O Organismo

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Levamos Nicholas para a loja de Nathan. Foi estranho ver aquele cara alto e de ombros largos, parecendo um investidor de Wall Street que se perdeu no caminho, entrando na lojinha de antiguidades dos Sheridan.

Thomas passou a viagem em silêncio. Eu imaginei que ele faria muitas perguntas como Jessie, sobre o carro, sobre as ruas pavimentadas, os prédios altos... sobre os nossos celulares. No entanto, ele ficou em silêncio, olhos fechados e o tempo todo ao lado de Jessamine.

— Thomas, esse é Nathan Sheridan. Ele é seu descendente — Jessie os apresentou.

— Uau. Isso é estranho — Nate comentou, coçando a nuca. Seu cabelo estava bagunçado e a roupa amassada. Imagino que ele estivesse dormindo quando Trenton ligou para que ele viesse até a loja.

— É um prazer, Nathan. Esses são todos nossos livros? — Foi a primeira vez que Thomas falou desde que saiu do hospital. Ele olhou, encantado, para as prateleiras.

— Sim, bem, admito que alguns dos nossos familiares falharam em preservar a biblioteca, mas a grande maioria está intacta.

— Os diários do seu pai estão aqui — Jessie puxou seu braço até a estante dos fundos com livros encapados. Thomas olhava para cada livro da mesma maneira que Jessamine quando apareceu aqui pela primeira vez. Seus dedos tocaram a encadernação com cuidado como se ela pudesse se desfazer ao seu toque.

Observei enquanto os dois tiravam um livro da prateleira e apontavam para algo que estava escrito ali.

— Deus, isso deve ser uma droga pra você. Imagine só conquistar a garota e, então, o amor da vida dela volta à vida — Nathan sussurrou ao meu lado. Eu me virei — Fala sério, você não engana ninguém.

— Cale a boca — disse, irritado — Eu vou comprar alguma coisa para nós comermos.

Eu saí da loja antes que Nathan pudesse encher meu saco sobre meus "ciúmes".

Eu não estava com ciúmes de Jessamine. Ela estava tendo uma segunda chance de falar com Thomas e ele não era um fantasma perturbado que guardou mágoa eterna pelo que ela nunca fez.


— Thomas, preciso que você diga tudo o que lembra sobre sua morte — Nathan falou.

Ele e Trenton estavam com seus notebooks abertos, pronto para anotar qualquer informação útil que Thomas soubesse.

Eu remexi nas batatas fritas que havia comprado. Elas já estavam murchas, mas eu precisava de alguma coisa para fazer com minhas mãos.

— Eu lembro de estar na minha cama. Já fazia três dias que eu não saía dela por conta da febre. No meio da noite, eu caí no sono e acho que foi nesse momento que eu... — ele olhou para Jessamine que assentiu — Depois disso, tudo é preto. Eu tenho apenas essa memória esquisita de quando minha mãe e eu fomos para Bath. Eu tinha sete anos. Não sei como lembro disso, mas os detalhes parecem mais vivos que o normal.

— É o Outro Lado — expliquei. Todos se viraram para mim — Ele se segura às suas lembranças mais fortes. Ruins ou boas.

— Como um organismo vivo — Trenton repetiu — Então se alguém controla ele, ele não deveria lutar de volta?

— Não quando a coisa lutando contra ele é um deles — Nathan disse. Um arrepio subiu pelos meus braços. Eu precisava me lembrar de que aquele não era meu irmão — O que mais você se lembra?

— Uma força me puxando constantemente. Em algum momento, ela sumiu e, então, outra coisa começou a me puxar, mas era forte demais e aí eu acordei aqui — ele explicou, puxando uma pele solta do dedo sem perceber.

— Você acha que isso foi uma mensagem? Colocar Thomas no corpo de Nick? — Trenton me perguntou.

— É claro que foi. Nosso encontro aparentemente não foi tão agradável para ele.

— Como ele é? — Nathan perguntou e eu podia falar a verdade para eles aqui e agora, mas algo me segurou.

— Como o adolescente de dezesseis anos que era antes de morrer.

— Ele deve ser alguém muito poderoso. Ninguém deveria ter tanto poder no Outro Lado — Thomas falou, balançando a cabeça de Nick.

— O que vamos fazer? — Trent suspirou.

Ninguém na mesa tinha uma resposta para essa pergunta. Sam não seria convencido a parar os ataques tão fácil assim. Ele não era o Sam que eu conheci, ele era um espectro feito de raiva e ódio, e nenhuma razão poderia ser colocada na sua cabeça.

Sam precisava ser destruído.

O Guia dos MortosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora