A Chave

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Eu a levei para a cafeteria do hospital no segundo andar. Era mais tarde do que eu imaginava. Eu e Jessie acordamos tarde. O tempo para Trenton chegar no apartamento e, depois, para chegarmos aqui foi o suficiente para que a noite começasse a cair lá fora.

Pedi dois cafés e panquecas. Os bolinhos de mirtilo da senhora Kang pareciam ter acontecido há milhões de anos.

— Por que estamos aqui, Russell?

O tom da sua voz estava cansado. As olheiras debaixo dos seus olhos eram grandes demais. Eu não roubaria mais do seu tempo, eu fui direto ao assunto e contei a ela sobre meu dom, sobre a primeira vez que vi Jessamine no estacionamento, sobre o Outro Lado e o mal que o estava acometendo — deixei de lado que a culpa de tudo era do meu irmão e, parcialmente, minha.

Então, contei das almas sendo substituídas. Por sorte, ela tinha passado tempo o bastante com Marcus para perceber que havia algo errado, sendo assim, o que eu estava te contando não iria parecer tão absurdo. 

Quando disse para ela que o que estava no corpo de Nicholas não era mais ele, minhas panquecas já estavam frias. Carey me olhou. Ela não tirou os olhos de mim por um segundo enquanto falava. Em alguns momentos, vi suas sobrancelhas arqueadas e os lábios puxados para baixo como se estivesse lidando com um maluco.

Um silêncio desconfortável pairou entre nós. Eu não estava me aguentando de fome, então ataquei as panquecas enquanto esperava Carey processar tudo.

— Você está usando drogas?

— O quê? Não — eu respondi com a boca cheia. Peguei um guardanapo e limpei o xarope de maçã dos lábios — Eu sei como essa história pode soar para os outros. Por isso, eu mantive segredo por tanto tempo. Mas, se não acredita em mim, pergunte a Trenton. Ele nunca usaria drogas e não sabe mentir, então...

— Russell, o que você está me contando parece o plot ruim de um filme dos anos dois mil! — ela exclamou, irritada — Como você quer que eu... que eu acredite que um fantasma possuiu meu ex-marido?

— Ele não possuiu e fantasmas não é um termo muito apropriado. Nós chamamos de espectro, porque são matérias incorpóreas criadas no Outro Lado como um reflexo do que estava aqui antes — disse, tentando imitar o tom professoral de Jessamine, mas acho que apenas pareceu que eu estava inventando palavras — Carey, o problema com o Outro Lado é complexo demais e entendo sua relutância em acreditar em mim, mas pense em todos aqueles casos que resolvi... Você estava sempre me perguntando como eu fazia, como eu encontrava os padrões que ninguém, nem Owston, conseguia detectar. É isso. Os espectros me contam.

"O caso do gerente do banco que foi envenenado e, por um mês, ninguém tinha pistas de quem poderia ter colocado mercúrio no seu vinho. Mas o caso chegou para nós, eu fui até o apartamento dele e ele me contou que a amante tinha lhe servido aquela taça."

— Não, você encontrou a nota do vinho na bolsa dela — ela balançou a cabeça.

— Mas como eu poderia ter encontrado se ele não tivesse me contado que ela comprou um vinho château francês de 50 anos atrás, porque era o favorito dela?

Rhodes absorveu as palavras. Eu sabia que ela não estava pensando só nesse caso, mas em todos os outros que eu dei uma de Sherlock Holmes quando, na verdade, apenas tinha uma habilidade que herdei do meu irmão.

— Desde quando você vê... essas coisas? — Carey perguntou. Podia ver que ela ainda estava cética.

— Sete anos. Eu contei para minha professora uma vez. Ela me mandou para a psicóloga do colégio que me mandou para a psiquiatra até eu resolver parar de contar o que eu via e deixava de ver.

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