(Arthur)
sete meses depois...
Sinto sua ausência na cama e acordo em um sobressalto olhando ao redor, como se fosse achá-la escondida em algum canto do quarto. Estamos bem perto da data prevista para a chegada do nosso Dom, e todas as vezes que minha esposa se levanta para ir ao banheiro à noite eu acordo assustado. Ela já tentou me dizer que não precisa, que ela vai me chamar caso algo aconteça, mas estou em completo estado de alerta. Tenho pesadelos horríveis comigo não escutando ela me chamar, e por isso acho que condicionei meu sono a ser o mais leve possível, me deixando alerta de qualquer saída dela da nossa cama. E com nove meses, são muitas. Não me incomodo nem um pouco, só fico preocupado com a falta de sono da minha menina, nosso filho está a cansando demais.
- Querida? - me levanto da cama coçando os meus olhos para conseguir despertar mais rápido - Está tudo bem?
- Estou no banheiro! - o grito dela sai abafado de dentro do nosso banheiro.
Rapidamente cruzo nosso quarto indo em direção a ela, mas antes que consiga chegar na porta do banheiro, escorrego e caio de bunda no chão.
- Merda. - sinto minha calça de moletom enxarcada, e quando levanto minhas mãos vejo que também estão molhadas - Mas que porra... - olho ao redor e vejo que há uma poça d'água enorme e tento entender de onde veio esse vazamento.
Quando finalmente compreendo o que aconteceu, sinto meu corpo todo gelar e me levanto desajeitado do chão correndo para o banheiro. Para minha surpresa, minha esposa está cantarolando enquanto toma banho, como se sua bolsa não tivesse estourado por todo o nosso quarto.
- Manoela, que porra? Está na hora, meu amor. - pego uma toalha e abro o box a enrolando nela - Por que você não me chamou? E por que diabos está tomando banho?
- Calma, Arthur! - começo a secar ela e a levo com cuidado para o nosso quarto, evitando a poça que me derrubou - Faz uns cinco minutos que isso aconteceu, nem mesmo estou tendo contrações tão fortes ainda. Ia te chamar depois do meu banho.
- Por que o banho? - a deixo na nossa cama sentada e começo a tirar uma roupa para ela enquanto surto mentalmente - Nós temos tudo?
Tento fazer um check list mental, mas não me lembro de absolutamente nada. Parece que meu pânico fritou o meu cérebro e eu não consigo pensar em nada mais do que levar minha esposa imediatamente para o hospital.
- Porque não queria ir toda molhada para o hospital, quero estar confortável. - confortável? Minha mulher ficou louca - E temos tudo, a bolsa está no carro só precisamos entrar nele e irmos para o hospital.
Trago um vestido soltinho para ela e o visto por cima da sua cabeça, sorrindo quando vejo sua barriga enorme com o nosso filho. Calço uma sapatilha confortável nos seus pés e mentalmente me mando respirar para não ter um ataque de pânico. Quando ela está pronta, a pego da cama, mas ela para, me olhando como se eu estivesse louco.
- Arthur, você está com uma calça completamente molhada, sem camisa e descalço. - olho para mim mesmo e xingo baixinho correndo para colocar uma roupa e um tênis qualquer - Agora podemos ir.
Dirijo com cuidado, mas passo todos os sinais vermelhos até chegarmos ao hospital. Quase faço um escândalo quando não a atendem rápido o bastante, mas minha esposa pede para eu me acalmar então evito gritar. Apenas ameaças silenciosas, e olhares mortais.
- Você tem que parar, amor. - Manu sorri da sua posição deitada na maca segurando a minha mão - A equipe médica vai acabar te expulsando se continuar com essa fúria toda.
- Eles não são loucos de tentar fazer isso! - sorrio sem humor - Paguei muito dinheiro para essa parte do hospital estar totalmente disponível para você, sem contar no dinheiro que estou dando para esses incompetentes focarem apenas na minha esposa. Deveriam fazer um trabalho melhor para o tanto que estão ganhando.
- Clama, Arthur, você precisa se acalmar. - nesse momento uma forte contração pega minha menina de surpresa, e ela aperta minha mão quase a quebrando - Puta merda!
