Capítulo 17

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Algumas coisas na vida são fatais, sabemos e entendemos alguns exemplos básicos, não beba veneno, não misture álcool com medicações, não dirija em alta velocidade enquanto está bêbado, os exemplos podem até ser básicos, mas a grande verdade é que nós só entendemos o perigo que é viver quando a nossa vida está em risco. Ou a vida de quem a gente ama, e jurou diante de Deus proteger.

Antônio viu sua reunião ser interrompida pela secretária que tremia demais e mal conseguia dizer o que tinha acontecido com a patroa. A mulher mais importante da cidade, casada com o homem mais rico e temido do Estado, tinha sido encontrada pelos funcionários das plantações desmaiada, ensanguentada e sem nenhum vestígio do que de verdade tinha acontecido ali.

Antes que pudesse dizer o que tinha acontecido, o telefone do patrão tocou. Ramiro estava na linha, desesperado, dizendo coisas sem sentido e esbaforido. Entendeu pouca coisa do que ele dizia, mas as palavras carro, acidente e patroa o fizeram sentir um ar frio percorrendo seu corpo, custou a acreditar, Ramiro devia estar enganado, tinha que estar enganado. Mas a postura da secretária bem ali na sua frente o fez entender que sua mulher não estava bem.

- Ramiro, para, fala devagar, o que que aconteceu com a Irene?

- Patrão, ninguém sabe, os homi só encontraram a patroa no carro, ouviram a buzina sem parar e vieram ver o que era...

- Onde foi isso, fala pra mim

- Ela bateu na árvore patrão, tem muito sangue

- Ramiro me manda a sua localização AGORA, eu tô indo pra fazenda

- A ambulância tá vindo patrão, vem rápido, eu não sei se...

- Eu tô indo, cuida dela pra mim Ramiro.

De verdade, Antônio não sabia como iria sair dali. Sentia seu pés fincados naquela sala, sabia que tinha que correr e ver o que tinha acontecido com Irene, mas estava paralisado. Com tantas perguntas rodando em sua cabeça que já estava tonto. Silvério tomou a iniciativa de puxar a chave que tremia em sua mão e dizer que o levaria até a esposa. Teve a impressão de ter ouvido a secretária falando, mas não sabia dizer do que a mulher falava. Silvério soube por ela da localização do acidente e o acompanhou até lá, o advogado não conseguia dizer nada. Antônio estava agitado ao seu lado, mas calado. Os olhos cheios de lágrimas e um nó na garganta que o impedia de externar o que estava sentindo.

A separação tinha sido um resquício extremamente irrisório do que seria viver sem Irene. Mas um acidente poderia tirar ela dos braços dele, afinal de contas tudo se resolve, menos a morte. Sentia seu sangue gelado, não viu o caminho que Silvério fez, pensava nela, pensava em Daniel, no desespero que ela deve ter sentido no acidente, lembrando do filho deles. As perguntas giravam, mas ele não encontrava respostas. Como isso foi acontecer com ela? O que fez ela bater nessa maldita árvore? Por que ele não obrigou ela a ir pra empresa de manhã com ele? E a pior delas: ela estava viva?

Quando pensou nisso, sentiu o ar sumir, o pânico do fracasso cercando seu corpo, a impotência de não ter previsto o que ia acontecer. Ele não protegeu ela. Ele foi ridiculamente incapaz de proteger a sua esposa como sempre prometeu. Seus pensamentos foram interrompidos quando sentiu o carro parar.

Conseguia ver Ramiro ao lado do banco do motorista com os braços sobre a porta, como se protegesse Irene do pior. Parecia inocência, mas aquilo foi mais uma prova de que o peão faria de tudo pelos La Selva, não importa qual fosse a circunstância.

Antônio engoliu em seco enquanto desceu do carro e se dirigiu até onde Ramiro estava. Onde ela estava. A frente do carro estava destruída, uma fumaça saia do motor e ele viu o vidro estilhaçado. Ramiro acenou a cabeça como se pudesse se justificar. Não tinha motivos, mas fez. Abriu caminho para o patrão e Antônio enfim viu Irene. Desmaiada sobre o volante, a testa sangrava indicando que ela tinha batido forte contra o volante.

