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Piper's Pov

Ando pelas ruas de New York pensando se não deveria ter vindo de carro, como planejei de início. Pelo menos dirigindo eu não consigo pensar muito, já que estou focada no trânsito agitado da cidade. Mas aqui estou com os pensamentos a mil sobre essa consulta.

Ou podemos chamar de meia consulta porque passei quase meia hora em silêncio me arrependendo completamente de estar ali. Achando que foi uma péssima ideia. Eu não conseguia falar. Olhava para o rosto da psicóloga e não sabia por onde começar ou o que falar. Cheguei até a pensar que eu não tinha o que falar, porque sempre tive uma vida tão boa, com meus pais me apoiando, me incentivando a seguir meus sonhos e me ensinando a ser forte. Meus amigos são maravilhosos, os melhores que eu poderia pedir. Eu não tinha problemas reais que me afetassem. Por que eu iria precisar de terapia?

Só que nem tudo era perfeito. Existia uma rachadura. Octavian. Que eu também costumava acreditar ser uma parte maravilhosa da minha vida. Realmente achei que ele seria o meu marido e o futuro pai dos meus filhos. Que viveríamos o meu sonho juntos. Eu só conseguia enxergar através de uma névoa de alucinação que não permitia que eu visse o quanto ele me machucava. Não fisicamente, ele nunca me tocou. Mas suas palavras doíam como uma faca afiada.

Eu engolia em seco, aceitava, perdoava, o beijava e abraçava depois, me deitava ao seu lado, fazíamos amor. Meus deuses. Tenho vontade de rir quando lembro disso. Porque rir me impede de chorar. Não quero chorar por ele, não mais, já chorei o suficiente quando terminamos. Eu aceitava cada migalha de amor que ele poderia me dar, me agarrava a isso e fingia que suas críticas pesadas não me atingiam.

Seu passatempo preferido era diminuir tudo o que eu fazia e depois dizer que estava sendo ingrata, porque ele só queria me ajudar.

Foi a primeira coisa que eu disse para Alessia, a psicóloga. Não sei porque foi isso, mas eu olhava para as minhas mãos inquietas e lembrei de quando ele disse o quanto meu projeto final da faculdade era patético e que iria fracassar.

Por que eu não rebati? Por que eu não defendi a minha ideia desde o início?

Essas perguntas rondam minha mente desde que saí daquela sala. E agora eu estou entrando em uma cafeteria para me sentar e digerir tudo o que foi falado durante apenas meia hora.

— Um café puro, por favor! — peço no balcão.

Nem sou a maior fã de café, muito menos sem açúcar, mas estou precisando disso agora.

Pago o pedido e pego a xícara, me sentando em uma das mesas disponíveis.

Você queria falar, sabia que deveria falar algo, mas se calava. Por que?

Ela me perguntou em um determinado momento. Esperei que ela mesmo respondesse a pergunta, mas não, ela esperou pacientemente que eu pensasse e chegasse em uma conclusão sozinha. Ela não iria responder por mim.

Ele tinha esse poder sobre mim. Podia me magoar, mas eu aceitava porque no fundo parecia ser verdade. Uma parte de mim acreditava nas palavras dele.

Dou um gole no café e sinto a queimação na língua. Mas ignoro.

E eu voltava. Cada vez que ele vinha com um pedido de desculpas ou nem isso. Ele só se aproximava com aqueles olhos e aquela voz mansa, que eu me rendia de novo e seguia em frente, mesmo que não tivesse realmente superado.

Os olhos azuis que um dia foram calorosos, se tornaram frios em algum momento desde que começamos a namorar e eu nem lembro exatamente quando aconteceu. Porque eu não percebi.

Sinto aquele aperto no peito e a primeira coisa que faço é pegar meu celular para lhe enviar uma mensagem. Para uma das minhas pessoas favoritas nesse mundo.

Em menos de 2 minutos, recebo sua resposta dizendo que está a caminho. Sem nem perguntar o que aconteceu. Como sempre.

Eu não quero pensar nele o tempo inteiro. Eu quero apenas seguir em frente. Não aguento mais fingir que não me importo com ele para os meus amigos.

Foi o que eu respondi quando Alessia me perguntou o que eu queria agora. Seu rosto sereno, tentando me transmitir calma e segurança, para eu me sentir confortável.

Você não precisa fingir. Tudo bem ainda se importar, Piper. O sentimento não some da noite para o dia.

Eu entendi isso e também entendi que um dia vou superar. Não hoje ou amanhã, mas vai acontecer. Não quero que ele ainda tenha esse poder sobre mim, mesmo que distante e já separados. Octavian não era o amor da minha vida como eu acreditava que fosse, não era para ser o meu marido nem pai dos meus filhos. Acho que ele nunca nem quis ser meu companheiro, de verdade. Apenas queria alguém para manipular e se sentir amado para aumentar o ego. E ele conseguiu o que queria.

Me pergunto como ele está agora que não tem mais isso. Talvez já tenha arrumado outra mulher para repetir o mesmo processo. Talvez até seja aquela que estava na nossa casa. De um jeito ou de outro, não tenho dúvidas de que está a traindo também.

Bebo mais um pouco do café e solto uma risada baixa. Que ele faça o que quiser. Contanto que esteja bem longe de mim.

Eu mereço mais do que isso. Muito mais. E espero nunca mais me contentar com tão pouco.

Bebo o resto do café que a essa altura já está morno, e escuto o som do sino na porta. Levo minha atenção nela e abro um pequeno sorriso quando vejo quem é. Ele logo me encontra e se aproxima da mesa com um sorriso.

Os olhos azuis.

Eu costumava achar Jason parecido com Octavian, mas hoje percebo que mesmo ambos sendo loiros e de olhos azuis, eles não poderiam ser mais diferentes. Esses olhos azuis que me examinam agora são calorosos e brilhantes, me olham como se eu fosse a pessoa mais especial do mundo. Sinto o carinho de Grace por mim apenas pelos os seus olhos.

— Oi. — ele diz.

Me levanto da cadeira e rodeio seu pescoço com meus braços. Jason não hesita antes de me abraçar de volta, apertando minha cintura.

Não precisamos dizer nada. Nós apenas sabemos.

Uma de suas mãos acaricia minhas costas antes de eu me afastar o suficiente para o olhar.

— Vamos?

— Vamos. — respondo.

Pego minha bolsa e o acompanho até seu carro.

Eu vou ficar bem. Eu tenho Jason Grace ao meu lado em todos os momentos.

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Espero que tenham gostado!! Não esqueçam de comentar e dar estrelinha no capítulo <3

Mutual • PercabethOnde histórias criam vida. Descubra agora