Capítulo 35 - The Hermit who Writes Dreams (4° Arco)

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Terminou de esfregar a mesa depois de alguns minutos, algum babaca tinha deixado calda de pudim derramar ali e como ninguém limpou, a substância ficou fortemente pregada e dura. Parou por um instante e jogou o pano em cima da mesa, suas mãos já estavam cheirando eucalipto com tanta intensidade que parecia que ele as tinha enfiando em um balde de perfume barato. Bufou e se sentou, cansando e de mau-humor por estar desperdiçando seu fim de semana ali no mesmo lugar que ficava todos os dias da semana. Se tivesse conseguido acertar no mínimo um soco no rostinho macio de Samuel ainda valeria a pena, mas nem isso tinha sido capaz de fazer.

- Hey, se você ficar sentado aí olhando para o tempo não vamos terminar isso nunca. – Samuel rosnou, talvez ele também tivesse começado a sentir as costas.

- Pra começo de conversa nem estaríamos aqui se você tivesse ficado calado. – retrucou. – Além disso, eu tenho o direito de ficar aqui olhando para o tempo, você ficou vadiando por horas ontem.

Ele entreabriu os lábios, mas não tinha como refutar aquilo uma vez que tinha mesmo sumido por horas no dia anterior, achou que Heiner ia lhe deixar manco por deixa-lo fazendo todo o trabalho sozinho, mas ele só fez aquela carranca de sempre e falou sobre irresponsabilidade por vários, longos e tediosos minutos.

- Tudo bem, me desculpe, eu admito que fiz algo errado, mas quanto antes terminarmos isso mais rápido iremos aproveitar o que resta do domingo. – disse naquele tom calmo e suave que usamos ao conversar com animais selvagens, sem fazer movimentos bruscos.

Heiner semicerrou os olhos, deveria pirraçar um pouco mais, ficar ali olhando ele limpar, mas sabia que o babaquinha tinha razão e se Heiner ainda tinha alguma esperança de sair daquele quartel e beber pelo menos até ficar inconsciente teria de terminar aquilo logo.

- Eu vou buscar alguma coisa para limpar isso. – apontou para a mancha na mesa e se levantou, não aguentava mais aquele cheiro de eucalipto e no âmago do seu ser torcia para ter algum produto com cheiro diferente no almoxarifado.

Deu alguns passos à frente até que por ventura pisou em uma vassoura abandonada ali no chão com a ponta do pé, assim não houve peso o suficiente para quebrar o cabo fazendo o objeto escorregar para frente e lançar Heiner para trás, em um lindo e doloroso tombo. Samuel teria rido se não fosse Heiner e se ele não tivesse soltado um gemido e feito uma careta feia, o que fez o garoto imediatamente se lembrar de que tinha sido ele mesmo quem deixou despreocupadamente aquela vassoura ali e que o colega de limpeza já o tinha avisado para guardá-la algumas vezes.

Heiner levou as mãos até o tornozelo direito e fez uma careta, sentia como se algo lá tivesse se acendido com a queda e entrado em combustão, mas ao mesmo tempo era uma dor aguda e contínua como um corte profundo.

- Porra Samuel, não te mandei guardar isso?! – ele gritou, furioso, sem se levantar do chão.

- Me desculpe, me desculpe. – disse indo até o recruta. – Você está bem? Se machucou?

- Me desculpe o caralho, idiota! – retrucou. – E eu não sei se me machuquei, meu tornozelo está doendo.

- Posso ver? – perguntou, se houvesse algo muito errado qualquer pessoa normal iria notar.

- Não. – respondeu imediatamente e apoiou as mãos no chão para se levantar, mas um dos pés não conseguiu suportar o peso. – Sim, vai lá.

Samuel arqueou uma sobrancelha surpreso com a súbita mudança de ideia, mas como tinha sido ele mesmo o causador do desastre foi até a perna indicada pelo outro recruta e desamarrou o coturno do mesmo. As botas de Arthur eram sempre as mais sujas e maltratadas, eram incontáveis as vezes em que Henry olhou para ele e o mandou voltar e engraxar os coturnos direito, mas Heiner nunca teve a atenção chamada por causa disso e de perto Samuel só conseguia confirmar o quanto elas eram exaustivamente limpas e bem engraxadas. Bom, esse não deveria ser seu foco no momento, puxou o sapato dele com certo cuidado e depois dobrou a meia branca até o calcanhar.

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