Capitulo 73

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Karla

Mais uma porta se abriu.

O som do metal arrastando, o estalo das trancas.

Eu nem precisava olhar pra trás pra saber que ela já tinha se fechado de novo. Cada passo que eu dava era como se uma linha invisível fosse sendo cortada atrás de mim. Sem volta.

O chão de cimento frio parecia mais duro do que qualquer outro que eu já tivesse pisado. Tinha uma distância enorme entre os meus pés e o resto do corpo. Eu andava, mas parecia flutuar. Meio fora de mim.

O corredor era longo. As paredes, manchadas de tempo e descuido. Algumas vozes ecoavam ao longe, risadas abafadas, conversas que eu não entendia, mas que pareciam acontecer sempre ali, naquele tom cansado de quem já decorou aquela rotina.

O cheiro sempre o cheiro. Uma mistura de suor, metal, e aquele desinfetante forte que parecia tentar esconder tudo o que de ruim o ar carregava.

Tentei manter os olhos fixos em um ponto qualquer. Evitar encarar as outras pessoas que caminhavam na mesma direção. Algumas mulheres ajeitavam as roupas antes de entrar, passavam a mão no cabelo, conferiam os documentos uma última vez. Outras apenas respiravam fundo, como eu.

A fila andou. Eu andei junto. Sem falar nada.

Passei por mais um portão. Um guarda anotou algo numa prancheta, mas nem levantou os olhos pra mim. Como se eu fosse só mais uma na estatística.

Quando entrei no salão, o barulho foi o primeiro soco. As vozes todas misturadas, conversas altas, algumas risadas nervosas, choros abafados

Um caos que parecia organizado apenas pra quem já estava acostumado com aquilo.

Havia cadeiras enfileiradas, de um lado e de outro. Um espaço no meio, como uma linha invisível dividindo os mundos.

De um lado, quem espera. Do outro quem é esperado.

Eu caminhei até a cadeira que indicaram. Sentei devagar, ajeitando as mãos no colo como se fosse a única coisa que eu soubesse fazer direito naquele momento.

O coração batia rápido, mas o rosto frio. Impassível.

Eu fingia não olhar ao redor, mas tudo em mim estava atento. Cada movimento, cada olhar cruzado por acidente, cada conversa que eu tentava não ouvir.

A sensação era clara: eu estava dentro. Com todas as letras. E por mais que fosse só uma visita a cada segundo que passava, meu corpo entendia que aquele lugar marcaria mais do que só a minha memória.

Ali, naquele instante eu era só silêncio. Mas por dentro um turbilhão.

O tempo ali dentro parecia diferente.

Lento, arrastado, como se cada minuto tivesse o dobro de segundos.

Eu tentava controlar as mãos, que teimavam em suar. Os olhos fixos em um ponto qualquer da parede, como se aquele pedaço de tinta descascada fosse a coisa mais interessante do mundo. Mas, por dentro cada passo que ecoava no chão gelado fazia meu coração disparar. Cada novo rosto que aparecia pela porta me fazia prender o ar por um segundo.

Até que ele entrou.

"Careca", como todos chamavam. Meu cunhado.

O apelido fazia sentido. Não tinha um fio de cabelo. A cabeça lisa, brilhando sob a luz fria do teto. O porte ainda mais pesado do que eu lembrava. Ombros largos.

A expressão cansada, mas com aquele olhar que parecia sempre medir o ambiente inteiro antes de decidir onde fixar os olhos.

Ele olhou ao redor, como quem faz o mesmo ritual toda semana. Passou os olhos pelas outras mesas, pelos guardas, por algumas mulheres que já acenavam de longe, e finalmente me viu.

Sabrina (M) Onde histórias criam vida. Descubra agora