Gustavo Mioto é um cabeça dura, um alemão que trancou seus sentimentos após perder a irmã, mas quando ele encontra a alegre e desbocada Ana Flávia seu mundo vira de cabeça pra baixo, ele se vê fascinado por essa mulher, comete mais erros que acertos...
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Quando chego à Alemanha, Norbert me espera no aeroporto.
É ele que, com sua mulher, Simona, cuida do dia a dia da casa onde vivo com José Rafael.
Uma vez em casa, ainda dentro do carro, cumprimento minha irmã Letícia, minha mãe e meu sobrinho.
Ao me ver descer, José Rafael corre até mim e me abraça, feliz.
Pergunta:
- Por que demorou tanto para voltar?
Bagunço seu cabelo com carinho e, dando-lhe um beijo na testa, respondo:
- Tinha muito trabalho.
Depois de cumprimentar minha mãe e minha irmã, os três vão para a sala de jantar degustar a comida maravilhosa que Simona nos preparou e subo até meu quarto e deixo a sacola que carrego na mão.
Durante toda a viagem em meu jatinho particular, a luminária que agora tiro da sacola me acompanhou.
E não pude parar de olhar para os lábios de Ana Flávia carimbados nela.
Com carinho, toco-os e sorrio sem saber por quê.
Não liguei para ela nem ela para mim.
E agradeço por isso, porque acho que ambos devemos seguir nossos caminhos.
Caminhos que não têm nada a ver um com o outro.
- Tio, você vem?
Levanto os olhos e vejo José Rafael entrar em meu quarto.
Viro a luminária para que ele não veja os lábios de Ana Flávia.
Quando José Rafael vai perguntar algo, advirto:
- Proibido mexer, okay?
Meu sobrinho assente, não diz mais nada, então me levanto e vamos juntos para a sala de jantar.
***
O almoço com minha família é divertido.
Minha mãe, como boa espanhola que é, tem mil assuntos, e Letícia a acompanha, ao passo que José Rafael e eu as escutamos em silêncio.
- Bem, e como foi nos escritórios? - pergunta minha mãe.
- Bem - afirmo.
Ela me olha, suspira e insiste:
- E no escritório central de Madri?
Irremediavelmente, penso em Ana Flávia.
- Bem - afirmo mais uma vez.
- Irmãozinho, você pode ser um chefe muito bom, mas comunicação familiar não é seu forte - debocha Letícia.
Olho para minha irmã.
Sua resposta é bem ao estilo de Ana, e sorrio.
Então, ao perceber isso, ela pergunta:
- Você está sorrindo?
Sem poder evitar, assinto.
- Sim, Letícia, estou sorrindo. Eu sei sorrir!
Minha mãe e ela se entreolham, surpresas.
- Eu sabia que ir para a Espanha lhe faria muito bem - afirma minha mãe.
- Voltou todo animado - solta Letícia com uma gargalhada, fazendome rir de novo.
José Rafael, que é sério como eu, olha para mim e, quando vai dizer algo, eu me antecipo:
- Tem algo para me contar sobre a escola?
A partir desse instante, minha irmã e minha mãe tornam a tomar as rédeas da conversa.
Sempre que viajo, José Rafael se comporta mal.
Quando fico sabendo de tudo, olho para meu sobrinho e sibilo:
- Você está de castigo. Sem PlayStation pelas próximas duas semanas.
- Não é justo! - lamenta ele.
Observo-o, boquiaberto.
Antes que minha mãe proteste, faço-a se calar e rosno:
- O que não é justo é você ainda não saber se comportar com sua avó e sua tia, isso sem falar na escola e com a babá. Que história é essa de ir mal em três provas e enfiar um rato na gaveta de Fräulein Schäfer? E digo mais: se continuar assim e for reprovado, ano que vem vai para um colégio interno e só vai sair no Natal, entendeu?
Ele assente.
Não diz mais nada.
Tem medo desse tipo de colégio e é o único argumento que posso usar para colocá-lo na linha quando ele extrapola.
Quando o garoto acaba de comer, bravo com nós três, pede licença para sair da mesa.
Ficamos só os adultos, e então minha irmã fala do que precisa ser feito em meus olhos, que, para ser sincero, não sei nem como se pronuncia.
Tudo esclarecido, as duas vão embora e eu vou dar uma volta de moto.
Preciso espairecer.
Preciso parar de pensar na jovem espanhola que, sem que eu lhe desse permissão, tocou levemente meu coração.