ISABELLA MILLER
— Não prometo ficar quieta! — Solto uma risadinha. — Posso começar?
Ele respira fundo, acena com a cabeça e começa a cortar as verduras com cuidado.
Agora posso liberar toda minha agonia e tristeza. Precisava desabafar minha frustração, mesmo que fosse com o rabugento que mora comigo.
— Foi terrível! Eu nunca me senti tão triste e miserável como naquela sala, com todos olhando para suas provas e querendo quase correr de lá.
Isaac para de cortar e me observa com um olhar confuso.
— Mas você não estudou? Como você não sabia de nada? Eu te vi trancada naquele quarto. Você ficou nervosa e esqueceu tudo? — Parecia óbvio que eu me esforçava muito nos estudos, e por isso era difícil de explicar.
— Estudei bastante, mas é extremamente difícil quando o assunto não me interessa, ou pior, quando mal consigo olhar para ele. — Estava profundamente frustrada, e não era para menos. É um sentimento realmente ruim.
— Isabella, por qual motivo você está cursando algo que nem gosta? — Sua expressão transmitia curiosidade, mas havia algo mais por trás, algo que eu não conseguia decifrar completamente. A pergunta ecoava em minha mente, ecoando minhas próprias dúvidas e conflitos internos.
— Meus pais. — Não era um assunto que eu gostava de abordar, mas estava cansada de toda essa pressão. — Eles querem que eu me forme em Direito, assim como minha irmã. Sempre foi o sonho deles que as filhas seguissem uma carreira que eles próprios não puderam realizar. — A frustração se misturava com a determinação enquanto eu explicava a complexidade da situação.
— Deixa eu ver se entendi: seus pais tiveram um sonho não realizado, e agora estão tentando te obrigar a seguir um caminho que não é o seu para realizá-lo? — Era irônico como esse sonho deles sempre foi mais evidente para eles do que para mim. A constante comparação com minha irmã só aumentava minha frustração. A única razão para seguir esse caminho era para, pelo menos, tentar trazer um pouco de orgulho para eles.
Eu não tinha nenhum problema com minha irmã; ela sempre me apoiou a perseguir meus próprios sonhos, em vez dos nossos pais. No entanto, as constantes comparações eram tão óbvias que eu só queria um pouco de reconhecimento por parte deles.
Lilyam sempre foi contra as ideias dos meus pais. Ao contrário de mim, ela sempre sonhou em se tornar uma advogada. Ela sempre discutiu com eles sobre seguir esse caminho. Tivemos inúmeras discussões, mas sempre acabavam no mesmo ponto.
Eles queriam realizar os sonhos deles através das filhas.
Até que um dia, cansei das comparações, das discussões intermináveis e das conversas infrutíferas.
Estudar na San Diego State University foi a realização de um sonho para mim, mesmo que não tenha sido cursando algo que eu realmente desejava.
Olho para frente e vejo um Isaac, aguardando minha resposta.
Estava com a cabeça nas nuvens e tinha me esquecido de que ele ainda estava ali.
— Sim, estou realizando um sonho deles. — Ele solta um suspiro e volta-se para apagar as bocas do fogão.
— Isabella, deixa eu te dizer uma coisa. — Ele pausou por um momento, como se buscasse a melhor maneira de expressar o que estava sentindo. — Este é o sonho deles, não o seu. Você tem que fazer suas próprias escolhas, seguir seu próprio caminho. Não deixe que a pressão deles o afogue, porque esta é a sua vida, não a deles. Eles podem ter sonhado com isso, mas isso não significa que seja o que você precisa ou quer. Você merece encontrar sua própria felicidade, seguir seus próprios desejos e ambições. Não se prenda a um destino que não seja seu. Siga o que te faz feliz.
Eu não consigo descrever exatamente o que estava sentindo naquele momento. Acho que era uma mistura de alegria e tristeza. Alegria porque, finalmente, alguém estava reconhecendo o peso que carregava, tristeza porque sabia que não estava seguindo meu próprio caminho. No entanto, foi reconfortante ouvir as palavras de Isaac. Foi como um tapa na cara, um despertar para a realidade que eu estava evitando enfrentar.
— Nossa, parece que você conseguiu seguir seu próprio caminho. — Ele deixou escapar um sorriso singelo no rosto.
— Consegui, mas tive muitos obstáculos pela frente, e um deles foi meu pai. — Ele me entendia bem porque passou pelo mesmo problema.
Eu queria perguntar mais coisas para ele, mas sentia que ainda não era o momento. Só porque ele compartilhou algo, não significa que esteja pronto para contar tudo sobre sua vida.
Ficamos um tempo se olhando até ele desviar o olhar.
— Você sabe se a Darcy vai dormir em casa? — Nego com a cabeça.
— Ela vai dormir na casa do Ben. — Ela me avisou mais cedo, sempre nos informamos quando vamos ficar fora, para que nenhuma fique preocupada com a outra.
— Certo, vá guardar sua bolsa e venha jantar antes que a comida esfrie.
— Uhum, também vou tomar um banho antes. — Ele balança a cabeça.
Levanto-me da banqueta e caminho em direção ao corredor dos quartos. Preciso tomar uma decisão sobre minha vida, e rápido.
•••
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Olhares Amargos
Roman d'amourA vida de Isabella Miller é um autêntico turbilhão: cursa direito por influência dos pais e divide o apartamento com uma amiga. No entanto, sua rotina se torna ainda mais agitada quando se depara com um desconhecido no sofá de casa. Isaac Williams...
