— Como você chegou aqui? — Assim que Jessie o reconheceu, ela se aproximou do seu lado e pegou a sua mão.
Eu sabia que era Thomas ali dentro agora, mas ainda era o corpo de Nicholas. A imagem dos dois se olhando como adolescentes apaixonados provocou calafrios na minha pele.
— Eu estava te procurando! — Nick se ajeitou na cama, parecendo recuperado.
Eu tinha uma teoria que os corpos sofrem a mesma morte que os espectros que entram no seu corpo sofreram, mas assim que a troca era feita, os sinais iam embora e apenas algumas marcas ficavam para trás, como a linha esbranquiçada na barriga de Jessie.
— Eu estava no Outro Lado e, um dia, senti um chamado tão forte que despertou meus sentidos. Era como se eu soubesse onde estava, como se eu fosse um Guia — Nick contou com a voz grossa e era difícil acreditar que ali estava um garoto de 19 anos, não um homem de 36 se passando por outro alguém.
Jessie engoliu em seco.
— Oh, Thomas, sinto muito. Isso provavelmente foi minha culpa... Acho que acabei te prendendo no Outro Lado.
— Mas isso é bom, certo? Você me trouxe de volta! Eu sabia que você era mais inteligente que toda sua linhagem — Nick/Thomas abriu um sorriso — Ainda estamos em Sheffield?
— Estamos bem longe de Sheffield — Jessie espremeu os lábios da mesma forma que fez quando me viu chorando na cozinha — Veja, é uma história complicada, mas há um mal destruindo o Outro Lado. Ele é um Guia da linhagem Bassford, mas ela se perdeu completamente depois que eu morri e esse cara... Ele é um espectro descontrolado. Ele está trocando pessoas vivas por espectros do Outro Lado. Foi o que aconteceu com você.
— Espere um minuto... — ele balançou a cabeça, confuso — Você morreu...?
— Cinco anos depois de você. Você deve se lembrar do barão de Rochester? Eu fui prometida a ele e, um dia, eu fugi. Ele me encontrou e... — Jessamine parou e o encarou. Thomas entendeu no mesmo momento.
— Eu não acredito que seu tio fez isso.
— Faz muito tempo, Thomas, não tem porquê se preocupar agora.
— Isso foi minha culpa.
— Como poderia ser sua culpa?
— Se eu não tivesse contraído a doença, eu... — Thomas suspirou.
Eu e você teríamos casado, era o que ele queria dizer. Eu me senti mal, parado ali perto dos dois como se fosse o intruso em um encontro entre um casal que não se via há muito tempo.
Mesmo que Jessamine tivesse me dito que eles nunca chegaram a ter esse tipo de relação, eu sabia que ela o amava.
— E quem é esse? — Thomas virou o rosto para mim. Sua expressão estava mais parecida com a de Nick quando me conheceu pela primeira vez e fiquei mais aliviado com isso. Não queria pensar em Nicholas tendo a personalidade boa de Thomas.
— Russell Montague. Ele é um Guia. Ele está me ajudando, na verdade, foi ele quem me trouxe de volta — Jessie explicou, segurando uma das mãos de Nicholas (eu ainda não conseguia assimilar que aquele homem que consumia cigarros como quem consumia água era o amor da vida de Jessamine).
A forma como ela disse que eu era apenas um Guia provocou um desconforto na boca do meu estômago que eu não sabia nomear.
— Thomas, precisamos conversar sobre muitas coisas, mas não aqui. Vamos tentar te tirar daqui — Jessamine encarou como se pudesse dizer com os olhos: "certo?".
— Thomas, me diga, você lembra de algo extraordinário durante seu tempo no Outro Lado ou talvez quando atravessou o véu? — eu perguntei.
Os olhos de Nick passaram pelo meu rosto como se analisassem se eu era ou não confiável. Muito similar à maneira que o próprio Nick me olhou pela primeira vez, mas havia uma certa inocência, uma centelha de honestidade no mar castanho dos seus olhos que nunca vi no ex-marido de Rhodes.
— Como eu disse, todo meu tempo lá é escuro... exceto pela vibração que eu sentia vindo de Jessamine — ele contou — Mas... Eu estava em um estado sonâmbulo... Tive alguns sonhos estranhos. Sonhei com meu pai organizando a biblioteca, porém seus olhos estavam pretos e os livros derretiam nas suas mãos. E havia também o rapaz no corredor...
— O rapaz? — franzi o cenho.
— Sim, ele tinha olhos diferentes, nunca vi nada parecido. Ele sorriu para mim e apontou para a porta no final do corredor que me trouxe até aqui. Se eu fosse mais religioso, teria achado que era meu anjo da guarda.
Eu desconfiava que seu "anjo da guarda" não tinha nada de celestial e era apenas Sam mandando uma mensagem para mim. Eu tinha certeza absoluta que Sam colocou Thomas no nosso caminho para nos desviar da nossa missão.
Pelo jeito que Jessamine olhava para Thomas, ela estava reconsiderando as palavras de Sam. Sua morte foi muito injusta. Não era possível controlar os atos dos homens, mas a morte de Thomas? Não havia ninguém a culpar a não ser a crueldade do destino.
Abri a porta do quarto para procurar Trenton e encontrar uma forma de conseguir uma licença para Nicholas. Eu dei de cara com ele e... Rhodes com uma expressão confusa.
— O que estava fazendo aí dentro? — ela perguntou. Antes que eu pudesse fechar a porta, ela avançou para dentro — Por que sua prima está aqui? Deuses, não me diga que você a conhece — Rhodes perguntou para Thomas que parecia tão confuso no corpo de Nicholas.
— Quem é ela? — Nicholas se virou para Jessamine.
— Quem sou eu? Você surtou, Nick? A doença afetou o cérebro dele? — ela se virou para mim, oscilando entre confusão e raiva.
— Carey, podemos conversar? — puxei seu braço, tentando pensar em que desculpas eu arrumaria dessa vez para encobrir a verdade. Da primeira vez (com Trenton), as coisas não deram certo e eu tive mais de um dia para pensar no meu discurso.
Trenton balançou a cabeça pra mim como se lesse meus pensamentos. Conte para ela. Ela precisa saber a verdade. Fechei os olhos. Mais uma pessoa estava sendo envolvida nisso, mas, pelo menos, eu poderia dizer para mim mesmo que, contando tudo a Carey, eu também a estaria protegendo de Sam.
— Mas...
— Eu e Jess ficaremos com Nick — Trenton disse com aquela voz pacificadora que era capaz de dispersar qualquer discussão entre eu e Rhodes.
Ela encarou o quarto: Nick que observava a confusão com os olhos de um drogado e Jessie que não ajudava muito segurando a mão de Nick daquela forma. Por fim, sua atenção se voltou para mim.
— Está bem.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Guia dos Mortos
FantasiUm fantasma de outro século e um detetive que não confia em ninguém estão prestes a entrar em uma missão arriscada e se envolver em uma relação impossível. Fantasmas existem. Russell T. Montague é capaz de ver fantasmas desde o acidente que matou t...
