CAPÍTULO 17

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ISABELLA MILLER

Conseguia sentir minhas bochechas queimarem; meus olhos ainda estavam no Isaac, mas me viro rapidamente para o casal na minha frente.

Eu sabia que Isaac só falou isso porque eu tinha dito para ele ser mais afetuoso e amoroso. Mas mesmo assim, não tinha como não sentir vergonha; tinha sido bonitinho o que ele tinha dito, mesmo que tenha sido mentira.

- Meu Deus! Vocês estão iguais ao que o Antônio me contou, soltando purpurina pelos cantos. - Ben finge querer vomitar.

- Para com isso. - Darcy cutuca a barriga dele. - Eu achei uma gracinha, e não finja que você não é grudento e romântico, você me lança cantadas horríveis. - Ben coloca a mão no peito.

- Você fala que gosta das minhas cantadas! - Ele diz indignado.

Olho para o lado e Isaac está tentando conter a risada, e eu estou do mesmo jeito.

- Amor, eu gosto... mas é porque é você que está contando, mesmo que sejam ruins. - Ben arregala os olhos.

- Um soldado abatido! Quer um lenço, Ben? - Ele me lança um olhar mortal.

- Pode parar de provocar meu namorado. - Darcy abraça ele de lado.

- Vocês são estranhos. - Isaac murmura baixinho, mas todo mundo consegue ouvir.

- Vou fingir que não ouvi isso. - Ben fala, passando a mão pelos cabelos.

- Ótimo, preciso de um favor seu. - Nos três olhamos para Isaac, que estava com uma expressão calma.

- Me chamou de estranho e ainda quer um favor?

- Isso mesmo, preciso da chave do restaurante para amanhã. Quero trazer a Isabella aqui à noite. - Fico confusa, ele não me falou nada sobre isso.

- O que você quer fazer com ela aqui à noite? - Ben estreita os olhos, mas logo um sorriso enorme aparece em seu rosto. - Opa! Opa! Aqui tem câmeras de segurança, viu? Não quero nada de safadezas no meu restaurante. - Meus olhos quase saltam das órbitas, e meu corpo se inflama de tanta vergonha.

- Para de falar besteira, não é nada disso. - Olho para Isaac, que mantém a expressão inalterada, como se não tivesse sido afetado pela fala de Ben. - Vai emprestar?

- Vou, mas juízo vocês dois.

*

Isaac abre a porta do apartamento e entra, já tirando os tênis e colocando-os no porta-sapatos. Ele pega um par de chinelos e os calça. Caminha pelo corredor, enquanto eu sigo para a sala e me jogo no sofá, sentindo o cansaço do dia.

Fecho os olhos por alguns minutos. De repente, sinto algo pesado sobre a minha barriga. Não precisava pensar muito para saber que era o Banguela, se acomodando confortavelmente. Ele se ajeita, ronronando suavemente.

Ele se aninha ainda mais em mim enquanto eu faço carinho em seus pelos macios. Ele adora quando fico assim, apenas acariciando seus pelos.

Ouço passos vindo do corredor e o som de um pote balançando. Era a ração da bola de pelos. Ao escutar esse barulho, ele se anima e sai do meu colo, indo até Isaac, que estava colocando a ração no potinho.

- Que gato traidor, me troca por ração. - Isaac ri.

- Ele só não é bobo. - Seus passos se afastam da sala. Solto um resmungo e me sento no sofá.

Olho para trás e vejo Isaac imerso nos armários da cozinha, procurando algo com um olhar concentrado. Ele está vestindo uma calça de moletom, e uma camiseta branca que destaca sua pele tatuada. Seus cabelos estão úmidos, provavelmente acabou de tomar banho.

- Ontem eu e a Darcy compramos pizza congelada. - Ele se vira para mim e ergue as mãos no ar.

- Ótimo, não queria preparar nada. - Solto uma risada. - Por que não vai tomar um banho? Eu coloco a pizza no forno e arrumo a mesa enquanto isso.

Aceno com a cabeça e dirijo-me ao meu quarto para pegar uma roupa mais confortável e limpa. Realmente, precisava de um banho. Urgente!

Saio do banheiro, ainda sentindo o frescor do banho, e deixo as roupas sujas no cesto que fica no corredor. Seguindo em direção à cozinha, encontro Isaac, com uma expressão tranquila e concentrada, cortando a pizza em fatias perfeitamente proporcionais. Ele coloca dois pedaços em cada prato.

Vou em direção ao banco e me sento, e ele faz o mesmo. Começamos a comer, ambos famintos após um longo dia de trabalho. Um silêncio confortável paira entre nós enquanto saboreamos a pizza. No entanto, minha mente está agitada com perguntas. Quero saber por que iremos ao restaurante amanhã, especialmente sendo o nosso dia de folga.

- Pergunta.

- Quê?

- Você quer me fazer uma pergunta. - Esse cara é algum tipo de bruxo? Ou ele lê mentes?

- Como você sabe que eu quero te fazer uma pergunta? - Ele deixa o garfo no prato e me olha com curiosidade.

- Você começa a me olhar muito e faz muitas caretas, parecendo que não sabe como perguntar. - Explica. Eu fecho os olhos brevemente antes de fitá-lo novamente.

Pensei que disfarçava bem, mas pelo jeito sou péssima nisso.

- Certo, quero saber o que vamos fazer amanhã no restaurante? - Ele corta mais um pedaço de pizza e leva a boca.

- Vai ser o primeiro encontro. - Arregalo os olhos.

- Como assim o primeiro encontro? No restaurante?

- Isso, o primeiro encontro. - Ele me olha com desdém.

- Que encontro é esse que a gente vai para o restaurante?

- Você vai ter que esperar para ver. - Ele sorri e dá de ombros.

•••

Olhares AmargosOnde histórias criam vida. Descubra agora