- Estão vendo? - completamente desesperado, aponto com minha outra mão para a minha mulher deitada - Por que ela está sentindo tanta dor? - passo a mão na testa dela limpando suas gotas de suor e por mim ela pode quebrar minhas mãos, pés e todas as costelas, contanto que sua dor passe.
- Senhor Arthur, ela está em trabalho de parto, o senhor está ciente disso? - a médica da minha esposa entra na sala e sorri para a minha mulher - A epidural pegou e logo vai começar a fazer efeito, mas um pouco de dor é inevitável.
Abro a boca para xingar essa médica incompetente, mas minha esposa aperta minha mão novamente, chamando minha atenção. Dessa vez ela força um sorriso me dando olhando com simpatia.
- Querido, você precisa se acalmar.
- Estou calmo! - tento soar convincente engolindo a seco minha ansiedade - Estou perfeitamente calmo.
- Tudo bem. - ela me dá um dos seus lindos sorrisos - Por que você não liga para o meu irmão, seus pais e para a Sara? Assim todos ficam sabendo.
Assinto pegando meu celular do bolso com uma mão e com a outra ainda agarrada na da minha mulher. Meus pais vieram para cá há alguns dias, disseram que não perderiam o parto do neto de jeito nenhum. Eles alugaram uma casa bem perto da nossa, e tem sido divertido tê-los por aqui. Sei que minha menina os ama muito, e sou muito grato por eles a amarem como uma filha.
Ligo para a pessoa que vai mais rapidamente passar a notícia adiante, e dois toques depois escuto a voz sonolenta do Thiago.
- Arthur, espero que seja para falar que o bebê está nascendo, porque me acordar a essa hora por qualquer outro motivo é fodido demais.
- O bebê está nascendo, avisa todo mundo!
- O quê? - escuto sua risada e uma movimentação - Sério? Não acredito, pode deixar...
Desligo na cara dele, com nenhuma vontade de escutar qualquer coisa que ele queira falar. Minha esposa tem outra contração forte e sua dor está me matando.
- Querida, como está? - me sinto um imprestável, não posso fazer nada para acabar com a sua dor nem mesmo diminuí-la, minha sanidade está numa linha fina aqui - Talvez ela precise de mais anestesia.
- Não temos tempo para isso, o bebê já está coroando. - a médica fala da posição sentada no meio das pernas da minha mulher - Manu, agora você vai respirar fundo e empurrar para mim.
- Tudo bem. Meu Deus! - ela geme e aperta a minha mão com força, mas praticamente não sinto mais nada com a dormência do meu estado de pânico.
Acho que meu espírito sai do meu corpo e fico no automático. Passo os próximos cinquenta minutos sofrendo ao lado da minha mulher, vendo sua dor e morrendo por dentro por não poder fazer nada. Minha linda menina é uma guerreira, e quando nosso bebê finalmente está em nossos braços, acho que meu coração vai estourar de tanto amor.
- Não falei que ele era lindo? - passo meus dedos pelo rostinho do nosso filho sentindo lágrimas queimarem nos meus olhos.
- Você falou mesmo. - Manu começa a rir e eu a encaro por longos segundos, sem conseguir entender como e quando eu tive tanta sorte.
- Tenho tanto orgulho de você, minha menina linda. Você me fez um pai e passou por tudo isso sozinha. - respiro fundo tentando esquecer os seus gritos de dor - Esperei três anos por você, mas teria esperado trinta ou a vida inteira. A espera valeu a pena, porque agora eu tenho você e não vou desperdiçar um segundo sequer que temos juntos. Sei que você é boa demais para mim, mas vou te amar com todo o meu coração para sempre. E ainda que eu tenha graves pecados, e saiba que meu lugar no inferno está garantido, não me importo! Porque cada dia ao seu lado é uma visão do paraíso, cada toque seu é uma benção e ter o seu amor, é o mais próximo do divino que vou chegar. Obrigado por me aceitar, Manoela.
Seco as lágrimas que começam a rolar pelo seu rosto, e me aconchego mais com meus dois milagres.
Minha família.
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Meu
RomanceDesde a primeira vez que a viu, Arthur soube que Manoela era a sua escolhida. Depois de anos sendo avisado por seu pai que isso um dia aconteceria, Arthur finalmente conheceu a mulher da vida dele. Só tem um problema, ela é a irmã mais nova de um gr...
