fragilidade. Minha mãe já tinha sido diagnosticada com câncer á algum tempo, e meu pai, descobriu estar com alzheimer. Não sabia o que fazer, e me sentia perdida. Philips se tornou então, meu porto seguro. Com apenas um mês de namoro, entreguei a ele minha virgindade, minhas vontades e dignidade. Fiquei gravida logo em seguida. Ao descobrir, ele me abandonou, sem nem se despedir.

Completamente sozinha, e cheias de problemas, abandonei os estudos. Comecei a trabalhar em dois empregos diferentes. Meus amigos até tentavam me ajudar, mas eu me sentia mal por ser um peso. Em um dia qualquer, conheci José Alfredo. Ele chegou de mansinho, simpático e amigável. Criamos uma amizade. Por fim, ele me fez uma proposta: queria que nos casássemos o mais rápido possível. Me garantiu dinheiro para ambos os tratamentos dos meus pais, um futuro regado de conforto, e um sobrenome de peso para meu bebê, que seria criado como sendo dele. Em um primeiro momento, recusei. Parecia estar me vendendo.

Entretanto, após pensar bem, resolvi aceitar. Afinal, éramos amigos. E se eu me negasse poderia nem mesmo chegar a ter um futuro, do jeito que as coisas iam. Grávida, me matando de trabalhar, sem dinheiro para nada, vendo os pais morrerem aos poucos por falta de recursos.
No começo nossa união foi boa. Matheus nasceu, e logo José Alfredo se apegou a ele.
Mantínhamos um relacionamento respeitoso. Até que as coisas começaram a ficar estranhas e tensas. Vira e mexe, eu era alvo de ataques verbais. Parecia que toda raiva e estresse que meu marido sentia, descontava em mim. Aos poucos nem amigos mais a gente era. Só me tratava bem na frente dos amigos, ou do nosso filho. Um dia, porém, as agressões fora além.
Nitidamente bêbado e transtornado, José Alfredo me bateu e me forçou a ter relações sexuais com ele, contra a minha vontade. Nunca, até aquele momento tínhamos nos deitado juntos. Um dos nossos acordos, consistia em não precisar nos tocar, fora da vista das pessoas.

Passei dias, trancada no quarto, chorando e me sentindo culpada. José Alfredo disse a Matheus que eu estava com depressão. O que realmente aconteceu, quando descobri que do estrupo, nasceria um bebê. Eu estava grávida de mais um menino. Passei a gestação toda o renegando. Quis tirá-lo muitas vezes, mas meu então marido, não permitiu. Quando o bebê nasceu, mal pude olhar para sua cara. Contudo, conforme o tempo passava, mais eu me apegava. Acabei me apaixonando por Lucas. Ele era uma criança sensível, quieta, e muito criativa, todavia, era bem seletivo. Durante toda sua vida, tirando o irmão mais velho, teve apenas um amigo. Conheci a mãe dele em um evento de caridade. Suzana Sanchez, uma socialite muito conhecida por todos. Jhon era muito semelhante á Lucas.

Passei anos da minha vida acuada, sendo ameaçada e diminuía, enquanto todos achavam o contrário. Mas o que esta ruim, pode sim, piorar. Descobriu-se que José Alfredo foi cúmplice de assassinatos, fraudes e roubos. Ele também era o pai biológico do melhor amigo, do meu filho.

Não satisfeito com o estrago que já estava causando, resolveu me acusar de tudo, esfregando na minha cara a nossa história. Matheus ouviu, e passou a odiá-lo ainda mais, e se afastou de mim, mesmo que tentasse negar, me colocando como vítima.

Anos depois, Lucas tirou a própria vida. Encontra-lo morto foi a experiência mais dolorosa da minha vida. Matheus estava fora do país quando isso aconteceu. Ter tido que lidar com aquilo sozinha, me fez voltar com a depressão. Mas eu não me rendi. Me refiz.

Eu já havia me desfeito da mansão, dos carros, e das joias. Estava habituada a morar em uma casa pequena, e a trabalhar todos os dias na minha butique. Me tornei uma mulher forte, capaz de seguir em frente sem ninguém do lado.

Canalizei todo meu amor em ajudar instituições de caridade. E estabeleci como meta, reconquistar Matheus, e a continuar ajudado o irmão do meu filho, a se reconectar com o que a mãe tirou dele: a esperança. Jhon sempre foi uma figura importante para mim. Amigável e gentil, como era, ele foi a única criança que enxergou Lucas de verdade. Cresceu ao seu lado, ajudando-o e acreditando nele. Sei que meu menino já o amava como um irmão, antes mesmo de saber que de fato, eram irmãos. Eu devia isso a ele. O que eu não esperava de jeito nenhum, era despertar desejo, ou qualquer outro sentimento, que não o de mãe nele. Pior ainda, eu não esperava gostar dessa atenção.

Da primeira vez que nos beijamos, me senti culpada por gostar tanto.
Mas entendi que foi porque ele me deu, o que nunca tive: apreciação. Em seus olhos via admiração, em suas carícias respeito, e nos seus lábios, paixão. Fui mulher novamente, e adorei. Contudo, Jhon não era a pessoa certa para me fazer sentir essas coisas. Esperei ele voltar da sua viagem repentina para fora do país, para conversar. Porém, depois que regressou muitas coisas aconteceram. Quando por fim tive a oportunidade de esclarecer tudo, me deixei levar novamente. Dessa vez, sua assistente nos viu. Em vez de pôr tudo em seu devido lugar, desfazer o mal-entendido, e reestabelecer a relação amigável que tínhamos, confundi ainda mais os sentimentos. Meu maior medo, era de estar confundindo-o, pois sei o que pensa sobre paixão e amor. Não queria ser responsável por tirar sua paz. Ou a minha.

Estou vivendo a melhor fase da minha vida. Sucesso na carreira, logo seria avó, meu filho estava casado com uma moça incrível, que por sinal, considerava uma amiga querida, mesmo sendo tão novinha. Meu trabalho voluntário estava a todo vapor, e me sentia mulher de novo.

Simplesmente não poderia perder isso.

APAIXONADO PELA MÃEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora