35 - Leite tá caro

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— Boa noite, dona Bia

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— Boa noite, dona Bia.

— Boa noite, André! Chegou alguma encomenda pra mim?

— Chegou sim, vou pegar.

Aproveito a espera para olhar e responder algumas mensagens.

— Aqui, dona Bia.

— Obrigado! — Jogo o celular dentro da bolsa e pego a caixa, sorrindo para ele.

— Cadê sua cria, não vem hoje não?

— Não. A vida dela tá meio corrida por causa da faculdade, o estágio e alguns trabalhos para a faculdade.

— A menina Hellen eu sei que anda ocupada, eu tava falando do galego que vive pra cima e pra baixo com a senhora.

Ergo a sobrancelha um tanto indignada.

— Minha cria?

Sorri fazendo um gesto de desdém com a mão.

— É jeito de falar, porque ele é novinho. Um menino daquela idade a senhora só pode ter pego pra terminar de criar né?! — Ri como se tivesse falado algo muito engraçado. — Aliás, a senhora já viu o preço do leite? Tá caro viu, dona Bia.

Continua rindo, totalmente alheio ao que sua piada se mau gosto causa em mim.

Uma sensação esquisita se espalha por todo meu corpo destruindo qualquer resquício da felicidade que sentia ainda há pouco. Meu coração parece murchar igual um balão furado.

O síndico passa por nós desejando boa noite e isso me arranca do torpor que a piadinha infeliz me jogou.

Encaro duramente o porteiro inconveniente.

— Tem razão, André, leite tá caro. Mas cuidar da sua vida ainda é de graça, deveria tentar. Ah, e vai procurar sua noção porque você parece ter perdido por aí.

Dou as costas sem esperar qualquer reação e sigo para o elevador. Demoro mais tempo do que o necessário para chegar até ele porque meus membros parecem pesar uma tonelada e meus movimentos estão letárgicos.

Após finalmente entrar, apoio meu corpo contra a parede do elevador, jogo a cabeça para trás e fecho os olhos. Repasso todos os momentos que já vivi com Gustavo. Dos mais felizes aos mais dramáticos.

Saio do elevador um pouquinho melhor e sorrio ao entrar no apartamento e ouvir a voz do meu amor. Largo as chaves, a caixa da encomenda e a bolsa sobre o sofá, deixando meus pés me guiarem até ele. Abandono as sapatilhas no meio do caminho, paro na porta da cozinha, apoio meu ombro contra o batente e cruzo os braços. Um sorriso desenha meus lábios.

Investe em mim

Aposta tudo em mim

Eu prometo te fazer feliz

Canta animado enquanto corta alguma coisa na tábua de carne. A colher de pau que estava ao lado cai no chão quando Gustavo bate nela sem querer. ele abaixa para pega-la, joga dentro da pia e se vira, provavelmente para pegar outra, é quando finalmente nota minha presença.

Quando Menos Imaginei Histórias para pegar e não largar. Descubra agora