A Verdadeira Anomalia

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Eu dormi no sofá na sala de funcionários da loja. Não sei porque diabos Nathan tinha uma sala de funcionários quando ele era o único que trabalhava nessa espelunca.

Os meninos e Jessamine começaram a trabalhar em um plano, pesquisando livros e traçando suas memórias do Outro Lado.

Eu queria contribuir e eu tentei, mas quando eu derrubei uma pilha de livros sem querer pela segunda vez, Nathan mandou eu arrumar alguma coisa para fazer. De qualquer forma, eu era inútil para eles, as palavras balançavam nas páginas e eu não conseguia focar sem pensar no meu irmão sozinho naquele lugar.

Os meus sonhos foram com Sam... Mas não era um sonho, eu percebi, era uma memória dos meus cinco anos. Sam me levou para passear no parque. O parque estava vazio. Era oito da manhã. Todas as crianças estavam na escola, exceto nós dois.

De repente, ele ficou assustado.

— O que aquele homem quer? — ele perguntou. Sua boca não se movia, mas eu podia ouvir sua voz na minha cabeça.

— Quem? — eu falei, sem entender para onde ele estava apontando.

Então, eu vi eu mesmo com trinta e três anos, mas havia sangue no meu rosto e nos meus braços. Meus olhos estavam brancos e brilhantes. Sam desapareceu. A versão mais velha de mim mesmo avançou e eu tentei correr, porém eu era pequeno, minhas pernas eram curtas e, rapidamente, o meu eu atual me alcançou. Ele estava prestes a atacar quando tudo escureceu e eu acordei sufocando no sofá da salinha.

Percebi que alguém batia na porta. Eu me levantei e puxei a maçaneta apenas para dar de cara com Nicholas... Bem, Thomas... Puta merda, eu nunca me acostumaria com isso.

— Senhor Montague, eu o atrapalhei?

— Não, eu já estava acordado — limpei a garganta — Você pode me chamar apenas de Russell, não precisa de toda a formalidade.

— Perdão. A forma como os senhores- vocês se tratam aqui é estranha para mim — ele disse — Eu queria pedir um favor.

Pisquei os olhos. Ainda estava um pouco grogue do sono. Atrás de Thomas, eu podia ver as janelas. O sol começava a surgir no céu.

— Certo.

— Eu não posso ficar. Esse corpo não me pertence e não quero que me empolgar com a ideia de uma segunda vida, a qual eu não tenho o direito — Thomas começou a falar, olhando nervosamente para as mãos — Eu sei que você pode dar um jeito e me levar para um lugar onde esse corpo possa dormir até o seu espectro voltar para ele.

Franzi o cenho, entendendo o que Thomas estava pedindo.

— Você tem certeza disso? Você falou com Jessie?

— É minha decisão, senhor Montague. Tenho certeza que Jessamine entenderá perfeitamente — ele me encarou e ele não era Nicholas, era o garoto de dezenove anos que passou mais de trezentos anos preso no entremeio dos mundos.

Eu me pergunto se ele sofreu nesse tempo que ficou preso a Jessamine. Espero que não. Ela odiaria saber que causou esse desgaste a alguém.

— Ok, eu falarei com Trent sobre isso.

— Obrigado — ele agradeceu com um sorriso fraco — Jessamine tem razão sobre você.

Thomas deu as costas para mim sem explicar o que ele queria dizer com aquela frase.

Eu e Trenton conseguimos uma vaga no mesmo hospital que Gerard ficou. Um conhecido de outro conhecido de Trent podia emitir um diagnóstico para entubar Nicholas por um preço considerável.

Antes que eu pudesse mandá-lo ir se foder, Trenton concordou e disse que faria a transferência ainda hoje. Eu não tentei brigar com ele por causa disso. Era uma batalha perdida.

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