Capítulo 25

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 (Manoela)

Meu celular se ilumina pela centésima vez da mesinha de cabeceira, e apenas me viro para o outro lado. Já perdi a conta de quantas notificações apareceram na tela desde ontem, mas Arthur não desistiu de tentar me fazer falar com ele. Suas mensagens vão desde pedidos de desculpas até ameaças de vir me buscar de qualquer forma. Não o respondi apenas por estar exausta de tudo isso, mas não vejo qual o grande problema em estar no meu irmão se ele ia me despachar para os pais dele.

Partiu meu coração o jeito com que ele falou comigo ontem, sem nenhuma intenção em me escutar, como se o que eu quisesse não tivesse relevância dentro dos planos dele. Ele me vê como uma pessoa completamente diferente do que sou, e tenho estado angustiada pensando que talvez ele não me ame pelo meu verdadeiro eu, e sim pela versão que ele criou de mim. De uma menina imatura, incapaz e submissa, que vai dizer sim a qualquer ordem que ele der.

Me viro novamente olhando para o teto do quarto de hóspedes do Heitor, e me sinto completamente vazia. Acho que alguma coisa quebrou dentro de mim na noite passada, e nem mesmo chorar estou conseguindo mais. Não consigo esquecer as suas palavras, a forma como ele ignorou minhas súplicas, a frieza com que ele decretou que eu iria fazer o que ele queria e ponto final. Me senti insignificante e pela primeira vez tive medo do Arthur. Medo de como essa situação poderia ser diferente se não tivesse meu irmão, porque ele poderia me controlar completamente. Sabia que o homem com quem me casei era dominador, possessivo, obcecado, mas nunca imaginei que ele poderia ser tão egoísta.

E a prepotência dele me deixa perplexa. Desde o começo me irritou como tudo era no tempo dele, do jeito que ele queria, mas relevei porque vi seu ponto. Fazia sentido ele esperar que eu amadurecesse e tivesse um pouco de experiência antes de finalmente ficarmos juntos, mas ele continua me tratando como se eu fosse uma criança. Arthur acha que é muito mais inteligente e capaz do que eu, e tudo bem, ele é maravilhoso, mas eu também sei lidar com adversidades. Se ele parasse um minuto para tentar me enxergar de verdade, me ver como a mulher competente que sou, ele saberia que posso aguentar qualquer coisa que esteja no nosso caminho. Com tanto que ele fique ao meu lado.

Saber que meu marido prefere que eu vá para longe para não atrapalhar o que ele está fazendo, como se minha presença fosse mais um peso em suas costas, parte meu coração.

E o pior é que não sei o que fazer. Não posso me esconder para sempre dele, mas também não estou preparada para voltar. Estou tão chateada que sinceramente, pela primeira vez, não quero estar ao redor dele. Tento respirar fundo para afastar esses pensamentos quando escuto uma batida na porta e logo Luísa entra com uma bandeja de comida.

- Você não desceu para o café, e são quase meio dia, tem que comer.

Sorrio para minha amiga e me sento na cama. Como tive sorte do meu irmão se casar com ela, Heitor é cem por cento mais maleável com ela ao seu lado.

- Obrigada, Lu. - ela se senta ao meu lado na cama e começamos a comer as frutas e pães que ela trouxe - Como estão as coisas?

- Eu quem deveria estar perguntando isso, Manu. - ela bate seu ombro no meu sorrindo e eu tento retribuir, mesmo não estando para sorrisos - Ele veio aqui umas três vezes já.

Gostaria de dizer que minha apatia é tão grande que não me importo, mas a verdade é que ouvir isso faz meu estômago revirar de ansiedade. Apesar de não querer falar com ele ou ao menos o ver, quero que ele corra atrás de mim. Quero que ele sinta minha falta para nunca mais pensar em fazer uma merda dessas. Que raiva ele ser tão idiota e ao mesmo tempo o amor da minha vida. Talvez eu deva focar no meu ódio por ele em toda essa situação, seria mais fácil de o ignorar.

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