Capitulo 72

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Karla

Consegui sair da cidade sem precisar falar com ninguém, o Wesley estava voltando de uma viagem, então não peguei ônibus com ele, fui de ônibus até uma cidade próxima e peguei um avião de lá, pois queria chegar rápido e de ônibus demoraria muitas horas.

Se eu não me engano, chegaria em dias. Não tenho paciência para ficar esperando tudo isso e também precisava ir logo, eu tinha que ir no final de semana.

Cheguei no Rio de Janeiro sexta feira à noite, por volta das 20h, fiz check-in no hotel e já fui me organizando.

Deixei a roupa que eu usaria no dia seguinte arrumada, oque eu precisaria para arrumar o cabelo e as outras coisas, desci no restaurante do hotel e jantei.

Subi para o meu quarto depois das 22h e fui dormir, precisava estar descansada para acordar daqui algumas horinhas.

....

04:30 da manhã.

Acordei com o despertador tocando alto, desliguei o mesmo e fui tomar meu banho, olhei minha barriga enquanto a água quente caía e simplesmente não parecia que um ser estava crescendo ali, dentro de mim.

Era muito estranho a sensação de que eu estava tentando uma criança dentro de mim.

Será que eu serei uma boa mãe? Espero que sim. - falei comigo mesma.

Senti uma temidinha estranha na barriga e sorri.

Karla: Você se mexeu pra mim? - falei sorrindo e fazendo carrinho.

Senti mais uma mexidinha e depois nada mais.

Sai do banho depois de uns longos minutos naquela água quente, o clima ainda estava frio por ser de madrugada, mas não iria colocar blusa de frio.

Coloquei uma calça leggings e uma camiseta larga, assim quem me visse, não veria a barriga, calcei meu chinelo e penteei meu cabelo em um rabi de cavalo, estava sem ânimo para arruma-lo hoje.

Tinha feito algumas comprinhas em um mercadinho perto do hotel, arrumei em uma sacola e levei comigo.

Sai de casa, as 05h da manhã e chamei o Uber, fiquei esperando em frente ao hotel e quando ele chegou, entrei e passei o código.

Uber: É este endereço mesmo? Está correto?

Karla: É sim! Está certíssimo!

Uber: Ok, desculpa a pergunta, é que tu não aparece uma mulher que visita esses locais.

Karla: Eu imagino que não pareça mesmo.

O caminho até lá foi silencioso. Cada esquina, cada semáforo, como se o tempo estivesse me empurrando devagar pra algum lugar que eu não queria ir. Eu encarava o chão a maior parte do tempo, desviava o olhar das pessoas ao redor, como se o simples fato de olhar nos olhos de alguém fosse me fazer desabar.

Quando cheguei o cheiro foi a primeira coisa que me atingiu. Uma mistura de desinfetante, poeira antiga e um pouco de ferro, como se o ar tivesse gosto metálico.

Não era o tipo de lugar que você esquece fácil.

Passei por uma porta, depois outra e mais outra. Cada uma com um barulho de ferro pesado se fechando atrás de mim.

Era como se o mundo lá fora fosse ficando mais distante a cada passo. A luz era fria, meio amarelada, e as paredes pareciam contar histórias que ninguém queria ouvir.

As pessoas ao meu redor, algumas tinham o olhar perdido, outras olhavam fixo pra frente como se quisessem terminar logo com aquilo. Teve quem chorasse. Teve quem andasse de cabeça baixa o tempo todo.

Eu só tentava controlar a respiração. Inspirar. Expirar. Sem demonstrar nada.

Minhas mãos suavam. As pernas pareciam de algodão. Toda vez que eu achava que já tinha passado por todas as etapas, vinha mais uma: mais uma fila, mais uma porta, mais uma revista.

Um protocolo atrás do outro, como se o lugar fosse feito pra te fazer desistir antes mesmo de chegar ao final.

Eu me pegava olhando pros detalhes mais bobos, só pra tentar distrair a mente. O som dos sapatos contra o piso. O barulho de chaves sendo giradas. As câmeras nos cantos. A tinta descascada perto do teto.

Quando finalmente me chamaram, o estômago deu um nó. Eu hesitei por meio segundo, mas dei o passo adiante. Não era mais hora de voltar atrás.

Sentei na cadeira que apontaram. As mãos apoiadas no colo. O olhar fixo num ponto qualquer da parede, só pra não demonstrar fraqueza. As palavras estavam todas entaladas na garganta, mas nenhuma delas saiu.

Era a primeira vez. E, de alguma forma, eu sabia que jamais esqueceria aquele dia.

Sabrina (M) Onde histórias criam vida. Descubra agora