Capítulo 21

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(Arthur)

A observo dormir tão pacífica e linda que sinto um aperto no meu coração. Só de lembrar do jeito que ela disse aquela palavra, sinto minha pressão subir e uma enxaqueca horrível começar. Entendo que ela estava com raiva, mas nunca vou aceitar ela propor qualquer ideia de separação. A única possibilidade para nos separarmos é com a minha morte, e ainda assim, se existir outra vida, eu a assombraria para sempre.

Dou um beijo na sua testa e tento sair da cama da maneira mais silenciosa possível. São quase duas da manhã, mas o que tenho que fazer não pode esperar. Não vou conseguir pregar o olho enquanto não falar com o Marcelo.

Pego uma calça de moletom do closet, e dando uma última olhada na minha menina saio do quarto. Decido ir para o lugar mais longe possível da minha esposa, para não ter a mínima chance dela acordar e me achar gritando no celular com o meu primo.

Quando finalmente chego ao pátio de trás da casa, tiro meu celular e tenho que ligar duas vezes até Marcelo finalmente atender.

- Que porra aconteceu, Marcelo?

Meu primo fica em silêncio por alguns segundos, até que escuto um barulho de movimento e uma porta se fechando antes dele me responder com uma voz baixa e arrependida.

- Só posso te pedir desculpas, meu irmão. - Marcelo respira profundamente antes de continuar - Aquela puta chegou aqui em casa ontem chorando, disse que ia tentar se matar novamente e a Júlia surtou. Você sabe como é a minha mulher, ela tenta manter a irmã a uma distância segura, mas não pode aguentar a ideia dela se machucar. Tentei deixar a Gabriela em casa hoje, mas ela disse novamente que ia se matar e a Júlia me implorou para trazê-la. Sinto muito.

Passo minha mão pelo meu rosto em uma tentativa de me acalmar, porque a minha vontade é dar um soco na cara do Marcelo.

- Caralho, achei que a família toda havia deixado bem claro para a Júlia que a irmã dela não poderia mais chegar perto de mim.

- Sabemos bem disso, Arthur. E minha mulher já teve que aguentar nossos pais a recriminando, isso não vai se repetir. - sua voz é contida e tenho certeza que deve ter sido uma briga absurda se alguém ousou falar alguma coisa contra a esposa dele - Júlia deu um ultimato para a irmã hoje, ou ela se interna em uma clínica psiquiátrica ou vai cortar o contato de vez. Vamos levá-la amanhã.

Fico em silêncio considerando suas palavras, e não sinto nada a não ser ódio. Gabriela conseguiu matar qualquer sentimento de carinho e empatia que já tive por ela.

- Tudo bem, agora o estrago já está feito.

- Sinto muito mesmo. Júlia quer marcar algo aqui em casa para se desculpar com você e com a Manu. Significaria muito para mim se você fizesse isso acontecer, está me matando ver a minha mulher tão triste e envergonhada.

Exalo sem paciência, porque a última coisa que me importa agora é fazer a mulher dele feliz.

- Podemos ver isso depois. Tenho que ir, boa noite. - desligo antes de deixar ele dizer mais alguma coisa.

Essa ligação não fez absolutamente nada para dissipar a raiva que estou sentindo. Isso não podia ter acontecido, Gabriela não é mais ninguém na minha vida, não falo com ela há pelo menos uns doze anos. E agora, além de toda merda que estou lidando, tenho que aguentar essa porra de fantasma na minha vida.

Volto para meu quarto ainda inquieto e irritado. Tiro minha calça e faço o possível para subir na cama sem acordar a minha menina, mas assim que a abraço sinto que ela está acordada.

- Sentiu minha falta, amor? - passo meu nariz pelo seu pescoço beijando sua pele atrás da orelha.

- Onde você foi? - sua voz sonolenta me faz sorrir e o ódio que estava sentindo se dissipa - Que horas são?

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