CAPÍTULO 16

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ISAAC WILLIAMS


Alguns dias haviam se passado desde o acordo que fiz com Isabella. Ficamos bem mais próximos depois disso, o que parecia um tanto estranho para quem nos observava, especialmente para nossos amigos.

Ben já tinha me perturbado o suficiente para quase me fazer surtar. Ele lançava piadinhas de um lado para o outro e, quando não falava em voz alta, usava indiretas. Só um bobo não perceberia suas gracinhas.

Decidimos ser mais evidentes, mas nada muito forçado, para não levantar suspeitas. Até eu achava estranho às vezes. Não que a presença da Isabella fosse chata ou desconfortável, mas era esquisito fingir estar em um relacionamento.

Nossa proximidade me deixava nervoso e ansioso ao mesmo tempo. Sentia-me tenso por tê-la tão perto de mim.

— Você vai deixar os camarões passarem do ponto! Vão ficar borrachudos. — Rapidamente, volto meu olhar para a panela e apago o fogo. Se deixasse por mais alguns segundos, teria perdido os camarões.

— Desculpa, meus pensamentos estavam na lua. — Antônio ri, e minhas sobrancelhas se juntam. — Qual é a graça?

— Tem certeza de que era a lua em que estava pensando? Ou estava pensando em uma criaturinha pulante e alegre? — Reviro os olhos com desdém.

— Está falando de uma pulga? — Antônio ri alto.

— Deixe ela ouvir isso, vai te caçar até a morte. — Aceno com a cabeça, confirmando. Não duvidava que Isabella pudesse me matar ao ouvir isso sair da minha boca. — Vocês acham mesmo que ninguém percebeu a aproximação de vocês nesses últimos dias? Juntos, conversando e dando risadinhas por todos os cantos. Estou até enjoado de tanta purpurina e arco-íris.

— Não exagera! Amigos conversam, não sabia?

— Amigos? Vocês não são amigos, vocês estão além de amigos. — Reviro os olhos.

— Sabia que você fala muita besteira? Com uma frequência absurda. — Ele ri.

— Será mesmo que eu só falo besteira? Ou será que tenho certeza do que estou falando? — Não o respondo, até porque não saberia como responder.

Meus olhos se voltam para a porta, que se abre e fecha num breve instante. Isabella entra, ofegante. O restaurante estava repleto hoje, com mesas ocupadas por clientes animados e conversas ecoando pelo ambiente. Tenho certeza de que Isabella estava correndo de um lado para o outro, lidando com o movimento agitado do restaurante.

— Mesa 10 quer falar com você, Isaac. — Ela me avisa, inclinando-se para perto enquanto ajusta o avental. — Parece que é só para elogiar a comida. O casal está tão feliz que não pode ser algo ruim.

Solto um suspiro de alívio, agradecendo pela notícia tranquilizadora. Assinto com a cabeça em concordância e lanço um olhar para Antônio, que já entende o recado sem que eu precise dizer uma palavra. Embora houvesse mais dois membros na equipe da cozinha, confiava especialmente em Antônio para lidar com essas situações.

Caminho em direção à porta e sussurro no ouvido dela.

— Precisamos conversar mais tarde. — Ela me olha nos olhos e acena.

Saímos os dois da cozinha, lado a lado, mas nossos caminhos se separam rapidamente: Isabella segue em direção a uma mesa onde duas mulheres acabaram de sentar, enquanto eu me dirijo à mesa 10.

*

E como Isabella tinha previsto, o casal estava radiante e cheio de elogios para a comida. Eles não economizaram em expressar sua satisfação, detalhando cada prato que experimentaram e declarando que planejavam retornar ao restaurante em breve.

Fiquei especialmente feliz com os comentários, sentindo uma mistura de orgulho e alívio por ver que o esforço na cozinha estava sendo reconhecido pelos clientes.

O dia passou voando, mas a agitação e o cansaço foram intensos. Todos na equipe estavam esgotados após um dia movimentado e exigente.

Ouço a porta da cozinha abrir e Isabella passa como um jato, indo em direção à porta dos armários. Com toda certeza, ela queria ir embora o mais rápido possível.

Escuto algumas risadas do lado de fora e me aproximo da janelinha. Ben e Darcy estavam rindo perto do balcão.

Todos já tinham ido embora, e o restaurante estava quieto, exceto pelo som suave de música ambiente. Isabella permaneceu para limpar o salão, enquanto eu assumia a responsabilidade de arrumar a cozinha após um dia movimentado.

Enquanto organizava os utensílios e limpava as bancadas, Isabella apareceu no meu campo de visão. Ela havia retirado o avental e carregava sua bolsa no braço direito.

— Tem que ser agora. — Ela me olha confusa.

— Tem que ser agora o que? — Ela se aproxima, curiosa.

— Contar para eles que estamos namorando. — Os olhos dela se arregalam no mesmo segundo.

— Agora? Não pode ser daqui mais alguns dias? — Ela balança a cabeça em negação.

— Agora. Antônio já percebeu nossa aproximação e Ben está me tirando do sério com as piadinhas. — Ela coloca a mão no rosto, fechando os olhos com força.

— Darcy também não está me deixando em paz, já me fez umas mil perguntas.

— Mais um motivo para contarmos logo. — Mesmo querendo contar logo sobre o namoro, eu estava absurdamente ansioso.

Isabella respira fundo e acena com a cabeça.

— Certo, não tem para onde fugir. — Ela faz menção de sair da cozinha, mas eu seguro seu braço, pedindo para ela me olhar.

— Sua mão. — Ela olha confusa. — Me dê sua mão.

Ela me observa por um momento antes de esticar a mão na minha direção. Meus movimentos são rápidos para não perder a coragem. Nossas mãos se entrelaçam.
O rosto dela fica vermelho como um tomate maduro, suas bochechas tingidas de um rubor intenso, enquanto nossas mãos entrelaçadas transpiram nervosismo.

Respiro fundo antes de guiá-la para fora da cozinha, nossas mãos unidas no gesto que revelaria nossa verdade aos nossos amigos, atraindo seus olhares curiosos e surpresos.

Um formigamento percorre minhas mãos, um misto de nervosismo e excitação enquanto nosso segredo é revelado.

Ben sorri com malícia, enquanto Darcy, surpresa, processa a informação com os olhos arregalados e a boca entreaberta.

— É o que estou pensando? — Darcy pergunta, enquanto Isabella aperta minha mão com mais força.

— Depende do que você está pensando. — Digo com um sorriso no rosto, tentando parecer o mais tranquilo possível.

— Vocês estão juntos? — Isabella parece que nem conseguia abrir a boca.

— Sim, estamos namorando. — O rosto de choque da Darcy desaparece rapidamente e é substituído por um sorriso de orelha a orelha.

— Quem diria, chamava a Isabella de maluca e agora está namorando ela. — Isabela olha para mim com raiva.

Darcy dá um tapa no braço de Ben com força.

— Me chamava de maluca? — Gostava desse lado dela, toda irritada.

— Nunca te chamei de maluca, mas nos meus pensamentos, talvez. — Ela arregala os olhos.

— Que tipo de namorado é esse que acha a namorada maluca? — Isabella começa a bater os pés no chão, nossas mãos já não estão mais entrelaçadas, o que me deixou agoniado.

— O tipo de namorado que acha sua maluquice a coisa mais adorável do mundo.

•••

Olhares AmargosOnde histórias criam vida. Descubra agora