ISABELLA MILLER
Faz alguns dias que o gatinho estava morando conosco. Darcy não reclamou de tê-lo aqui, na verdade, até gostou da ideia de ter um novo morador em casa.
Banguela já tinha explorado toda a casa, e o lugar onde ele mais gostava de ficar era nas camas e no sofá. Eu e Isaac revezávamos quem teria a companhia do Banguela no quarto a cada dia. Um dia era o meu, e no outro, o dele.
Está sendo uma experiência divertida ter um animal de estimação. Posso dizer que me considero uma mãe, pois é uma grande responsabilidade cuidar dele.
— Você está me ouvindo, Isabella? — Darcy cutuca meu braço e eu me viro para olhar para ela.
— Desculpa, estava distraída. O que você estava dizendo?
— Perguntei se seus pais já te ligaram? — Estamos juntos tomando café da manhã. Isaac com sua torrada com geleia de morango e um suco, Darcy com um pão com manteiga e café, e eu estou com uma tigela de cereal e suco.
— Ainda não. — Eu não sabia se me sentia aliviada por eles ainda não terem ligado para falar comigo ou se sentia medo.
Tenho certeza de que a universidade já comunicou o trancamento da minha matrícula, e isso está me apavorando. Eu sei que, no fim das contas, nada vai acabar bem; eles não vão aceitar isso de bom grado.
— Talvez estejam pensando em uma forma de conversar com você. — Darcy me acompanha enquanto recolho meu prato e copo e os coloco na pia.
— Me desculpa, amiga, mas você coloca muita fé nos meus pais. — Ela sorri com um ar triste, e eu retribuo com um sorriso alegre. Não quero que ela se entristeça por algo que não foi culpa dela.
— Pronta? — Isaac faz o mesmo que eu, deixando tudo dentro da pia.
— Sim. — Eu e Isaac estamos indo mais cedo para o restaurante, para deixar as coisas organizadas com antecedência.
Eu estava indo para organizar, mas no fundo, meu verdadeiro objetivo era ir comer o que Isaac estava preparando.
Isaac aproveita essas horas para experimentar novos pratos, e eu estava adorando provar de tudo.
*
Passo pela porta da cozinha com um pedido novo e o penduro no trilho antes de sair novamente.
Olho ao redor e me deparo com o que menos queria ver naquele momento.
— Esse cara de novo. — Solto um suspiro.
— O que foi? — Ben para ao meu lado, seguindo meu olhar para o mesmo lugar.
— Aquele cara da mesa perto da porta, ele tem vindo quatro dias seguidos e sempre quer ser atendido por mim. Ele faz questão disso, até mesmo quando outro garçom tenta atendê-lo, ele pede para me chamar. — Ben arregala os olhos.
Faz perguntas meio esquisitas, considerando que não o conheço. É meio estranho ele perguntar como está sendo meu dia, se estou cansada, se trabalho todos os dias ou se pego folga. Não sei, ele me traz um ar meio estranho.
— Ele te fez alguma coisa? Eu posso resolver isso! Me fala, ele te fez algo? — Ben soa preocupado, sua expressão é quase protetora. É bonito ver o cuidado que tem.
— Não, não me fez nada. Só faz perguntas meio sem pé nem cabeça. — Pego um cardápio no balcão e solto um sorriso tranquilizador para ele. — Pode ficar despreocupado, se algo acontecer, vou te contar.
— Estou falando sério, Isabella! Se ele te fizer algo, me avisa. — Dou um joinha com a mão livre e me dirijo ao sujeito que já estava recusando ser atendido por Mia.
Ela olha para trás, procurando por mim, mas para quando me vê indo em direção à mesa onde está o cliente.
— Pode ir, Mia. Eu dou conta aqui. — Ela me lança um olhar do tipo "qualquer coisa me chama", deixando claro que ela também acha esse cara estranho.
Volto meu olhar para o sujeito, que tinha um sorriso no rosto.
— Aqui está o cardápio. — Coloco-o em sua frente e dou um passo para trás, já prevendo seu pedido habitual.
— O de sempre. — Ele confirma, pedindo os frutos do mar com massa ao molho branco.
— Já irei trazer seu pedido. — Antes que eu possa sair dali, ele faz uma pergunta.
— Você está livre amanhã? — Olho para ele confusa. — Queria convidá-la para um jantar.
— Eu acho que não estou entendendo onde quer chegar. — Eu estava me fazendo de desentendida, embora soubesse muito bem onde essa conversa iria chegar.
— Gostei de você desde que coloquei os pés nesse restaurante e queria te conhecer melhor fora daqui. — Que vontade de fugir!
— Me desculpe, mas isso não vai acontecer. — Não queria ser rude, mas era impossível.
— Qual é? Eu posso esperar pelo seu dia de folga, não tem problema. Eu não tenho pressa! Você é bem bonita, é meu tipo ideal.
— Como eu disse, eu não vou sair com o senhor. — Minha cabeça estava fervilhando.
Odiava essas situações, e esses caras sempre acham que são perfeitos e que eu vou aceitar qualquer coisa deles.
Ele continuava falando sem parar, enquanto eu olhava ao redor tentando encontrar alguma ajuda. Foi quando avistei Isaac conversando com Ben perto da porta da cozinha. Isaac estava usando um avental um pouco sujo e gesticulava enquanto falava.
Uma ideia surge rapidamente, e mesmo sendo um tanto absurda, decido considerá-la. Precisava de uma saída dessa situação ridícula.
— Olha, é só um encontro e eu sei que você vai gostar de mim, eu sou bonito, cuido da empresa dos meus pais, tenho bastante dinheiro e sou novo....
— Está vendo aquele cara que está com o avental branco? É meu namorado e ele não gosta quando caras dão em cima de mim.
— Aquele cara é seu namorado? — Ele olha na mesma direção que estava apontando.
— Sim, é.
Estou ferrada.
•••
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Olhares Amargos
RomanceA vida de Isabella Miller é um autêntico turbilhão: cursa direito por influência dos pais e divide o apartamento com uma amiga. No entanto, sua rotina se torna ainda mais agitada quando se depara com um desconhecido no sofá de casa. Isaac Williams...
