Meus sonhos a noite são com Sam. Sam andando de bicicleta pelo nosso bairro. Sam e mamãe arrumando as compras nos armários da cozinha. Sam pedindo para que nossa mãe parasse de beber. Ela quebrando uma garrafa na parede e por pouco não atingindo a cabeça de Sam. O carro em alta velocidade. O choque. As assistentes sociais me levando para meu novo "lar".
Tinha quase certeza que Sam era capaz de manipular meus sonhos. Não sabia como, porém todas as noites mal dormidas só podiam ser por causa dele.
No dia seguinte, me mantive acordado.
Quando eu finalmente consegui levantar da minha cama sem sentir minha pele saindo do meu corpo, eu tomei um banho. Na verdade, banho é um nome sofisticado demais para o que eu fiz. Eu entrei debaixo do chuveiro, deixei a água quente atingir meu corpo e fiquei lá por uns bons minutos até Bolt começar a latir do lado de fora.
Eu fechei o chuveiro ao ouvir o som da campainha. Eu só esperava que não fosse a sra.Kang do apartamento do lado. Não estava com saco para lidar com suas reclamações sobre jovens que jogam bituca de cigarro na nossa calçada. Eu não poderia me foder menos para eles.
Vesti a primeira roupa que vi e atendi a porta. No momento em que vi seus cabelos loiros, eu desejei que fosse a sra. Kang.
— Você sumiu.
— Você disse que queria um tempo — Jessamine respondeu com seu jeito de "sabe-tudo".
— Mas você não tem para onde ir — respondi, largado a porta aberta e indo para a cozinha, porque dois dias sem comer estavam começando a fazer efeito em mim.
— Eu fiquei com Trenton.
Jessamine fechou a porta atrás dela e não disse mais nada. Eu me servi com cereais e leite, tentando não encará-la, porque eu sabia que se fizesse isso, provavelmente a perdoaria pelo que fez.
Eu sabia que estava direcionando toda minha raiva para ela. Depois do que Sam me contou, eu não conseguia mais identificar o culpado dessa história e, se eu não sabia de quem eu deveria ir atrás, como poderia saber todo o resto?
As palavras de Sam ainda ecoavam na minha cabeça. A história sobre minha mãe era a que mais me perturbava. Será que eu realmente passei minha vida inteira culpando a pessoa errada pela minha vida?
— Temos que conversar sobre isso, Russ — Jessamine me tirou dos meus pensamentos.
— Engraçado você dizer isso considerando que você sempre desaparece nessa hora — rebati, irritado.
— E você tenta escapar com seu humor sádico — ela falou. Eu me atrevi a olhá-la nos olhos — Parece que nós dois temos problemas com discussões.
Dei de ombros.
— Sam é... um caso complexo.
Ela não disse nada que eu já não soubesse. Jessamine sentou na cadeira e pareceu pesar suas palavras antes de falar.
— Eu conseguia identificar todos os Guias que chegavam no Outro Lado. Não foi diferente com ele. Eu sabia que, de alguma forma, ele pertencia à mesma linhagem que a minha — Jessie contou — Depois de um tempo, notei que ele permanecia lá, então, eu perguntei se ele queria me ajudar a manter o controle do Outro Lado. Sam não teve o treinamento de Guia, mas eu ensinei tudo à ele, inclusive todas as coisas que somos capazes de fazer no Outro Lado...
Desviei o olhar para os cereais no pote, imediatamente perdendo a fome. Sam havia dito algo sobre a força de Jessamine. Ele só esqueceu de citar que ela lhe ensinou tudo o que sabe.
— Parecia que tudo estava indo bem. Veja, nessa época, eu não sabia da história de Sam. Eu poderia ter tocado todas as memórias dele a hora que eu quisesse, mas eu não fiz, porque eu confiava nele. Mais do que tudo, eu estava aliviada por encontrar alguém na mesma situação que eu, alguém que não queria ir embora. Não achava justo invadir a mente dele desse jeito. Confiei em Sam.