- Irene, pelo amor de Deus, acorda, olha pra mim Irene

- Não adianta patrão ela não acorda, a ambulância deve tá chegando já...

- Irene, eu tô te pedindo, eu tô... eu tô mandando Irene La Selva, olha pra mim - Engolia em seco cada nó na garganta, remoendo a aflição de ver a esposa naquela situação - Eu vou tirar ela daqui, me ajuda Ramiro, abre essa porta...

- Dr Antônio não faça isso, a ambulância tá chegando

- Eu tenho que tirar minha mulher daí Silvério...

- Você pode piorar a situação dela, é isso que você quer? Piorar o estado dela?

Antônio ofegava, estava perdendo o controle, mas na realidade não havia nada coerente passando por sua cabeça, só queria tirar a esposa daquele carro.

A ambulância vinha a toda a velocidade na estrada, levando a terra batida naquele dia quente, Antônio seguia chamando por ela, pedindo, ordenando que ela abrisse os olhos e falasse qualquer coisa com ele.

Só percebeu que o socorro havia chegado quando Ramiro o tirou ele daquela porta, Antônio ofegava e pedia que ela abrisse os olhos, que os paramédicos tivessem cuidado com ela, que a tirassem dali rápido. Quando viram que Irene estava desacordada, porém viva, colocaram em seu pescoço um imobilizador e com cuidado a retiraram do carro, a blusa branca estava rosada, os estilhaços do vidro em suas roupas caiam sobre o chão e Antônio não piscava, mal ouvia o que se falava, nunca pensou que teria que pedir a Deus por algo, nunca foi necessário, julgava ser capaz de controlar tudo e a todos, mas naquele momento soube que tinha que pedir por ela, por ela ele teria essa conversa com algo ou alguém superior.

Os paramédicos a colocaram na maca e sob os olhos vidrados de Antônio, a levaram para a ambulância estacionada a poucos metros. Quando ia subir na traseira da ambulância junto com a esposa, sentiu a mão de Silvério em seu braço e sem tirar os olhos dela, ouviu do advogado

- Dr Antônio, eu acho melhor o seu ir comigo no carro

- Ela só sai daqui comigo, tira a mão de mim

- Eu sei que o senhor está nervoso, mas eles precisam de espaço para examiná-la, nós vamos seguindo a ambulância, por favor

- Eu vou com ela e fim de papo, acabou, ela é minha mulher Silvério

Antes que pudesse contra-argumentar, Silvério viu o patrão entrando na ambulância como um raio, ordenando que os paramédicos tivessem cuidado com ela, estava ciente que tinha que deixar com que eles trabalhassem para salvá-la, mas se pudesse a pegaria no colo e não deixaria mais ninguém tocar nela.

- Irene, acorda, fala pra mim quem fez isso com você... - Viu o médico puncionar uma veia em seu braço e pendurar um líquido transparente em uma bolsa, não conseguia ouvir o que eles diziam, usavam todos os jargões médicos e que ele não entenderia nem se estiver tranquilo, naquele momento ele só queria acordar daquele pesadelo - Irene, eu tô te pedindo, abre os olhos e fala pra mim o que fizeram com você...

O silêncio e as súplicas seguiram, até que ele viu o clarão da porta de abrindo, e o paramédicos pulando da ambulância para puxar a maca, desceu atrás dela e seguiu com ela até a entrada da emergência. A perdeu de vista quando a enfermeira o barrou, ela sumiu no corredor e ele se viu perdido, vulnerável e completamente perturbado.

Entendeu naquele momento que não era ninguém. Que seus bens e suas terras não valiam de nada. A última vez que viveu essa mesma cena, viu minutos depois seu filho morrendo nos braços dela, ela destroçada e despejando toda aquela fúria de mãe ferida em Caio, que causou toda aquela situação naquela noite.

Não podia acreditar que a história se repetiria, não aceitava o fato de que ele poderia ver ela morrendo assim como Daniel morreu. Ela não podia morrer. Não antes dele


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