O Natal

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O natal nunca teve um grande significado para mim. O mais perto que cheguei de qualquer comemoração foi aos cinco anos de idade. Mamãe ganhou um frango inteiro da nossa vizinha. Ela resolveu recheá-lo para o jantar e aproveitou que estava na cozinha para fazer biscoitos. Sam deu a ideia de confeitá-los como os bonecos de gengibre que víamos na TV e pendurar umas guirlandas velhas que tínhamos no porão na porta de casa.

Por uma noite, fomos uma família.

Então um dos amigos da mamãe bateu na nossa porta. Ela desapareceu pelo resto da noite e eu fiquei com Sam. Eu lembro de dormir no sofá com ele enquanto assistimos O Grinch.

Depois, as festas de natal se resumiram a brinquedos velhos doados ao orfanato e poder dormir uma hora mais tarde do horário de recolher. Desde então, eu passei a pegar todos os turnos de Natal na delegacia, já que ninguém queria ficar com eles.

A capitã Owston ficou surpresa quando pedi folga dessa vez.

Eu levei um espumante para a casa de Trenton. Nada que eu cozinhasse daria certo mesmo. Jessamine trouxe uma sacola do mercado com todos os ingredientes para fazer a torta de maçã da sua avó.

Ela, Trenton e Nathan ficaram na cozinha por horas. Eu saí para a varanda e acendi um cigarro. Trent morava no vigésimo andar de um prédio luxuoso do East Side. Presente dos seus pais. Da varanda, eu enxergava a cidade ficar branca com a neve que caía desde cedo.

Essa era a cidade que estava em risco por causa do meu irmão. Ela era feia, cheia de prédios e pessoas rudes.

É verdade que ela nunca me tratou bem, ela nunca me deu uma vida fácil, mas foi aqui que encontrei Trenton, Carey, Jessamine (de certa forma) e até mesmo Nathan.

Foi ela quem me fez a pessoa que sou hoje, porque eu não tive ninguém para me criar, ninguém para me dar os conselhos de vida que os avós normalmente davam, ninguém para você contrariar as ordens como os jovens faziam com os pais. Tudo que eu aprendi foi com Nova York.

Eu fiz um juramento para protegê-la e era exatamente o que eu faria.

— Russ?

Carey se aproximou da varanda. Eu não a escutei chegar. Ela usava um suéter azul escuro, calças pretas e o cabelo estava preso em um coque pequeno. Ela olhou feio para o cigarro na minha mão e franziu o cenho.

— Difícil largar hábitos antigos — apaguei o cigarro na pedra da varanda.

— Sei — ela abraçou o próprio corpo — Ouvi dizer que você irá numa missão em breve. O que isso quer dizer? Digo, eu devo me preocupar?

— Não, não é nada demais — falei.

Não havia como Sam me matar. Ele podia me torturar psicologicamente, provavelmente prender meu espírito no Outro Lado, mas não poderia levar meu corpo. Eu não era como os outros.
Não era um pensamento reconfortante, mas era o mais próximo de um que eu tinha.

— Ei, estamos servindo a mesa! — Jessie gritou para nós dois do lado de dentro do apartamento.

Trenton serviu o jantar. Ele estava feliz, mesmo que nós fossemos o grupo mais esquisito de todos.

Nós tomamos vinho, comemos a torta especial de Jessie, rimos quando Nathan contou do episódio da aranha na biblioteca e como Trenton foi o primeiro a correr para dentro do banheiro. Tudo parecia bem. Até mesmo Jessamine sorria como eu nunca a tinha visto sorrir.

E então eu soube que tinha tomado a decisão certa.

Era minha responsabilidade entrar no Outro Lado e expurgar Sam. Jessie merecia essa vida, mais do que eu mesmo.

— É verdade! Eu juro! — Rhodes dizia entre risos, depois de contar que quis virar policial depois de assistir ao Poderoso Chefão.

— Acho que você não entendeu o ponto do filme — Trenton riu. Ele já estava com as bochechas vermelhas e a língua enrolada. A noite seria longa pra ele.

— E você, Russ? — Nathan me perguntou, bebendo um gole do seu champanhe.

— Eu? — franzi o cenho. Os três se viraram para me encarar.

Eu engoli em seco, porque esse era o sonho de Sam depois que ele leu um livro do Sherlock Holmes para a escola. Quando eu fiz dezoito anos, apenas parecia o caminho mais razoável para seguir.

A academia admitia qualquer pessoa que demonstrasse boas notas no exame escrito e bom condicionamento físico. Ninguém ligava para o meu passado, nem para o fato de que eu vivia em uma casa de acolhimento para órfãos que atingiram a maioridade. Eu só precisava fazer o meu melhor.

— Parecia o caminho certo.

Ajudei a levar os pratos para a cozinha. Carey resolveu abrir outra garrafa de vinho na sala, o que não me parecia uma boa ideia considerando que Trenton já estava mais vermelho que o vestido de Jessie.

Jessie trouxe a forma vazia da sua torta e colocou na pia ao lados dos pratos. Eu parei e a encarei.

— Oi.

— Oi.

— Você está calada — comentei.

Depois do jantar, Jessie pareceu se retrair. E eu a conhecia o suficiente agora para reconhecer aquele olhar perdido.

— É besteira — ela deu de ombros — Eu só me senti estranha quando você, Trent e Carey falaram do seu trabalho... Eu não tenho esse tipo de memória do meu passado, porque meu passado é tão distante do passado de vocês que simplesmente não pertence a uma conversa distraída de natal.

— Jessie...

— Russ, você melhor do que eu sabe que eu não pertenço aqui.

— Ok, mas você está aqui agora — eu a interrompi — E você é jovem. Ainda pode criar todos os tipos de memórias que você poderá contar daqui a vinte anos. E se ninguém mais quiser ouvir sobre elas, eu vou estar lá para ouvi-las.

Jessamine me encarou por um bom tempo antes de abrir um pequeno sorriso.

Eu queria que ela soubesse que ela fazia parte das nossas vidas agora. Ela era parte da minha vida. As circunstâncias dela não eram as mesmas que as nossas, mas ela já deixou sua marca em todos nós.

— Você estará velho demais, provavelmente não escutará direito.

— Ha-ha. Engraçadinha.

Jessie riu. Eu beijei sua têmpora e tudo ficou bem novamente. Pelo menos foi o que eu pensei naquela noite.

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⏰ Última atualização: Apr 21, 2025 ⏰

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