— E, então, ele se revoltou e virou o Voldemort dos mortos?
Jessamine não estava com humor para qualquer piada, porque apenas me ignorou e prosseguiu:
— Ele começou a ter ideias, a falar sobre justiça e como nós poderíamos mudar as regras do Outro Lado se nos uníssemos — Jessamine rodou o anel no dedo — Em alguns momentos, cheguei a pensar que ele tinha razão, mas eu não o incentivei, disse que deveríamos continuar o nosso trabalho e não nos perturbar com os vivos. Sam pediu para que dividíssemos os territórios, eu o deixei sozinho e, então, a perturbação começou... Mas eu demorei a reparar no que estava acontecendo. Era tarde demais, Sam já tinha muito poder.
— Aquele não é mais Sam.
— Não — ela concordou — Eu estava tão enfeitiçada por ter alguém como eu ali que não investiguei Sam do jeito que deveria ter feito. Ele é um espectro violento e com poderes de Guia. Isso não deveria ser possível, mas o caso dele... Bem, houve muita violência na vida dele, não é?
Eu larguei minha comida no balcão. Não queria imaginar o que aconteceria comigo se eu morresse, eu também viraria um espectro violento como Sam?
— Sam era muito jovem — Jessamine respondeu como se pudesse ler meus pensamentos — De qualquer forma, foi nesse momento que percebi que precisava de você.
— Porque eu sou o irmão dele.
— Porque você é o Guia mais forte — ela corrigiu
Eu me virei e apoiei as mãos no balcão. Pela primeira vez desde a morte de mamãe e Sam, eu senti as lágrimas caírem pelo meu rosto. Não era justo o que estava acontecendo. Não era justo com Sam. Não era justo que eu tenha causado tanto sofrimento na vida dos dois quando eu nem sabia o porquê.
— Russ — Jessamine colocou uma mão no meu ombro.
— Eu não posso fazer isso, sinto muito, eu simplesmente não posso — A essa altura, eu já estava chorando como uma criança e se Jessamine ainda não havia entendido meu desespero, ela estava enxergando agora — Eu arruinei a vida deles e agora você quer que eu destrua meu irmão?
— Nada do que aconteceu foi sua culpa. Você não poderia saber. Você era apenas uma criança — Jessamine alisou meu cabelo e seu toque quase me fez relaxar no mesmo instante — E você não está mais sozinho.
Eu virei o rosto na direção de Jessamine e assimilei seus olhos castanhos, seu nariz levemente avermelhado por causa do frio, seus lábios rosados. Jessie desceu a mão até a curva do meu pescoço e se aproximou até encostar sua boca na minha.
Por um momento, ficamos nessa posição sem nos mover, apenas sentindo a maciez de uma boca contra a outra, como se ela pudesse absorver toda a dor que cantava no meu peito.
Jessamine começou a se afastar, mas antes que fizesse isso, eu agarrei seu pulso e a beijei de verdade. Ela me beijou de volta e, de repente, tudo que eu podia pensar era nela, no cheiro doce do seu cabelo, na pele quente da sua cintura, no modo como seu corpo se encaixava no meu. Nada mais importava.
Nós tropeçamos até a minha cama. Quando eu tirei sua blusa, eu vi a linha esbranquiçada que ia da altura da sua cintura até o centro do seu estômago.
— Isso...?
— Sim — ela respondeu, afastando o cabelo do rosto.
Eu não entendia como aquilo podia estar no corpo de Jessamine. Aquele corpo era o seu corpo que estava no Outro Lado e, de alguma forma, ele manteve o corte, mas isso a teria matado, então, seu corpo se readaptou.
Passei a mão pela linha acentuada e beijei cada ponto, cada outra cicatriz de Jessie, cada pedaço de história que estava escrito na sua pele.
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O Guia dos Mortos
FantasiUm fantasma de outro século e um detetive que não confia em ninguém estão prestes a entrar em uma missão arriscada e se envolver em uma relação impossível. Fantasmas existem. Russell T. Montague é capaz de ver fantasmas desde o acidente que matou t...
