Eu não tive pesadelos.
Quando acordei, havia um espaço vazio na minha cama. O travesseiro ainda estava amassado e o cobertor foi jogado para o lado. Bolt pulou na cama e se acomodou ao meu lado. Eu levantei e pisquei por conta das luzes fortes que vinham da janela.
— Jessie?
Eu saí da cama e vesti minha roupa. Estava prestes a ficar preocupado. Olhei no banheiro, na sala, na cozinha, mas Jessie não estava em lugar algum. Para onde ela poderia ter ido?
Depois da conversa com Sam, eu me preocupava com o que ele poderia fazer com Trenton ou Jessie. Mesmo com as proteções, eu sabia que elas não seriam suficientes. Sam era mais poderoso do que qualquer um de nós poderia imaginar. A única coisa que o segurava era a barreira entre os mundos e mesmo ela não aguentaria por muito tempo.
Ouvi portas baterem no corredor do prédio. A minha porta abriu e eu suspirei aliviado quando vi Jessie entrar, usando meu moletom velho da academia policial e carregando um prato com muffins.
— Onde você estava? — Minha voz saiu mais desesperada do que deveria.
— Eu estava conversando com a senhora Kang. Ela me adora! — disse animada e totalmente alheia às minhas preocupações — Ela diz que eu tenho um espírito velho.
Soltei o ar pelo nariz. Puxei uma cadeira e tentei relaxar. Estava tudo bem. Jessamine estava aqui e Sam estava longe do nosso alcance.
— Ela mandou bolinhos... Na verdade, ela me deu os bolinhos. Ela não gosta muito de você e da movimentação de mulheres vindo da sua casa — Jessie falou, colocando o prato na mesa e sentando ao meu lado.
Seu cabelos estavam soltos e um fio cobria seu rosto. Olhar para ela fez os nós na minha garganta desatarem. Ela parecia feliz, quase inabalável.
Quando não estava estressada com assuntos da pós-vida, esse era seu modo natural. Era assim que ela vivia e sua energia era tão contagiante que era difícil acreditar que as pessoas da sua época a odiavam.
— Por que estava falando com a sra. Kang? — perguntei. Os bolinhos cheiravam a massa e mirtilos. Esse cheiro parecia estar impregnado nas proximidades do apartamento da idosa.
— Gosto de conhecer pessoas — respondeu, arrancando um pedaço do muffin e colocando na boca — Não gostava antes, mas depois que voltei, comecei a ouvir as pessoas, a tentar entender o que elas pensam... Os pequenos relatos me fazem me sentir viva como se eu pudesse me ver vivendo através delas.
Jessamine me encarou. Os olhos castanhos me olhavam com a mesma de quando tentava arrancar alguma informação de mim.
— As pessoas estão vivas, mas esquecem disso, sabe?
— É fácil esquecer — dei de ombros.
— Qual foi a última vez que você se sentiu vivo?
Eu retribuí seu olhar.
— Provavelmente ontem à noite.
Jessie abriu um sorriso e eu me senti orgulhoso por arrancar aquele sorriso dela.
Nós comemos os bolinhos, tomamos café e lavamos a louça. Não voltamos a falar sobre a questão da vida, apenas conversamos besteiras. Como a sra. Kang fazia bolos tão macios? Como funciona a TV? Quem é Donald Trump? E outras questões sobre o século vinte e um que eu mal sabia como começar a responder.
A campainha tocou por volta das nove da noite. Eu e Jessie estávamos sentados no sofá assistindo à adaptação de Orgulho e Preconceito, ou melhor, eu estava ouvindo Jessie apontar todos os erros históricos do filme.
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O Guia dos Mortos
FantasyUm fantasma de outro século e um detetive que não confia em ninguém estão prestes a entrar em uma missão arriscada e se envolver em uma relação impossível. Fantasmas existem. Russell T. Montague é capaz de ver fantasmas desde o acidente que matou t...
